AURICIO ARAUJO

A engenhosidade de O Perfume da Memória

O Perfume da Memória enfatiza a delicadeza da amizade e do amor entre as duas mulheres, nos leva a questionar e discutir a relação do ser humano perante o outro, relação tanto heterossexual quanto homossexual.


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“Eu vou contar uma história pra vocês... Era uma vez... É difícil precisar o momento exato em que uma história acontece”. (O PERFUME DA MEMÓRIA)

E é dessa forma que Oswaldo Montenegro começa a contar mais uma de suas magnificas histórias.

O Perfume da Memória, terceiro filme do multitalentoso Oswaldo Montenegro, fala talvez da coisa mais universal ao ser humano, o amor. O ponto forte do roteiro é pautar as personagens em arquétipos claramente tirados do zodíaco, ou usar explicações psicológicas para exemplificar o comportamento das personagens.

Ana (Camila Pistori) e Laura (Amandha Monteiro) são duas mulheres completamente diferentes. Ana é apaixonada por arte, poesia, cinema e tudo que há de mais belo e poético nesse mundo, Laura acaba de sair de um casamento falido, no qual ela amava o seu companheiro e sente-se devastada com o fim do relacionamento, devastada ao ponto de ficar sozinha em casa na noite do seu aniversário.

A história desenrola-se no momento em que Ana bate na porta de Laura, falando de modo persuasivo que precisa a conhecer.

O filme tem como tema o conflito entre a razão e o desejo, partindo da premissa de que toda escolha é uma renuncia e o preço mais caro é ser obrigado a escolher. Duas mulheres que esperam coisas completamente diferentes do amor acabam se conhecendo por iniciativa de uma delas gerando uma infinidade de encontros e desencontros radicais. Ana detém um segredo que pode aproximar ou afastar as duas. Uma afinidade magica ameaçada pelas circunstancias.

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Vale ressaltar que o filme se passa quase inteiramente em apenas um cenário, o que favorece as interpretes, já que estas são atrizes de teatro. Mas como fazer o filme funcionar com uma limitação dessas? Ai que entra a genialidade do ótimo roteiro de O Perfume da Memória.

Os diálogos são de longe o ponto mais alto do longa, são apenas conversas reais entre duas mulheres que acabam de se conhecer e ainda estão se conhecendo, enquanto sem perceber estão conhecendo a si próprias.

Somos conduzidos por uma trilha sonora inebriante feita por Montenegro que faz o espectador deleitar-se com o texto. Duas musicistas, a flautista Madalena Salles e a violoncelista Janaína Salles permeiam e ligam as cenas, reforçando o aspecto poético do longa-metragem, como se fossem a alma das personagens.

O filme toca em assuntos muito discutíveis nos dias atuais, tais como, traição, sexualidade e os padrões impostos pela sociedade, ele vence qualquer tipo de estereotipo com uma engenhosidade poucas vezes vista antes.

O Perfume da Memória é a história de uma paixão entre duas mulheres, mas não impõe bandeiras. É amor sem signos fechados, apenas signos abertos, como é o amor feminino. Essas duas mulheres poderiam ser substituídas por um homem e uma mulher ou por dois homens, ele trata do amar como verbo, e o amar como verbo dispensa substantivos, dispensa rótulos.

O Perfume da Memória enfatiza a delicadeza da amizade e do amor entre as duas mulheres, nos leva a questionar e discutir a relação do ser humano perante o outro, relação tanto heterossexual quanto homossexual.

O filme está disponível no YouTube e qualquer pessoas pode apreciar essa verdadeira obra de arte, aproveite e faça a sua própria reflexão sobre os assuntos abordados.


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