AURICIO ARAUJO

As minhas memórias póstumas

Aos meus ex amores, deixo todos os abraços, os beijos, as noites de sexo, as ligações inesperadas, as declarações, aquela sensação de que éramos inseparáveis, que de éramos mais forte que tudo e todos.


Paolo_Monti_-_Serie_fotografica_-_BEIC_6342937.jpg

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosas lembranças essas memorias póstumas”.

Antes de mais nada, gostaria de avisar ao leitor desse texto que sou uma longa historia e aqui irei fazer um breve testamento.

Se essa carta está sendo lida, é porque certamente não estou mais entre as pessoas que amo, então vamos ao que realmente importa:

Para os meus amigos eu deixo o melhor de mim, os meus sonhos, os meus pensamentos de revolucionar e os meus devaneios.

Não tenho muitas coisas e nem muitas pessoas a quem deixar, no meu quarto tem uma escrivaninha, com alguns livros, mas estes não deixarei a ninguém especifico, peço apenas que quem decida ficar com eles faça bom uso e respeite toda a historia contida ali.

Aos meus irmãos, deixo as minhas melhores lembranças, de todos os momentos felizes que tivemos juntos, de todas as conversas jogadas fora, de todos os momentos com os nossos pais.

Para a moça que morou comigo, deixo todos os textos que escrevi, além daquela ultima garrava de vinho tinto guardada a sete chaves, alias quão boas eram as noites em que decidíamos tomar vinho, ficávamos com uma filosofia tão afiada que só uma bebida alcoólica é capaz de fazer.

Aos meus ex amores, deixo todos os abraços, os beijos, as noites de sexo, as ligações inesperadas, as declarações, aquela sensação de que éramos inseparáveis, que de éramos mais forte que tudo e todos.

Ao meu primeiro amor, (que nunca esqueci), deixo a lembrança do nosso primeiro beijo, aquele bem rápido, no corredor da sua casa, assustados para que os nossos pais não nos vissem, deixo ainda a lembrança da nossa primeira transa, aquela cheia de amor, onde por alguns instantes nos sentimos completamente preenchidos.

Aos meus filhos deixo o legado de que eles sejam sempre uma casa de bons sentimentos e planos positivos, o desejo de revolucionar, que eles possam encontrar um amor verdadeiro, que seja reciproco, faço ainda o pedido de que eles lutem para viver em uma sociedade sem tantas desigualdades sociais, financeiras, de gênero, lutem pelos seus sonhos, pelas pessoas que amam.

Aos meus amores platônicos, unilaterais e não correspondidos, dedico a eles a lembrança do ultimo romântico que eles conheceram, do ultimo romântico que os amou, mas também quero que eles se lembrem do meu poder de me reconstruir após cada desilusão com cada um deles, que fiquem também com a minha imagem mais forte.

No meu computador vocês encontrarão todas as minhas fotos, por favor que elas não sejam esquecidas e nem perdidas, ali estão os meus momentos mais felizes eternizados em fotos.

Peço que peguem todos os meus discos e façam bom uso também, não irei especificar quem deva ficar, apenas peço que preservem a boa musica contida neles.

A todas as pessoas que magoei deixo o meu mais sincero pedido de desculpas, pelas palavras ditas sem pensar e até pelas que não disse.

Os meus bens materiais que aqui não foram citados não me interessa muito o que será feito deles, peço apenas que lembrem de mim como um ser humano errante mas que sabe reconhecer os próprios erros.

Ao mundo, deixo o meu pedido de que se torne um lugar mais justo, que as pessoas aprendam a preservar as belezas, a natureza, os animais, que as pessoas aprendam a ser mais tolerantes, que passem a se respeitar, que deixe de ser esta selva de pedra.

Adeus!


version 1/s/recortes// @obvious //AURICIO ARAUJO