AURICIO ARAUJO

Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito!

Johnny Hooker é da fossa a superação, do ódio ao amor, do samba, carimbo e rock ao frevo, que revela o misto de referencias brasileiras que faz com que ele seja mencionado pelos críticos de arte como um artista inovador da geração atual.


fd.jpg

Visceral, carnal e majestoso seriam alguns adjetivos para definir o disco de Johnny Hooker, ele parece tirar cada musica das entranhas e conseguiu criar canções com apelo as massas e que falam diretamente aos sentimentos mais básicos de qualquer pessoas que as ouça: amor, perda, raiva e sexo.

Hooker é sem duvidas uma das vozes mais interessantes dessa geração, ele é o retrato da mais pura autenticidade. O disco inicia-se com mística “Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito!”. “E que seja feliz com quem encontrar, mas nunca mais volte aqui e profane o meu lar”, ela é um retrato do conflituoso misto de sentimentos perturbadores que atordoam o sono de qualquer pessoa que perdeu um amor.

“Volta” segunda faixa do disco, é um verdadeiro clamor pedindo para que o amado retorne “Então procurei pelo teu cheiro nas ruas que andei, nos corpos dos homens que amei, tentando em vão te encontrar”, ela traduz o verdadeiro significado do que se entende por “fossa” “Volta que eu perdoou teus caminhos teus vícios”.

A faixa “Alma sebosa” vem como um grito desesperado envolto de dor e ódio e mostra o interesse por um parceiro de moral duvidosa “Se não me quiser não me procure nem mais pra fuder eu insisto, quer saber eu desisto”.

“Chega de lagrimas” é aquele grito de quem cansou de tudo, dos desamores, das falsidades, da vida “Chega de lagrimas, eu vou meter o pé na estrada, me livrar de você, da sua cara”, ela serve de hino para quem quer assim como Johnny meter o pé na estrada e se livrar das “Demônias”.

“Amor marginal” é o verdadeiro retrato de uma sociedade machista, conservadora e homofóbica, ela escarna as dores de quem tem que estar no submundo para viver os seus amores “Não me deixes aqui a gritar no meio do caminho sozinho (...) respirando magoas de uma outra dor, do nosso caso imoral, desse amor marginal, pra calar o sexo mais banal, pra virar poesia”.

lk.jpg

A insistência em um amor fadado ao fracasso está presente em “Segunda chance”, ela mostra de forma monstruosa como um amor pode ser devastador “Pra você restou a vida que escolheu, mas pra mim só a voz que Deus me deu (...) me profanou, me incendiou e até roubou um sonhador”.

“Boyzinho” mostra os vários tipos de pressões que um jovem pode sofrer, porém grita contra tudo que lhe é imposto “ Boyzinho espera o ano inteiro pra chegar fevereiro, não se amarra dinheiro, boyzinho corta o cabelo (...) Deus me disse, eu vou ser mais feliz assim”.

Em “Boatos”, uma das mais animadas, vemos um Johnny que não liga para o que as pessoas pensam ou falam, afinal não passam de boatos “Vejo as meninas tudo me fascina corpos, carnavais (...) e, no entanto me assumo, me jogo, me arrisco de fato, maldizem meu nome boato”.

“Você ainda pensa?” é um grito visceral que mostra o uso do sexo como instrumento de vingança, aliás, que vingança! “Eu sei que você ainda pensa em mim quando você fode com ele, eu sei que sim”.

O disco se despede com “Desbunde geral”, um Frevo que mostra a esperança de encontrar um novo amor no próximo carnaval “E a gente se pega, se borra e se morde no chão de estrelas, que meu corpo receba o desbunde geral”.

Nesse disco, a musica de Johnny se conecta aos mais diversos artistas, detentores de obras que tencionaram ilustrar quadros onde a paixão e violência de seus personagens fossem o ponto de partida e a ruina de seus fins. Hooker enfileira personas que tem sumido das letras de musicas do cancioneiro popular e os embala a ritmos e letras de fácil lembrança. Prostitutas, homens que amam a beira da própria humilhação e personagens movidos pelo impulso da bebedeira são atirados num ambiente vagamente familiar para se relacionarem: o mesmo fundo do poço onde se escondem os infelizes e comemoram a liberdade os finalmente independentes.

Johnny Hooker é da fossa a superação, do ódio ao amor, do samba, carimbo e rock ao frevo, que revela o misto de referencias brasileiras que faz com que ele seja mencionado pelos críticos de arte como um artista inovador da geração atual. Ele é Bowie, mas também é Caetano Veloso. É Madonna, mas também é Gal Costa, e talvez até um pouco de Alcione.


version 3/s/musica// @obvious, @obvioushp //AURICIO ARAUJO
Site Meter