AURICIO ARAUJO

A mulher do fim do mundo é negra, brasileira e feminista, ela é Elza Soares!

Elza Soares é o olhar misterioso de Capitu, a casca grossa de Maria da Penha, o sorriso alegre de Carmen Miranda, o braço forte de Dandara, tudo junto. É daquelas mulheres que fazem História pra lembrar às mulheres do Brasil que esse país é nosso.


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Elza foi considerada recentemente pela BBC a cantora do milênio, e conhecida em todo mundo como a rainha do samba, o que ninguém imaginava é que aos 60 anos de carreira, aos 78 de idade e com o primeiro disco exclusivo de inéditas da carreira ela entraria em listas de melhores discos do ano, ao lado de figuras como Beyonce.

A mulher do fim do mundo é um trabalho primoroso onde Elza encarna essa mulher, ela não é apenas um ícone como artista, é também como mulher, a vida não deu trégua para ela, teve que ser forte para lidar com inúmeras dificuldades e ainda assim nunca deixou de subir no palco.

O disco se inicia com “coração do mar” que é um poema de Oswald Andrade, uma ode a uma terra imaginaria que ninguém conhece, quente e negreiro do mangue.

Em seguida vem à obra que rendeu o titulo do disco, “A mulher do fim do mundo” meu choro não é nada além de carnaval, é lagrima de samba na ponta dos pés (...) mulher do fim do mundo, eu sou – e vou – cantar até o fim.

É incrível a familiaridade que temos com o trabalho de Elza e ainda assim ele é tão original, ela se mostra mais empoderada do que nunca na musica “Maria da vila Matilde” porque se a da penha é brava imagine a da vila Matilde. O melhor dessa faixa é o deboche de Elza quando ela diz que quando o servidor publico chegar ela oferece um cafezinho e mostra o roxo no braço e quando a mãe do agressor ligar ela capricha no esculacho, empoderamento de encher os olhos.

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A seguir vêm duas faixas “Luz vermelha” descrição de um rio de janeiro pós-fim do mundo por onde ela vaga sobrevivente. E “Pra Fuder” essa sobre uma experiência sexual onde ela se sente como uma entidade nativa do fogo, indagada sobre o teor da letra, ela disse que pra fuder não é sobre cama não e sim sobre a mulher que bota pra fuder de verdade.

Se até então já estamos ficando sem folego de tanto samba, segura mais esse tamborim, porque a sexta faixa do disco é sobre “Benedita”, uma travesti traficante que leva o cartucho na teta e abre a navalha na boca, certamente a faixa mais agressiva do disco.

A musica seguinte e “Firmeza” que simula a conversa entre dois amigos que se encontraram na rua provando o quanto dona Elza manda na bodega toda. Depois disso vem à faixa “dança” que retoma as questões existenciais/espirituais “e o que me fizer morrer vai me fazer voltar”.

Se o disco se inicia com duas faixas belíssimas, ele se despede com três tão bonitas quanto “o Canal” tem forte influencia da musica africana, “Solto” descreve o processo de morrer, a alma solta o corpo, e finalmente “Comigo” fecha o álbum com chave de ouro, “levo minha mãe comigo, embora já se tenha ido”.

Nada é doce e suave quando se trata de Elza soares, desde sua expressão dura, emoldurada por seu afro volumoso coroado com flores ou um turbante, até sua voz metálica e suas feições felinas.

Esse trabalho de Elza soares é fogo, é melancolia, é sofrimento e é liberdade assim como ela e, como é a mulher brasileira. Empoderada, toca na ferida, nos dá aquele tapa que dói, mas nos faz enxergar, trata de racismo, misoginia, transfobia.

Elza Soares é o olhar misterioso de Capitu, a casca grossa de Maria da Penha, o sorriso alegre de Carmen Miranda, o braço forte de Dandara, tudo junto. É daquelas mulheres que fazem História pra lembrar às mulheres do Brasil que esse país é nosso.


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