AURICIO ARAUJO

Espalhe que o amor não é banal

Num mundo em que fingir que não sente nada é a moda, o Eu te amo torna-se um enunciado perigoso e de duplo sentido, no ponto em que liberta o ser em agonia, também o aprisiona em uma série de padrões, rótulos, expectativas, garantias e clichês.


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Eu te amo! Achei melhor falar agora, antes de qualquer coisa, antes que qualquer besteira possa ser feita, antes que o tempo fique frio demais ou a terra pare. Eu te amo! Eu tinha que dizer isso antes das dez da noite, antes do final de semana, antes de qualquer coisa.

E você me perguntou: Como assim você me ama? Você tem certeza disso?

Li, respirei fundo, e pensei: Num mundo em que fingir que não sente nada é a moda, o Eu te amo torna-se um enunciado perigoso e de duplo sentido, no ponto em que liberta o ser em agonia, também o aprisiona em uma série de padrões, rótulos, expectativas, garantias e clichês.

O amor romântico como conhecemos, nos foi apresentado por meio dos filmes de Hollywood, e partir dele desenrolaram-se os clichês que se perpetuam até hoje. Um padrão de amor que nos faz zombar de Augusto dos anjos, quando em sua escrita afirma que o amor da humanidade é uma mentira e é por isso que na sua lira de amores fúteis poucas vezes fala.

No contraponto nos faz “amar” Quintana porque ele nos pede para espalhar que o amor não é banal. E que embora estejam distorcendo o sentido verdadeiro dele, ele existe.

Mas fugindo da grande tela cinematográfica, e da literatura que permite em poucas linhas que um romântico incurável se torne um total desacreditado no amor, voltemos então à realidade. Eu poderia passar horas aqui tentando explicar as teorias de Zygmunt Bauman, geração Y, Millenials, e o quão escrotos estamos nos tornando, mas uma coisa que aprendi é que assim como a zoeira, a escrotidão humana não tem limites nem solução aparente.

O fato é que se relacionar no mundo moderno tem sido um verdadeiro exercício de elevação espiritual, as nossas relações para quem vem de outro background, aparentam ser vazias e apenas virtuais por causa do Tinder. Não vemos tantos problemas em transar com a pessoa que conhecemos no aplicativo e nunca mais falar com ela, ou então nos apaixonarmos perdidamente e de repente essa paixão acabar, nós nos relacionamos com menos firulas e ainda assim sabemos dizer um “Eu te Amo” verdadeiro.

Essa fluidez que chegamos não significa que amamos menos ou que somos menos humanos por isso – fazemos ate vaquinha virtual para bancar o projeto artístico de um artista desconhecido – nós podemos até criar o milésimo grupo de apoio a um problema. Nós não perderemos o amor das nossas vidas por estar olhando a tela do celular.

Passada toda essa reflexão entre uma mensagem e outra resolvi responder:

Desculpa, eu não sei que livros você está lendo, muito menos o que os teus amigos te disseram, mas a verdade é essa: eu tô precisando de você, isso mesmo, precisando, querer é desejo sem pressa, precisar é urgência. Não adianta outro cheiro, som ou pele. Entre doidos e Doídos, eu escolhi não acentuar, o amor pra mim é construção e é por isso que eu te amo!


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