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Um novo olhar através das inquietações

Flávia Carvalho

Uma mente inquieta, que todo pisciano sabe muito bem o que significa

As Pílulas da Felicidade e a eterna busca pela vida perfeita

A cobrança excessiva por uma vida perfeita e plenamente feliz desencadeia mais frustrações e até mesmo distúrbios mentais. As chamadas "pílulas da felicidade" deixaram de ser apenas alternativas de tratamentos psiquiátricos e são procuradas como a solução ideal para a criação de uma felicidade ilusória.


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Durante toda a vida vamos nos deparar com inúmeros momentos de estresse, tristeza e fracasso. É natural do ser humano se sentir pra baixo e frustrado de vez em quando. Diversas situação do cotidiano tornam as pessoas propensas a deixar de criar expectativas quanto a um futuro mais promissor e que proporcionem a felicidade plena. Ok, ter momentos negativos incomoda, mas faz parte da vida. Ninguém é 100% feliz.

Muitas pessoas, em situações de extremo estresse acabam desenvolvendo transtornos psíquicos, como a Ansiedade e Depressão. Esta é uma realidade pungente, extremamente grave e cada vez mais recorrente. O mundo está vivenciando uma verdadeira crise psicológica. Nunca fomos tão frustrados e descontentes, reflexo da sociedade contemporânea que estimula constantemente a felicidade plena. Ser completamente feliz se tornou obrigatório e qualquer situação que fuja do conceito de felicidade se torna algo que precisa ser erradicado.

Então, o que acontece? Muita gente pensa: “Bom, estou triste, preciso ir ao médico para conseguir aqueles remédios que me dão prazer”. O resultado deste novo cenário é o desejo infinito por uma vida perfeita através de remédios antidepressivos e ansiolíticos. “Bateu uma tristeza, toma uma ritalina ou um rivotril que passa”. Quando vai ao médico, diz que está triste e recebe o ticket para a felicidade: a receita médica para comprar medicamentos controlados.

Não quero dizer que esse tipo de medicação não ajuda e deva ser exterminado. Contudo, a cultura de tomar “as pílulas da felicidade” é cada vez mais influente na sociedade pós moderna. Num mundo em crise de valores, as pessoas buscam constantemente por situações de prazer eternas e acabam por banalizar estes tipos de medicação e o próprio conceito de felicidade.

Antes de realmente tomar o “comprimido mágico” é importante conhecer do que ele realmente se trata. E não, eles não tornam as pessoas mais felizes plenamente. Os tais remédios ansiolíticos e depressivos não são a pílula da felicidade. Eles são responsáveis por desencadear um equilíbrio químico através do estímulo ao aumento da serotonina, neurotransmissor responsável por proporcionar sensações de prazer.

"Pra quê pagar anos de terapia se apenas um remédio me deixará satisfeito?" Será? Será que um comprimido é capaz de tornar alguém feliz? Um comprimido com substâncias químicas vai tornar sua vida plena e realizada? Será que nossa felicidade deve ser moldada por substâncias químicas no nosso cérebro?

É difícil para um depressivo encarar, além de desestímulos com a vida, outros sintomas mais fisiológicos e um tratamento psiquiátrico. Em determinadas ocasiões, pode ser necessário sim o uso de medicação. Se a pessoa começar a se sentir incomodada com situações de tristeza e anedonia, associado com outros sintomas como falta ou excesso de apetite, ansiedade extrema, falta ou excesso de sono, falta de concentração e irritabilidade é importante consultar um médico. O problema é quando os remédios são utilizados para erradicar qualquer situação de tristeza e frustrações do cotidiano.

Antes de mergulhar no mundo dos remédios psiquiátricos, é fundamental conhecer do que os mesmos se tratam e, o mais importante, conhecer a si mesmo para discernir entre o que é tristeza comum da vida e o que é uma “tristeza patológica”.

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Numa sociedade confusa e neurótica, as pessoas estão desesperadas para alcançar aquela felicidade plena, presente demasiadamente em redes sociais. Porque no Facebook todos são felizes, não é verdade? Daí, em momentos de decepção, por não estar dentro dessa felicidade de fachada, correm para medicação com o objetivo de criar uma ilusão construída quimicamente. Como resultado, tomam-se os remédios que proporcionarão apenas prazeres momentâneos.

De fato, é complicado falar em felicidade quando a sociedade vive em uma crise psíquica generalizada. O que não significa que precisamos concentrar todos os nossos esforços dentro de um comprimido. Eles não constroem uma vida feliz. A busca da cenoura inalcançável da felicidade é mais complexa do que um mero comprimido. Aliás, o que é felicidade mesmo? Talvez esta pergunta deva ser analisada antes de começar qualquer tipo de tratamento psiquiátrico.

Felicidade não tem fórmula pronta. O que tornará alguém satisfeito diante da vida dependerá dos seus objetivos e como lidar com as consequências dos obstáculos que aparecerão no meio do caminho. Tomar um comprimido é fácil, é prático, é simples, mas não é uma pílula mágica. A magia da felicidade depende da trajetória de cada um e de como enfrentar os percalços da vida.

Somos seres humanos e nascemos para sentir alegria, raiva, amor, esperança, mas também nascemos para sentir tristeza e decepções. Momentos de fracasso e frustração são importantes para nos conhecermos melhor e sabermos lidar com maturidade os obstáculos que permeiam a nossa vida. O mal estar é extremamente incômodo, mas necessário para nos despertar do conformismo e poder lidar com mais força com as diversidades que a vida nos impõe.


Flávia Carvalho

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