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Um novo olhar através das inquietações

Flávia Carvalho

Uma mente inquieta, que todo pisciano sabe muito bem o que significa

I Origins e os limites entre ciência e espiritualidade

Um cientista quer provar a inexistência de Deus através do estudo da íris ocular. Desde sua infância, sempre foi curioso pelos olhos. Levou consigo seu interesse até a vida a adulta, para buscar a origem do desenvolvimento da visão e mostrar ao mundo que o homem não foi criado por um “designer inteligente”.


1233_i_origins.jpg “cada ser humano no planeta tem um par de olhos único. Cada um, seu universo particular”

A ciência tem como objetivo buscar a verdade sobre um determinado fenômeno. Ela pega um “pedacinho” da realidade e se aprofunda nele, através de métodos específicos e estudos sistemáticos. Às vezes, temos uma percepção óbvia de coisas do cotidiano e acabamos caindo no senso comum. Normal, não temos o controle de conhecer minuciosamente tudo que acontece ao nosso redor. “Fazer ciência” é importante por ser capaz de extrair algo do cotidiano não apenas para compreender melhor um fenômeno, mas também mudá-lo se for preciso. No entanto, nem tudo está ao nosso alcance através de métodos rigorosos e objetivos.

Na incessante busca por conclusões passíveis de verificação, muitos cientistas se tornam descrentes quanto à existência de Deus ou de um mundo espiritual “mágico”. No filme I Origins (em português, “O Universo no Olhar”) o cientista Ian Gray (Michael Pitt) é um exemplo desses cientistas e quer provar que Deus não é o designer inteligente que criou as pessoas. Para Ian, os olhos são o ponto de discórdia que os religiosos usam para desacreditar a evolução e comprovar a existência de um “grande criador das coisas”.

Em meios às suas buscas e aspirações, Ian conhece Sofi (Astrid Berges-Frisbey) e se apaixona. Mas enquanto o cientista é convicto no propósito de provar a não existência de Deus, Sofi acredita na espiritualidade. Apesar dos diferentes pontos de vista, os dois criam uma conexão muito forte, responsável por gerar belos diálogos sobre a relação entre ciência e espiritualidade. Na verdade, o relacionamento entre Ian e Sofi é apenas a ponte para abordar os questionamentos oriundos de tal dicotomia, e esta acaba se tornando a grande protagonista da história.

"- Você vive nesse quarto. Realidade. Você tem uma cama, você tem livros, uma mesa, uma cadeira, abajures. Lógica. Mas nesse quarto, você tem uma porta... para o outro lado. A luz passa. Está aberta. Você tenta fechar essa porta pois tem medo. Mas nem sempre terá medo.

- E o que tem além da porta? - Você tem que ir lá para descobrir"

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I Origins nos mostra como a discussão entre Ciência e Religião é mais complexa do que imaginamos e como a barreira existente entre ambas pode ser menor do que parece. Há milhares de anos, o homem vem estudando o mundo e a si mesmo e quanto mais obtém conhecimento, mais lacunas escapam às suas mãos. O medo do desconhecido instiga o homem a procurar por fenômenos irrefutáveis, mas mesmo com os inúmeros avanços tecnológicos do mundo contemporâneo, ainda existem coisas inexplicáveis e que estão além do conhecimento humano. Na busca da origem e do sentido das coisas, encontramos mais mistérios que respostas.

O filme aborda essa discussão de uma forma sutil, sem exageros e nem com propósitos unilateriais, de persuadir o espectador a escolher o “lado certo”. Não se prende a antagonismos, pelo contrário, a relação entre ciência e religião é posta na mesa de forma surpreendente e nos faz pensar até onde vai os limites das nossas crenças.

Utilizar os olhos como elemento propulsor do enredo foi uma escolha muito pertinente para abordar o diálogo entre ciência e espiritualidade. Os olhos são mesmo a janela da alma e neles existem um universo próprio. As imagens ampliadas das íris se assemelham ao universo e simbolizam a porta de entrada para um mundo de mistérios e infinitude.

i-origins-blu-ray-cover-67-e1418517631164-1273x716.jpg "Talvez os olhos sejam mesmo a janela da alma"

Mike Cahill é um diretor e roteirista pouco conhecido, mas através dos seus dois filmes de ficção (I Origins e A outra terra) ele já consegue desenvolver um estilo único de unir a ciência com questões mais filosóficas. Seus filmes têm a premissa da ficção científica mas vão além, gerando mais dúvidas e questionamentos intrigantes sobre o mundo físico e as reflexões que podemos extrair desse mundo.

Já ouvi críticas quanto ao roteiro, por ter alguns “furos”. Algumas cenas podem parecer forçadas para engrenar a história, mas não acredito que isto tire o mérito do filme. Aliás, as “coincidências” que geraram tais críticas fazem completo sentido na história. A originalidade do roteiro foi muito bem construída a ponto de agradar também o mais diverso público. Já vi ateus, agnósticos, espíritas e católicos elogiando a história, por transmitir um novo olhar diante das nossa relação entre a verdade científica e o misticismo.

O termo "Origins" do título em inglês nos remete não apenas à origem do desenvolvimento da visão no sentido literal (objeto de estudo principal do projeto desenvolvido no filme), mas também representa a nossa busca pela origem das coisas, seja através da ciência ou da espiritualidade.

É o tipo de filme que não acaba após as duas horas de duração, transcede a sua essência para além da arte cinematográfica e desencadeia uma série de inquietações a respeito de um mundo místico que está além do alcance científico.

PS: Vale a pena esperar até o final dos créditos. A cena pós-créditos desperta mais questões intrigantes.


Flávia Carvalho

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