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Um novo olhar através das inquietações

Flávia Carvalho

Uma mente inquieta, que todo pisciano sabe muito bem o que significa

Sociedade do Cansaço

O excesso de positividade que só vem trazendo consequências negativas


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Escrever esse texto estava nos meus planos há tempos. Hoje então me deparo com uma publicação que me deu vontade finalmente de escrevê-lo. A postagem foi publicada por um “grande empresário” e tem muito a ver com o que falarei por aqui. Ele escreveu algo como “não perca seu tempo, pois quem descansa jamais conhecerá o progresso”.

É uma forma velada de dizer “trabalhe bem muito para mim pois preciso dessa sua produtividade para lucrar”. Nessa romantização do trabalho exaustivo há inúmeros trabalhadores que estão sofrendo com doenças como depressão, ansiedade e síndrome de Burnout. Mas isso “é coisa de gente fraca”, eles disseram.

Estamos cercados pelo excesso de positividade. O que seria isso?

O excesso de positividade

Agora chego ao ponto principal desse texto: minhas percepções sobre o livro “Sociedade do Cansaço”, do escritor coreano Byung-Chul Han. O livro é bem curto (78 páginas) mas apresenta um teor reflexivo riquíssimo e gera muitas provocações sobre a sociedade de hoje e o estímulo frenético pelo desempenho.

“Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas infartos, provados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade”.

O excesso de positividade seria o excesso de estímulo e de desempenho. O autor chama essa nova sociedade de “a sociedade do desempenho”, enquanto a anterior seria “a sociedade disciplinar”, ou “sociedade da obediência”, caracterizada pela negatividade. Ambas apresentam inúmeros malefícios, mas acredito que a Sociedade do desempenho seja um pouco mais perigosa por estar disfarçada de motivação. Esta última palavra, quando usada com exagero, se torna “excessivamente positiva”, gerando consequências muito negativas nas pessoas.

Quando se fala em motivação, lembramos de alguns empreendedores e grandes influenciadores que volta e meia falam da importância de não desistir, de seguir em frente em meio às grandes adversidades da vida. Tudo isso faz sentido e realmente funciona. O problema acontece quando utilizam esses argumentos para justificar a importância do trabalho exaustivo. “Se você quer tanto algo não dá para descansar pois enquanto você descansa os outros trabalham”. Mas se trabalhar tanto realmente traz sucesso e muito dinheiro por que aquelas pessoas que têm três empregos para sustentar a família vive apertada financeiramente e muitas vezes se frustra com a vida? Meritocracia não funciona em sociedades com extrema desigualdade — mas esse é um assunto que fica para outro texto.

Autoexploração

Um outro grande problema decorrente da sociedade de desempenho é a autoexploração. Quando se escuta de alguém algo como “não desista jamais e trabalhe exaustivamente para isso”, essa pessoa não está lhe dando uma ordem para que você obedeça. Existe uma falsa liberdade para escolher “o melhor caminho”, que na verdade se torna uma verdadeira prisão, pois como posso querer fazer tantas atividades e ao mesmo tempo não ter mais vontade de fazer essas atividades?

“O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem ser mais distinguidos”.

Imagine a seguinte situação de alguém com depressão. Ela acorda e começa a pensar em como vai ser difícil enfrentar mais um dia. Pega o celular ao lado da cama e abre o instagram. Se depara então com uma publicação dizendo “tudo é possível, basta acreditar e não descansar até realizar seus sonhos”. Só que se levantar da cama já é um exercício penoso e se deparar com essa mensagem logo de manhã não fará com que ela realmente consiga, pelo contrário. Se sentirá ainda pior.

“No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”.

Nem falaria fracassados, para não associar a depressão com fraqueza (um mito que precisa ser quebrado). Diria “depressivos e frustrados”. O estímulo ao desempenho é tamanho a ponto do cérebro não aguentar e acabar gerando distúrbios mentais. É o que Byung chama de violência neuronal.

A abominação ao tédio

A preocupação em excesso para produzir compulsivamente acaba gerando uma aversão completa ao tédio. O autor separa um capítulo só para falar sobre o isso, por ser justamente o contraponto do excesso de positividade. Se este último é tão estimulado, o tédio se transforma no grande vilão da sociedade pós-moderna.

“Pura inquietação não gera nada de novo. Reproduz e acelera o já existente”.

Já pensou em como o “fazer nada” agora virou um verdadeiro momento de terror? Com inúmeras informações sendo transmitidas o tempo todo, se caio no tédio vou acabar perdendo coisa, perdendo novidades, ficando para trás. No entanto, é nos momentos de ócio que surgem as reflexões e provocações. Tem como fazer algum tipo de análise crítica sobre qualquer assunto com a mente trabalhando 24h? Por que será que os grandes filósofos valorizavam tanto os “momentos de fazer nada” para elaborar suas reflexões?

O medo do ócio é grande a ponto da própria inquietação virar entediante de tão frequente que ela se tornou. “É o próprio andar que entedia”, disse Byung. Discursos como o da publicação que mencionei lá no primeiro parágrafo são verdadeiros propagadores da abominação ao tédio. “Se descansar vai perder tempo, vai perder de ficar milionário, não vai progredir!” E com isso os índices de depressão e ansiedade só aumentam. É só colocar no google e você vai achar vários artigos e estudos mostrando esse crescimento.

Fortalecendo a contemplação

“Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”.

Segundo o dicionário, contemplação é:

1) o ato de concentrar longamente a vista, a atenção em algo. 2) profunda aplicação da mente em abstrações; meditação, reflexão.

A contemplação é uma ação que vem se perdendo. Uma ação porque você toma a atitude de parar, refletir e fazer abstrações. Hoje se fala tanto em criatividade e inovação no mundo dos negócios, mas como refletir sobre novidades se nem há tempo e estímulo para isso? É até contraditório querer estimular muito trabalho e ao mesmo também exigir criatividade.

O elemento contemplativo é, portanto, um ótimo antídoto ou pelo menos o início de um caminho para sair do excesso de positividade. Que tal utilizar o tédio para começar a pensar em alternativas de não sentir mais esse cansaço?


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