inquietações e reflexões

Pela inquietude de todos os dias

Mônica Karawejczyk

Historiadora, irrequieta, curiosa e em busca do cálice sagrado da alegria e do bem viver

A noção de honra no filme Os Duelistas de Ridley Scott

O filme Os Duelistas acaba de ser relançado em dvd quase 40 anos depois de sua estréia. É o primeiro filme do diretor Ridley Scott e procura retratar a difícil convivência entre dois oficiais que, durante 15 anos, em plena vigência das guerras napoleônicas, travam um interminável duelo em nome da honra. Esse ensaio procura analisar o ideal de honra apresentado no filme.


Os Duelistas (1h35min) é um filme de 1977 dirigido por Ridley Scott, cujos personagens principais são interpretado por Harvey Keitel e Keith Carradine.

ALERTA: o conteúdo do ensaio traz o desfecho de parte do filme, leia somente se já tiver visto o filme.

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A ação do filme se passa na época das guerras napoleônicas. A trama começando a se desenrolar em 1880 e chegando ao seu desfecho em 1895.

Os personagens principais fazem parte de uma elite militar - a cavalaria - sendo eles respectivamente Gabriel Feraud, o desafiante, interpretado por Keitel e Armand D'Hubert, interpretado por Carradine.

Os dois são retratados tendo a mesma patente militar ao longo de todo o tempo retratado no filme,ou seja, igualam-se na vida profissional. Sempre que um era promovido, logo após o outro também o era. Assim fica claro que se procura destacar que os dois eram semelhantes, pelo menos no que diz respeito a sua posição na sociedade. Contudo é bom salientar que a posição social dos personagens parece não interferir no motivo ou mesmo no desfecho do duelo, que é o mote principal do filme.

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Gabriel Feraud é apresentado como um homem em busca de algo grandioso para salvaguardar a sua honra. O seu ideal de honra em muito se parece com os dos heróis de Homero, para os quais a própria vida não pode ser um obstáculo para a manter. O personagem se mostra corajoso, destemido. Ele é o desafiante, o que inicia a ação do duelo que vai dar textura para a trama. Não parece ser importante para ele qual foi o desencadeador da suposta ofensa que o leva a desafiar D'Hubert, mas sim que a sua honra tem que ser limpa. No caso em questão Feraud parece se sentir ofendido por D'Hubert e tanto para o personagem que foi desafiado, quanto para o espectador, esse motivo nos parece fútil e sem importância. O que importa para Feraud é acabar com esse duelo interminável, que se arrasta por 15 anos, com a única conclusão óbvia possível, a morte de um dos duelistas.

Em todos os momentos da história narrada no filme pode-se associar a caracterização de Feraud ao conceito de hybris grego, pois este personagem não conhece limites no se afã de duelar, de "lavar" a sua honra com sangue. Ele não sabe controlar seu ódio, sua paixão pela luta, arrastando os outros para o seu desvairio e para a imposição dos seus valores de honra e bravura.

Honra, substantivo feminino que, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é uma palavra com vários significados. A que melhor parece se encaixar na visão do diretor para o personagem é a de um "sentimento do dever, da dignidade", um "conjunto de ações e qualidades que fazem com que alguém seja respeitado". Acredito que tal definição bem se encaixa na visão do diretor para esse personagem. Afinal ele, Feraud, como o desafiante, procurar merecer e manter a consideração geral dos outros membros da sua comunidade. Em outras palavras o que importa para ele é manter uma pretensa exterioridade de honra. Assim ele tem sempre que reafirmar sua coragem, seu desapego à vida em nome da honra para os outros. Nesse sentido Feraud, enquanto personagem, se iguala aos heróis homéricos, bravos, fortes, corajosos e valentes que não temem a morte, apenas a desonra.

A sociedade retratada no filme é de uma sociedade em conflito, em transformação, em pleno processo de mudança. Um período de guerras, no qual, segundo tão bem expôs Jean Pierre Vernant "a identidade de um indivíduo coincide com a sua avaliação social; da zombaria ao louvor, do desprezo à admiração", assim o personagem Feraud confunde o seu momento particular de uma suposta ofensa à sua honra com o seu desejo de reconhecimento público de bravura. Assim sua identidade individual é confundida e, muitas vezes, exaltada, pelo reconhecimento dos outros, pelo elemento externo, pois sua noção de honra própria está sempre ligada a ideia do duelar, de dar satisfação aos outros, de externar publicamente e em alto e bom som a sua honra.

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Armand D'Hubert é o que faz o contraponto na narrativa. É ele que é apresentado como o "relutante", o sensato, o que não deseja a luta. É o personagem que reflete sobre os ideais apresentados na história e, principalmente, sobre a noção de honra.

Percebemos claramente que ele sente medo, que não considera uma "honra" morrer em um duelo, salvaguardando assim uma reputação, um bom nome. Nota-se que ele prefere a vida e seus prazeres. É o único que é retratado em sua vida intíma, aproveitando a vida, com sua amante, seus amigos, sua família. D'Hubert é retratado como aquele que prefere escolher o seu próprio caminho, do que se ver obrigado a morrer em um duelo sem motivo algum para ele, além do orgulho ferido de Feraud.

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Armand D'Hubert personifica a mudança de pensamento que estava ocorrendo naquela sociedade, na qual as noções de bravura e honra estavam sofrendo mutações perceptíveis. Na esteira da busca pelo ideal da modernidade estava surgindo outro homem, um homem novo, dono do seu próprio destino, a quem é permitido e, até mesmo incentivado, escolher o seu modo de viver e morrer sem que nada externo lhe obrigue a fazer coisas que não deseja nem quer. É a ascensão do indivíduo, no momento exato em que ele passa a ser alçado a categoria de senhor absoluto de seu destino.

- Tenho que ser dono de mim mesmo - frase dita por D'Hubert, ao longo da trama do filme, parece sintetizar bem essa nova visão de mundo.Ele almeja se libertar das amarras da honra e da bravura ensinados e valorizados pela sociedade da sua época. Ele procura forjar um novo conceito para estas palavras, tanto que, no desfecho da história, na conclusão desse interminável e angustiante duelo, temos a reviravolta total na narrativa. D'Hubert vence o duelo, deixando seu adversário Feraud, vivo. Assim ele vence duas vezes, pois ao poupá-lo da morte também o obriga a revisar sua noção de honra.

Feraud assim se vê derrotado duplamente, um prisioneiro eterno de seus próprios princípios, um prisioneiro da sua noção da honra. Ele tem uma visão positiva da honra, salvaguardar essa honra é tudo o que importa para ele. Assim tudo se justifica, tudo é permitido, todos os seus atos são justificados pois tudo o que persegue é limpar a sua honra, que ele acredita ter sido maculada por uma suposta injúria cometida por D'Hubert.

Na sequencia final do filme temos a única cena em que Feraud aparece refletindo -assim parece - sobre o seu destino e seus atos. Ele surge andando a esmo por um campo, parecendo não acreditar no que lhe aconteceu. Nos parece refletir sobre o que vai fazer dali por diante, uma vez que a sua força motriz lhe foi retirada. Terá ele razão para continuar a viver? o que fazer agora que o duelo finalmente teve o seu desfecho?

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D'Hubert, por sua vez, é o protagonista/antagonista que representa ter uma visão negativa da honra. Para ele, a honra apenas impele os homens a atos alheios e contrários a sua vontade. Ele, apesar de temer e negar a morte, a enfrenta. A fuga ao combate, ao ato de duelar, sugere covardia e por esse motivo, e só por ele, é que ele duela, mesmo sem querer e ver motivo para essa luta interminável.

Ridley Scott nos presenteia com um filme magistral, no qual se percebe uma apologia ao individualismo e a ideia de que cada um é o único responsável por seus atos. Fazendo-nos refletir e mesmo criticar sobre os valores que regem a sociedade ocidental.

Thumbnail image for Thumbnail image for osduelistas.jpg Capa do DVD do filme

VERNANT, Jean Pierre. A bela morte e o cadáver ultrajado. Revista Discurso, USP, 1978, p.31-62.


Mônica Karawejczyk

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