inquietações e reflexões

Pela inquietude de todos os dias

Mônica Karawejczyk

Historiadora, irrequieta, curiosa e em busca do cálice sagrado da alegria e do bem viver

A história das mulheres continua sendo uma história de esquecimentos?!

Em pleno século XXI, com a emergência de um novo feminismo e reinteradas conquistas femininas sendo contestadas, qual a importância e as reflexões que uma ida ao Museu e uma data comemorativa como o 8 de março pode nos trazer?


Percorrendo os belos jardins do Palácio do Catete – Museu da República, no Rio de Janeiro, durante o mês de abril de 2014, tive a grata surpresa de me deparar com uma homenagem para as mulheres.

Com o nome Mulheres Palacianas do Catete ao Alvorada a exposição, cuja curadoria foi de Isabel Portella e Cintia Souto, pretendeu “realçar a imagem feminina que se destaca na história republicana brasileira”, tal como aparece descrito no folder distribuído no interior do Museu. Foi também uma homenagem ao 8 de março, consagrado internacionalmente como o Dia da Mulher.

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Através da exposição de 10 painéis afixados ao lado do principal caminho do jardim do Museu foi possível conhecer um pouco dessa história. Foi uma tentativa tanto de resgatar a figura das mulheres que fizeram parte da vida pública e política do Brasil quanto de dar visibilidade para as várias imagens femininas que se encontram espalhadas pelo prédio do antigo centro de poder do Brasil.

Entre as primeiras damas republicanas foi dado bastante destaque para Sara Kubitschek e Darcy Vargas. Finaliza-se esse passeio com os perfis de quatro figuras femininas, as mais recente primeiras damas do país, Rosane Collor, Ruth Cardoso e Marisa Letícia da Silva e da nossa presidenta Dilma Roussef. Um fato que chama a atenção é que quanto mais distante no tempo viveram essas mulheres menos informações temos delas, nem mesmo suas imagens são mostradas. Porque sabe-se tão pouco das suas vidas? Quem foram, além de esposas dos presidentes da República e mães de seus filhos?

Confesso que ao ver a exposição logo me entusiasmei e pensei, “finalmente vou conhecer um pouco mais sobre Orsina Fonseca”. Procurei o pôster que deveria falar da primeira mulher do presidente Hermes da Fonseca, que comandou o Brasil de 1910 à 1914. Para minha decepção o nome de Orsina nem ao menos era citado ao longo dos mais de 26 pôsteres que compõem a exposição. Sobre essa época apenas aparece a presença da segunda mulher de Hermes, Nair de Teffé. Apesar do aviso de que a pretensão dessa exposição era “trazer ao público passante de seu Jardim um pouco mais de informação sobre algumas mulheres que povoaram o universo da república brasileira, contribuíram e ainda contribuem – como exemplo da Presidenta Dilma Roussef – para a história republicana brasileira” a ausência de Orsina me incomodou.

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Fiquei sabendo da existência dela enquanto fazia pesquisas para a minha tese de doutorado. Na época encontrei algumas menções na imprensa sobre a sua destacada atuação nos anos de 1910 e início dos anos 1920 em prol da emancipação feminina, mas como não era o meu foco no momento, apenas anotei tal informação. A partir desse primeiro contato me pareceu que os atos de Orsina foram muito mais importantes para os rumos políticos da nação do que a atuação de Nair, que ficou conhecida tanto pela ousadia de ser uma caricaturista, em princípios do século XX, como pelo fato de ter promovido um sarau nos salões do Palácio em que tocou, ao violão, uma das músicas de Chiquinha Gonzaga, “O Corta Jaca”, que escandalizou parte da sociedade carioca em 1914.

Ao percorrer o caminho da exposição, comecei a questionar o motivo de Orsina não estar ali retratada. Por que dessa ausência? Será essa a sina das mulheres de tempos passados? Ter seu destino apagado como se nunca tivesse existido? Como se sua presença não tivesse tido nenhuma importância? Será que podemos “culpar” os idealizadores da exposição por esse esquecimento? Claro que não.

A história das mulheres foi durante muito tempo relegada a uma espécie de limbo historiográfico no qual somente as que se destacaram, por um motivo ou outro, do amalgama coletivo tiveram sua trajetória documentada. Mulheres como Chiquinha Gonzaga e Nair de Teffé não foram esquecidas. Contudo sempre me pareceu que suas trajetórias foram preservadas mais como uma forma de exemplificar o tipo de comportamento que não seria desejado (ou adequado) para uma mulher, do que para exaltar sua autonomia e ousadia.

A ausência de Orsina me fez ir atrás de mais informações sobre ela. Contatos feitos com o Arquivo do Museu da República revelaram que sua presença não deixou vestígios nos registros preservados na instituição. Voltei minha atenção para um lugar onde sabia que sua figura havia deixado rastros, na imprensa da época. Fonte rica de informações que destaca o cotidiano das cidades, com a devida interpretação dos seus editores, que resolvem o que deve ou não ser publicado.

Viver no século XXI tem suas vantagens e pude fazer essa pesquisa do meu computador pessoal, consultando o acervo on-line de periódicos da Biblioteca Nacional. Nessa consulta descobri dados muito interessantes sobre Orsina. Nascida em 1859, como tantas mulheres de sua época, casou jovem, aos 18 anos e teve cinco filhos. Mas além de mãe de família e esposa, participou de forma ativa do início da vida republicana brasileira. Seu nome aparece associado à fundação do Partido Republicano Feminino, em 1910. Numa época em que as brasileiras não tinham voz e nem vez na política nacional foi uma das fundadoras desse inusitado partido, junto com a professora Leolinda de Figueiredo Daltro (outra mulher atuante e ousada quase esquecida nos dias atuais) e várias moradoras do Rio de Janeiro. Uma das metas do PRF era valorizar o papel da mulher na sociedade, bem como lutar pelo direito ao ensino e ao voto feminino.

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LEGENDA: “Na sede do Partido Republicano Feminino a mesa presidida pelo Sr. presidente da Republica e sua Exma. esposa na sessão solemne com que foi inaugurada a Escola de Sciencias e Artes ‘Orsina Fonseca’, fundada por esse partido cuja presidente a Sra. Leolinda Daltro, se vê ao lado da esposa do marechal Hermes. Photografia tirada no momento em que a oradora fazia o discurso official”.

FONTE: O Malho, Rio de Janeiro, ano X, 24 de junho de 1911, p.15.

O nome de Orsina também aparece associado a atos beneméritos, inaugurações de escolas para o ensino de profissões ao sexo feminino, construções de vilas operárias, entre outras tantas ações que motivaram muitas homenagens a sua pessoa em vida. Sua doença e morte repentina, aos 53 anos em novembro de 1912, na metade do mandato do seu marido, comoveu a sociedade da época, que acompanhou a evolução do seu caso, diariamente pelas páginas dos jornais.

Como entender o "apagamento' de sua figura dos anais da história do nosso país? Como entender que seu nome não tenha sido ao menos citado nessa exposição, nem mesmo na linha de tempo apresentada no folder desenvolvido pelos seus organizadores?

A resposta apesar de simples não é simplória.

Por se tratar de uma mulher sua atuação não foi considerada digna de nota pelos que escreveram a história do Brasil. Seus atos não mereceram mais do que poucas linhas nos jornais da época, que tão logo finda a sua vida, procuraram outros atos e fatos para noticiar.Mas essa é a função da imprensa, a dos historiadores e pesquisadores é outra, sendo uma delas a de resgatar para a posteridade figuras como a de Orsina da Fonseca, uma mulher que viveu, amou, sofreu e deixou marcas por onde passou, até mesmo na vida política do país e na luta em prol da emancipação feminina. Sua trajetória, apesar de estar quase esquecida, não foi apagada e merece ser conhecida e reconhecida, não só dela mas de várias outras mulheres, cujos nomes ainda ignoramos.

A exposição Mulheres Palacianas já se despediu dos Jardins do Palácio com a promessa de percorrer o país, se cumpriu essa "nobre tarefa" não sei dizer, mas apesar do seu claro limite, sua proposta foi muito louvável, ao trazer para a luz, figuras desconhecidas do grande público. Tais iniciativas devem ser elogiadas e replicadas pelo país inteiro. Seu impacto vai além do que expõe, mas também do que cala. As ausências as vezes nos tocam mais do que as presenças e nos fazem refletir. Em um país tão carente de memória esse é um fato a ser celebrado e não somente em março ou abril, mas em todos as épocas do ano.


Mônica Karawejczyk

Historiadora, irrequieta, curiosa e em busca do cálice sagrado da alegria e do bem viver.
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