inquietações e reflexões

Pela inquietude de todos os dias

Mônica Karawejczyk

Historiadora, irrequieta, curiosa e em busca do cálice sagrado da alegria e do bem viver

As Sufragistas e o movimento em prol do voto feminino

“As Sufragistas” (2015) mostra um aspecto pouco conhecido da luta em prol do voto feminino do começo do século XX, ao centrar sua ação em um pequeno grupo de militantes que recorreram a atos violentos para dar visibilidade às suas reivindicações. O filme proporciona uma visão privilegiada do início do movimento feminista no mundo ocidental, provocando empatia para o tema e para a luta das mulheres.


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O filme “As Sufragistas” (Grã-Bretanha), dirigido, roteirizado e estrelado por mulheres foi lançado, comercialmente, no Brasil em dezembro de 2015. Conta uma parte da história da luta empreendida por algumas mulheres do Reino Unido pelo direito a exercer o voto. Sua ação se centra a partir do ano de 1912, na cidade de Londres, e mescla, de forma muito apropriada, ficção e realidade.

O filme, dirigido por Sarah Gavron e escrito por Abi Morgan, é protagonizado por Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Meryl Streep (que tem uma pequena participação como a líder do movimento Emmeline Pankhurst) e Anne-Marie Duff, além de um elenco masculino consistente que encarna a face mais opressora do filme.

O nome original do filme "Suffragette" foi traduzido, no Brasil, de modo equivocado para "As Sufragistas" e digo equivocado, porque, na época em que se passa a trama do filme, estas expressões designavam dois grupos diferentes. As suffragettes pertenciam ao grupo mais militante e que tomou a frente de “batalha” com o lema "Deeds not words" (Ações e não palavras) pertenciam a associação feminina WSPU (Women's Social and Political Union), que iniciou suas atividades em 1903 com a liderança de Emmeline Pankhurst e suas duas filhas. Por outro lado, as sufragistas eram as mulheres que solicitavam o voto com atitudes mais moderadas, tais como escrevendo petições, solicitando o apoio de políticos, etc.

As suffragettes apostaram no uso de táticas não convencionais para fazer pressão junto às autoridades e chamar a atenção do público para as suas demandas. Entre as táticas desse grupo estava desde quebrar vidraças de lojas e casas, atear fogo a caixas de correio, acorrentarem-se a portões de prédios públicos, organizar passeatas e interromper discursos de políticos. Com isso muitas das militantes foram presas por perturbação da ordem pública e desrespeito as autoridades, como bem mostrado ao longo do filme. Com o incremento no uso da violência por parte das militantes da WSPU é que a campanha pelo direito ao voto feminino no Reino Unido começou a ser levado a sério pelos políticos e ganhar as manchetes dos jornais, uma das partes mais chocantes do filme, retrata a alimentação forçada da personagem principal, que estava fazendo greve de fome na prisão.

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A escolha por focar a trama pelo ponto de vista de uma mulher pobre da classe trabalhadora deve ser destacada, pois é um foco quase inédito e pouco explorado na historiografia. A luta em prol do voto feminino, em todas as partes do mundo ocidental em que ocorreu (bem como no Brasil), ocorreu mais ou menos da mesma forma, sendo perpetrado quase sempre por mulheres letradas, educadas, de uma classe média ou alta, quase sempre brancas. E porque brancas? Porque o acesso à educação pelas mulheres de classes mais baixas era muito difícil, em todas as partes. As leis de cada país muitas vezes também vetavam a participação das mulheres em qualquer negócio na esfera pública, tal como é apresentado no filme. Aos olhos da lei “todas” as mulheres casadas foram classificadas em uma categoria única e colocadas ao lado de outros grupos excluídos da vida jurídica (como crianças, insanos e criminosos).

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O movimento sufragista teve fundamental importância na fase inicial do surgimento do feminismo. Os debates na época procuravam explicar as diferenças entre os sexos invocando a “natureza”, e sempre buscaram perpetuar tais diferenças por meios legais, como bem é mostrado no enredo do filme. Os códigos de leis nacionais negavam as mulheres casadas, consideradas legalmente menores, sob a guarda do esposo a quem deviam obediência, o controle de suas propriedades e ganhos e além de conceder a autoridade primária da família apenas ao marido. As solteiras, se menores dependiam legalmente dos pais, quando maiores eram consideradas capazes do ponto de vista jurídico, mas não eram estimuladas a permanecerem solteiras, pois o estigma da solteirona, que até pouco tempo atrás era um “fantasma” na vida das mulheres, era um estigma presente na vida das que permanecessem celibatárias. No Brasil, por exemplo, as restrições impostas às mulheres casadas somente são banidas da nossa legislação em 1962 com a lei nº 4.121, mais conhecida como Estatuto Jurídico da Mulher Casada. Até essa data as leis impediam uma mulher de aceitar herança ou de ter atividade profissional sem autorização formal do marido, o qual podia, a qualquer momento, suprimir sua aprovação. A luta em prol do voto entrou na pauta das reivindicações femininas, de forma mais organizada, a partir da segunda metade do século XIX e foi conquistado de uma maneira geral nas primeiras décadas do século XX, no Ocidente. No século XIX a questão do voto universal passou a ser cada vez mais requisitado por homens e mulheres e, com a queda da barreira econômica, cada vez mais homens puderam participar do mundo político, mas é bom destacar que somente os homens se beneficiaram dessa primeira leva de abertura política. As mulheres se viram cada vez mais relegadas. Tais atos contribuíram para dar uma visibilidade sem limites a não inclusão das mulheres nas leis eleitorais dos seus países.

A cidadania política feminina se viu relegada a um patamar difícil de ser contestado, uma vez que se instalou um princípio político que excluía as mulheres ao considerar que a diferença natural entre os sexos era justificativa suficiente para diferenças em matérias de direitos políticos. Assim o conceito de cidadania politica se viu atrelado a uma diferenciação sexual, não sendo como um interdito por educação ou por questões financeiras, que podem ser sanadas com algum esforço ou de alguma outra maneira, mas o interdito sexual é o mais cruel de todos, pois não pode ser vencido.

A partir dessa explícita exclusão das mulheres do mundo político - justificada pela sua diferença biológica - é que começou a surgir no mundo ocidental um movimento feminino em busca do reconhecimento de sua cidadania política e pela igualdade de direitos. O que distingue o movimento sufragista em todas as partes em que ocorreu era que diversas mulheres de diferentes classes, raças, de graus de instrução e riqueza das mais diversas se uniram em torno do mesmo objetivo, pois apesar das suas diferenças todas eram iguais na exclusão. Apesar do movimento sufragista no Ocidente ter sido iniciado por mulheres brancas e bem educadas, não excluíam das suas fileiras nenhuma que queria participar e de qualquer classe social, tal como explorado na trama do filme.

O objetivo das feministas na época era a luta contra a discriminação das mulheres e pela garantia de direitos, inclusive o direito ao voto, mas não restrito a ele. Inscreve-se nessa primeira fase a denúncia da opressão da mulher e a luta em prol de uma educação mais igualitária, pelos direitos civis e pelo reconhecimento da cidadania política para as mulheres. O voto era visto como um meio para atingir outros fins e não como um fim em si mesmo. Com a conquista do direito de participar do mundo político, através do reconhecimento do direito de votar e ser votada, outras demandas se tornaram prioritárias e o movimento feminino passou por uma reformulação.

Percebemos claramente, ainda hoje, que a própria palavra feminismo é carregada de um grande preconceito quando empregada. Ao chamar uma mulher de “feminista” é como se falassem que ela é "terrorista", ou seja, a palavra feminismo não é bem compreendida e contém uma carga negativa muito forte quando empregada. Tal fato também se deve a forma como a militância das feministas do grupo das suffragettes e suas táticas não convencionais de luta foram divulgadas pela imprensa na época e o seu impacto no imaginário popular. Assistir o filme “As Sufragistas” é uma boa experiência para compreender que a luta das mulheres por direitos iguais foi e continua sendo necessária em pleno século XXI. E mostra que com união e perseverança grandes mudanças podem ser conquistadas.


Mônica Karawejczyk

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