inquietude crônica

Semeando verbos e outras ilusões...

Milene Lima

Esmiuçando a poesia cotidiana. Se dá certo? Repare aqui, você.

MUSICADORIA DE OUTRO DIA

De quando, lá em casa, comíamos música alheia de manhã, de tarde e de noite, como se fosse a melhor iguaria do mundo. Tudo isso por ter-se um pai que transitava pela poesia cotidiana feito fosse delas o mais íntimo amigo. E delas, na verdade, sequer sabia.


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Fosse vivo o meu pai era ele quem me armaria de argumentos para escrever postagens sobre as coisas da poesia cotidiana. Sujeito que só tia a quarta séria primária e sabia tanto da vida a não fazer tanta falta um diploma de profissão qualquer. Fazia falta sim, não serei tão tola. Me refiro, no entanto, à qualidade do seu pensamento, da sua poesia genuína, daquelas que nasce com o sujeito e ele nem sabe bem dessa companhia.

Lá em casa era uma verdadeira torre de Babel musical. De tudo se escutava e cada um que o sentisse como quisesse. A veia popular e regional de Genival Lacerda, a genialidade de Luís Gonzaga, o romantismo clichê e indubitável de Roberto Carlos, as maravilhas de Gil, Caetano, Alceu Valença, Djavan. O som instrumental de Ray Conniff, as melodias inesquecíveis do Dire Straits e mais uma quantidade de som bacana que aparecia toda vez que ele chegava da feira com algums LPs embaixo do braço, se equilibrando na bicicleta inseparável.

Corríamos logo pra conferir o que havia de novo e quando alguém reclamava por ter no meio mais um disco do Roberto Carlos, ele dizia que um dia saberíamos dar valor. Eu confesso que já cumpri minha meta de valorização de rei da Jovem Guarda nessa minha vida e agora eu passo para outro quesito musical mais interessante. Mas, que era bom cantarolar os velhos sucessos de Em Ritmo de Aventura, isso era.

Eu me lembro bem de quando chegou o Extra, do Gilberto Gil. Aquilo rodava na sua radiola bem conservada, de dia e de noite e era bom demais. Cantávamos todas as faixas e repetíamos até minha mãe perguntar se não havia mais nada pra se escutar naquela casa. Quando era dia dele levar alguns dos LPs mais antigos pra feira da troca, corríamos pra proteger os preferidos, cada um os seus, e o pai conseguia levar qualquer coisa pra fazer negócio com música nova pra sua discoteca.

Do que ele não gostava mesmo era do Axé, que na época ameaçava os primeiros passos. “Nesse negócio só se diz ia-ia-ia, iô-iô-iô, Salvador, isso é ruim demais”. Mal sabia ele o que se guardava pro Axé trinta anos depois, entre gordinhos gostosos e pererecas suicidas. Recobremos o senso.

A vizinhança já conhecia o seu hábito de no fim da tarde esticar os fios para dispor as caixas de som na varanda e ajeitar ali uma boa música num volume razoável, para possibilitar a quem quisesse chegar mais perto e a quem não quisesse, o volume em nada atrapalharia. As horas se passavam boas e leves, entre uma nostalgia de Altemar Dutra ou Alceu Valença entoando Anunciação.

Mais tarde, quando ele já carregava sequelas de um AVC como companhia, sorria quando num São João, à beira da fogueira na porta de casa, a radiola fazia cantar Luiz Gonzaga e na vez de Karolina com K, toda vez que pronunciava o Rei do Baião o nome de Anselmo, meu pai se alegrava e parecia ter de novo o mesmo vigor de antigamente. É que Anselmo, tantas vezes dito na música, é nome de um dos seus meninos e eu penso que naquela hora meu pai fabricava o pensamento bonito que só podia ser do seu Anselmo que falava o Gonzagão.

E se não é de lei o pensamento fabricar a poesia que quiser pra fazer valer a vida um pouco mais leve, o que mais terá valia? Eu penso que nada, não senhor.


Milene Lima

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