inquietudes

Sobre a arte de duvidar

Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si.

"Ismos não são bons"

Sobre como nos deixamos levar pela tirania da felicidade

O mais esperto, talvez, seria nos conscientizarmos, admitirmos que o ser humano faz o que pode e assim nos tornarmos mais hábeis a aproveitar nossos momentos de alegria quando vierem; afinal a felicidade como tirania já anula em si o seu propósito, é uma mentira cansativa de se atualizar todos os dias.


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Não vamos todos ficar colocando a culpa na publicidade ok?

A tirania tem mais colaboradores que isso. Muito antes de a propaganda adquirir o caráter de “vendedor de qualidade de vida” e tentar preencher o buraco da insatisfação humana com produtos, alguém já tinha inventado que o ser humano nasceu pra ser feliz e pra dar certo.

Então venha cá, vamos falar dessa Tirania da Felicidade, e o mais importante, do porquê ela funciona. Começando com uma ajudinha de Schopenhauer, aquele filósofo que conseguiu levantar questões importantíssimas, sem medo de ser infeliz ao fazê-lo:

Há apenas um erro inato, e este é o de que nós existimos para sermos felizes. Ele é inato em nós porque coincide com a nossa própria existência e porque, de fato, todo nosso ser é apenas a sua paráfrase, assim como nosso corpo é o seu monograma: nós somos justamente Vontade de viver, e na satisfação sucessiva de todo o nosso querer é em que pensamos mediante a noção da felicidade. Enquanto nós persistimos neste erro, e ainda por cima corroboramo-lo com dogmas otimistas, o mundo nos parece cheio de contradições. Assim, a cada passo, nas grandes ou nas pequenas coisas, somos obrigados a experimentar que o mundo e a vida estão completamente arranjados de modo a não conterem a existência feliz (…). Neste sentido, seria mais correto colocar o objetivo da vida em nossas dores do que nos prazeres… A dor e a aflição trabalham em direção ao verdadeiro objetivo da vida, a supressão da Vontade dela. (SCHOPENHAUER, 1911-1926, p. 729)

Então, nós somos essa forma de vida que conseguiu, a muito custo, se desenvolver neste planeta; feio, pobre e comum, afinal muitas formas de vidas já tinham chegado antes. O ambiente nunca foi de todo amigável, tudo parecia dizer que ninguém era bem-vindo. Mas viemos com uma vontade de viver imensa, que ultrapassava a coisa instintiva dos outros animais. A vida era finita e sem explicação, resolvemos então transcender essa condição e nos dar um pouco mais de importância. E, em algum momento, começamos a negar de todo essa condição, para que, além de sermos felizes, façamos sentido.

O homem no centro, do renascimento, era então esse homem que acredita em si mesmo. Com a modernização o homem passa a projetar a ideia de que ele dá certo, dominou o meio e passa agora a olhar o universo e a natureza de uma forma diferente, como se todo o resto estivesse aí para ser dominado. Essa percepção da natureza, vinda do próprio umbigo, é extremamente nociva: “A natureza tem apenas um propósito, a saber, a manutenção de todas as espécies (…). O indivíduo tem para ela apenas um valor indireto, na medida em que é um meio à manutenção das espécies”. (SCHOPENHAUER, 1958 p. 453)

Enquanto nós idealizamos o universo e lhe cobramos um propósito para a nossa existência, em função da manutenção da nossa felicidade, a natureza segue seu curso, sempre buscando a perfeição, considerando-nos como parte do processo que somos e, às vezes, ela falha. Às vezes crianças têm câncer ou pessoas jovens morrem de repente, de morte súbita, e a natureza segue seu ciclo, enquanto o homem moderno resolve ignorá-la, tirá-la da equação, pois essa verdade o assombra.

O homem moderno não é nada sem a Autoestima, uma das metas mais difíceis impostas pela Tirania da Felicidade, se auto estimar sendo mortal, finito, não tendo as repostas, perdendo quem ama, não tendo controle do próprio corpo (envelhecendo, adoecendo). Aceitar-se assim já é uma tarefa e tanto.

Freud (1978, p.141) explica melhor dizendo que o sofrimento nos ataca em três inevitáveis formas, a saber, a irreversível decrepitude e a certeza da mortalidade de nosso corpo; ameaças do próprio mundo externo, cuja destruição, seja fruto do poder superior da natureza ou da violência de nossos semelhantes sempre nos assombram e, a maçante tarefa de nos relacionarmos com os outros, no seio da família, em sociedade e no Estado.

Ou seja, a vida vem com vários fardos e agora temos também a obrigação de projetar sucesso e sermos bem resolvidos. Os bem-resolvidos lotam uma ditadura da felicidade no comércio, patrulham incansavelmente a procura de qualquer descontentamento, para eliminar com um livro de autoajuda, indicação de um psiquiatra ou dica de remédios. Aliás, todas essas coisas vedem tanto, que provam o quanto o ser humano se sente na obrigação de estar bem o tempo todo. Já foi inserida a ideia que o estado natural do homem é de felicidade e bem-estar. Um erro que só gera cansaço.

Não é intenção dizer aqui também, que a condição natural do homem é a tristeza ou infelicidade completa, como nos explica Freud:

Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da ‘Criação’. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas. (FREUD, 1978, P. 141)

A felicidade possível é episódica e resultado do contraste com o desprazer. Dessa forma a ditadura da felicidade nos põe numa situação ridícula de superficialidade e nos afasta de nossa humanidade. Quem nunca ouviu dizer: precisamos que seus problemas pessoais não te atrapalhem no trabalho. Ou seja, não importa se você não está bem, aqui você pertence ao comércio e ninguém compra uma autoimagem infeliz. Pessoas de sucesso estão bem o tempo todo, usando de um positivismo fruto da Tirania da Felicidade, mas a felicidade deles é de plástico, totalmente fabricada.

E então, claro, temos a publicidade, que vende dizendo que aquele produto irá também te ajudar a alcançar a felicidade. Inconscientemente talvez, muitos associam a felicidade a produtos e aquisições, o problema é que os produtos nunca acabam e estão sendo atualizados a todo o momento em inovações e aperfeiçoamento, mais uma busca cansativa e infinita. Viagens de férias e feriados que mais parecem obrigação que lazer.

É incrível que as pessoas gastem tantos esforços lutando contra tantos inimigos pela felicidade, que a considerem um direito legítimo e justificado e acreditem que, se ela nunca é alcançada, é por uma mera questão de azar ou de injustiça.

Schopenhouer (2005, p. 411) diz ainda que considera difícil que alguém seja persuadido a acreditar que o homem exista para ser feliz, se tudo na vida mostra que a mesma é uma empresa que não cobre seus custos, ou seja, não compensa. No entanto diz que não é o conhecimento da vida em si, que nos dá a vontade de viver, pois ela é do ser humano, primeira e incondicionalmente. Vivemos e queremos viver apesar da vida.

O mais esperto, talvez, seria nos conscientizarmos, admitirmos que o ser humano faz o que pode e assim nos tornarmos mais hábeis a aproveitar nossos momentos de alegria quando vierem; afinal a felicidade como tirania já anula em si o seu propósito, é uma mentira cansativa de se atualizar todos os dias.


Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si. "Ismos não são bons".
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