inquietudes

Sobre a arte de duvidar

Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si.

"Ismos não são bons"

A relação com o corpo, entre a liberdade e a escravidão

A valorização do corpo como porção da vida que foi dada e como meio de experimentar o mundo está perdida. E está perdida em meio a uma luta perigosa contra o corpo “errado”; perigosa porque lutar contra o corpo é lutar contra si.
Se o valor que o corpo tem para a indústria for o mesmo valor que o corpo tem para o indivíduo, então estamos perdidos!


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O que você faz com seu corpo, te liberta ou te escraviza?

É possível que se viva um grande mal entendido no que diz respeito à valorização do corpo e da liberdade que se tem de usá-lo, alcançada na nossa sociedade. É preciso entender que nunca antes foi possível movimentar-se, vestir-se e expressar-se da forma que se pode hoje, mas há uma valorização às avessas que põe tudo a perder.

O corpo é valorizado como um suporte, usado para exercer poder, por meio de venda de imagem e sedução. Este é o culto ao corpo e o cuidado com o corpo que visa alcançar os padrões vendidos, em primeiro lugar, pela pornografia, depois pela indústria da moda, pela indústria da estética e etc.

A valorização do corpo como porção da vida que foi dada e como meio de experimentar o mundo está perdida. E está perdida em meio a uma luta perigosa contra o corpo “errado”, perigosa porque lutar contra o corpo é lutar contra si. O corpo “errado” é aquele que não alcança as vendas, nele o indivíduo que diz cuidar da aparência se torna escravo de rotinas pesadas, não em busca do bem-estar, mas em busca da imagem estética mais cara.

Se o valor que o corpo tem para a indústria for o mesmo valor que o corpo tem para o indivíduo, então estamos perdidos!

A indústria da “beleza” valoriza corpos para venda da imagem, o indivíduo deve valorizar seu corpo como meio de experimentar o mundo e de experimentar-se no mundo.

Amar o corpo dessa forma é aventurar-se na originalidade e vencer as frustrações impostas pela indústria. A maioria prefere ser igual (padronizado) no medo de ser contrariado, mas infelizmente acabam enfrentando uma cansativa manutenção e experimentando menos de si mesmos.

A estética (como procedimento)

A estética escraviza na medida em que o indivíduo abre mão de muita coisa pela manutenção e o alcance do corpo “certo” e têm no ideal de corpo, um ideal de felicidade; vive uma limitação espacial, pois não pode se afastar dos lugares onde a estética está ao alcance, muitos não saem de casa sem os procedimentos necessários, pois não podem se mostrar assim. Assim está errado.

A venda do procedimento é triste, funciona e fases: a primeira é a construção de um ideal de corpo, depois sugerir, através desse ideal de corpo, os defeitos dos corpos naturais e a necessidade de consertá-lo. Depois de um defeito consertado, o indivíduo já encontrou o caminho para achar os defeitos e continuará a achá-los sempre.

O condenar o envelhecer pesa fortemente sobre o indivíduo e faz a condição humana ainda mais degradante, a ideia de perder "valor" com o envelhecer do corpo atormenta a todos e tira a possibilidade da velhice digna, o que, claro, seria o natural, já que é assim que funciona o corpo humano: envelhece naturalmente.

Nesse caso, talvez se possa dizer que as mulheres estão mais aprisionadas, pois foram a muito educadas no sentido de competirem entre si para seduzirem homens, somando-se a isso a necessidade de venda de imagem, temos uma prisão de segurança máxima.

Como sempre nos lembra Chimamanda Adichie, escritora nigeriana, em suas palestras e entrevistas da questão política que se tornou o cabelo, por exemplo. “Cabelo é uma questão política”, disse ela, existe um tipo de cabelo certo e há agora uma luta para alcançá-lo e não parecer errada. Em outra entrevista, ousou dizer que: “Barack Obama não teria ganhado as eleições se Michelle Obama tivesse o cabelo natural”.

É chocante! Mas um caso a se pensar, pois afinal, será preciso aquela originalidade de que falei, de vencer as frustrações impostas, para que haja mudança e para que se possam criar identidades e não cópias.

Chimamanda também fala da utilidade da “beleza”, essa da indústria, que não resolve nada de fato, faz parte de um jogo extremamente nocivo e escravizador. Excelente reflexão para os seres humanos que nascem em corpo de fêmea e escolhem para si o gênero feminino, que já vem carregado de mitos, e se decidem por heterossexuais, se perguntarem da utilidade de seduzir homens:

Os seduzidos unicamente pela beleza industrial valem a pena serem seduzidos? Ou valeria mais a pena ser livre?

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O sexo

O uso do corpo para o sexo tornou-se também um perigo de escravidão na medida em que o sexo se tornou tabu, se tornou obrigatório e ao passo que a pornografia construiu padrões para o sexo chamado “bom”. A intimidade foi afastada do sexo e ele perde sua subjetividade na busca pelo que já foi decidido ser bom.

Por isso escuta-se muito homem gosta disso e mulher gosta daquilo; que é uma aproximação do previamente dito bom e um afastamento da subjetividade de cada ser humano e da diversidade da sexualidade humana, que em verdade é surpreendente quando não padronizada e não reprimida.

Caímos na armadilha do sexo quando damos a ele a tarefa de nos definir, como se descobrindo o sexo, descobríssemos quem somos, como se o sexo nos validasse. Uma interpretação infeliz das bases da psicanálise talvez, o fato é que na nossa sociedade se diz que é impossível ser feliz sem sexo. Deixamos de brincar com sexo e nos tornamos seu brinquedo. Como explicou Foucault em “A história da sexualidade”:

O pacto faustiano cuja tentação o dispositivo de sexualidade inscreveu em nós é, doravante, o seguinte: trocar a vida inteira pelo próprio sexo, pela verdade e a soberania do sexo. O sexo bem vale a morte. E nesse sentido, estritamente histórico, como se vê, que o sexo hoje em dia é de fato transpassado pelo instinto de morte. Quando o Ocidente, há muito tempo, descobriu o amor, concedeu-lhe bastante valor para tomar a morte aceitável; é o sexo quem aspira, hoje, a essa equivalência, a maior de todas. (FOUCAULT, 2006, p. 170)

Ou seja, o valor que teve um dia o amor, hoje tem o sexo e muitos abrem mão totalmente da intimidade, de experimentar-se no outro, de conhecer o outro por uma frenética troca de corpos em busca do sexo como mito, como validação.

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O experimentar

Em “Assim falava Zaratustra”, Nietzsche faz reflexões a cerca da dança como meio de experimentar o mundo e que pode ser tomado também como meio de experimentar a si mesmo, não de uma dança profissional e disciplinada (estas muitas vezes são usadas como modeladores corporais também), mas de uma dança, ou atividade qualquer, que seja tida como essa ponte para as sensações do mundo e de si, para Nietzsche, até os escritores são dançarinos:

“Dançar com os pés, com ideias, com palavras e preciso acrescentar que também se deve dançar com a caneta”

“E que todo o dia em que se não haja dançado, pelo menos uma vez, seja para nós perdido!”

“Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar”

Dentre outras coisas este livro é sobre alegrias loucas e pequenas, sobre rir do desespero da condição humana, o profeta Zaratustra no livro, está acima das frustrações e assim, acima de nós, mas é possível aprender muito com ele:

“É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor. Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura”

“Aqueles que eram vistos dançando eram tidos como insanos por aqueles que não podiam ouvir a música”

Ser livre é ser um pouco louco, claro, o original não é padronizado, vai destoar imediatamente do senso comum, mas se uma maioria assimilar pode mudar tudo!

Sobre o experimentar o outro, numa vivência de intimidade, conhecimento mútuo e amor, todos terão que, eventualmente, achar seu número, mas esse número não é de manequim, altura ou peso, é daquele indivíduo que te toca além do corpo. O resto são corpos que se esbarram por aí. viktoria3.jpg


Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si. "Ismos não são bons".
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