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Sobre a arte de duvidar

Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si.

"Ismos não são bons"

5 filmes, 5 olhares sobre a depressão

Sempre nos ajuda os olhares do cinema nas questões difíceis da vida, então vamos ver cinco desses olhares sobre a depressão.


Detachment_Poster_sm.jpg Detachment

Nesse filme Adrien Brody interpreta o professor substituto Henry Bates, que escolheu ser substituto na esperança de não se envolver com as pessoas, enfrentando sua depressão dia após dia sozinho e desacreditado das relações. É no ambiente de uma escola pública desintegrada que o professor vai questionar os muros que construiu para separar-se do mundo e o luto antecipado que sofre por cada um desde a perda da mãe. Henry se vê, apesar de seus problemas psicológicos, ajudando e contribuindo mais com seus jovens alunos do que os professores e indivíduos vazios que povoam a vida deles. E talvez tenha sido exatamente o seu Detach que possibilitou algumas mudanças, afinal Henry não se envolvia o suficiente para ser machucado por seus alunos, estava sempre do lado de cá. A história central do filme gira entorno da relação de Henry com duas jovens que tentam fazê-lo baixar a guarda. Pequenas alegrias são colocadas em cheque, pelo que vale a pena viver e quão grande são nossos problemas quando os indivíduos a nossa volta estão caindo aos pedaços.

fotos-do-filme-como-esquecer.jpg Como esquecer

Ana Paula Arosio vive Júlia, uma professora universitária de Literatura Inglesa, que está em um processo de reconstrução depois de ser abandonada pela companheira de vida. Este filme é extremamente rico, baseado no livro Como Esquecer – Anotações quase inglesas de Myriam Campello, traz personagem complexos e passa sobre seus conflitos internos. Júlia vive uma depressão num deserto de lembranças e sofrimentos gerados pela ausência daquele “outro” que era sua companheira e que nunca aparece no filme. O sofrimento de Júlia é descrito como a forma “mar” de sofrer, conflitos tão profundos quanto o oceano. A existência do outro de repente deixa Júlia atônita, e do outro que lhe faz falta e fere seu orgulho. Júlia vai dividir a casa com dois amigos e aprender como aceitar a dependência de uma mão amiga estendida, aceitar precisar e ainda se completar consigo mesma e não precisar.

Prozac_Nation_film.jpg Prozac Nation

Essa depressão que assola os jovens que dizemos ter tudo pela frente, Prozac Nation era inicialmente o Best seller que conta a história real da autora, Elizabeth Wurtzel, o filme não deixa por menos, fazendo um panorama pela crise da personagem que carece por dentro daquilo que os outros não podem compreender. Ela tem os pais divorciados quando pequena, uma mãe que a superprotege e coloca nela todas as expectativas não cumpridas consigo mesma; um pai que a abandona por completo e não tem nada a lhe oferecer; dramas comuns que nos levam a questionar o porquê de uns desenvolverem a depressão e outros não. Elizabeth se envolve e se alimenta daqueles que a amam; como sua evolução terapêutica é insatisfatória, sua terapeuta receita o Prozac. Acompanhamos então o processo de desconstrução da doença de Elizabeth até que ela descubra que mais carece de si mesma que de outros.

Le hérisson filme.jpg Le Hérisson

"O Porco Espinho" baseado no romance “L’Élégance du Hérisson” de Muriel Barbery é um filme que trata delicadamente nossos maiores conflitos com personagens de todos os tamanhos e formas. Paloma (Garance Le Guillermic) tem 11 anos e mora em um apartamento de luxo com seus pais e sua irmã, uma garotinha precoce e extremamente entediada. Considerada excêntrica, ela tem o hábito de ficar filmando o dia a dia de sua família e seus vizinhos, pretende fazer um filme, pois não vê sentido na vida e decidiu se matar no seu aniversário de 12 anos. Por outro lado temos Renée Michel (Josiane Balasko) é uma mulher de cinquenta e quatro anos, zeladora do prédio, sua única companhia é seu gato Leo. Renée se sente quase sempre invisível aos olhos dos moradores e aos olhos do mundo e resolve se enterrar de vez em seu casulo. Mas Paloma enxerga Renée, a menina percebe um livro aberto em cima da mesa ao lado de um tablete de chocolate e uma xícara de chá e fica encantada pela possibilidade daquela zeladora ser uma leitora de livros densos e interessantes. E o que vem a transformar tudo é a chegada do Sr. Kakuro (Togo Igawa), um personagem extremamente humano, que ao contrário das duas acredita na vida; ele não só enxerga Renée, como fica encantado por ela e Paloma vai vencendo as barreiras precoces que construiu, para se aproximar dos dois. Um final surpreendente e uma história encantadora.

Das fremde in mir filme.jpg Das Fremde in mir (O estranho em mim)

Este filme trata da depressão pós-parto, muito educativo com um jeito alemão de ser, aborda o tema sem medo, com certa frieza, expondo ao máximo os personagens, humanos e frágeis. Um filme para se informar e enfrentar a realidade do tema; gera certa tensão e com certeza desmascara o conto de fadas social sobre a maternidade. Rebecca, a mãe, é internada depois do diagnóstico e o filme da um foco nas reações da família e sociedade à inadmissível ideia de uma mulher que rejeita o filho, a maternidade que seria o empreendimento natural e livre de erros, que quando os tem, a culpa é da mãe. Dessa forma, o filme denuncia e problematiza o tema e mostra o preconceito pela condição, mesmo depois do tratamento. É um desses filmes que não chega a atingir as massas, mas que deveria.


Mariana Ribeiro

Aspirante a muitas coisas, amante da psicanálise, escritora por natureza, fadada a duvidar, viajadíssima dentro de si. "Ismos não são bons".
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