inteligência evolutiva

Do óbvio ao inacreditável

Alexandre Pereira

Escritor, acadêmico de Comunicação Social, Educador Físico, Youtuber, Blogueiro e Pesquisador da Consciência. Penso que a Ciência é o caminho menos pior que irá nos levar as estrelas ao invés da destruição. Também vejo que o autoconhecimento é o caminho que nos levará a iluminação ao invés da autodestruição. Mais matérias e informações em: www.dimensaomental.com.br

O corpo e a consciência segundo a série Altered Carbon

E se fosse possível transferir tecnologicamente a sua consciência para um novo corpo ao invés de morrer? Você aceitaria a imortalidade?


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O livro Carbono Alterado (Altered Carbon) escrito por Richard K. Morgan visualiza um futuro distópico onde a raça humana está imensamente desenvolvida tecnologicamente, mas com novos dramas em função desses avanços. O enredo é uma trama bem construída que envolve muita ação, mistérios e conceitos fascinantes numa jornada que fará o protagonista Takeshi Kovacs passar por situações mais desafiantes do que poderia imaginar.

A Netflix usou o livro como base e fez da série de mesmo nome uma descrição fiel do universo apresentado. Nessa futura realidade a tecnologia está evoluída a ponto de existirem cartões ou cartuchos corticais que podem registrar a sua identidade ou personalidade desde o nascimento. Dessa forma, quando o corpo morre, esse cartucho com “você” pode ser passado para outra “capa” (adjetivo muito interessante usado para o corpo humano) e assim vivendo indefinidamente. Essa é a premissa do livro e da série.

A questão de viver continuamente em corpos diferentes foi sempre de cunho relevante e esse tema é abordado por diversas linhas filosóficas, religiosas e até científicas, como a Conscienciologia. Sempre podemos nos questionar: eu sou o meu corpo físico? Ou a minha essência vai além de um corpo material feito carne, ossos e sistemas? Aliás, essas questões nunca foram mais atuais em função da aceleração do nosso desenvolvimento nas mais diversas áreas.

É interessante tanto no livro como na série o modo como é abordada a relação entre aparência e personalidade ao mostrar, por exemplo, uma senhora que “morreu” como avó e teve seu cartucho reativado num corpo masculino jovem cheio de piercings e tatuagens. Ver o tratamento dos parentes de modo natural frente uma avó naquele corpo totalmente diferente não deixa de ser inusitado. Afinal, como uma “senhora” deveria se portar naquela “capa” alternativa?

Com o avançar do enredo é possível vislumbrar outras realidades muito prováveis caso a humanidade chegue nesse nível tecnológico e também alguns contextos já bem conhecidos como, por exemplo, um grupo minoritário de pessoas extremamente ricas e poderosas que tem controle sob quase tudo. A ação dessa classe, também chamada de Matusa, expõe um absolutismo que não é incomum no mundo atual.

Nesse contexto de dinheiro e poder é mostrado que se um Matusa mata uma prostituta durante o sexo ele a recompensa com uma capa melhorada, ou seja, mais linda e atraente. Situação bem oposta das capas oferecidas pelo governo que são de aparência desagradável, desleixada e bem inferiores. A crítica parece assertiva quando evidencia que o serviço público se mostra sempre menor em relação ao que há de melhor.

Apesar de Altered Carbon mostrar um tom mais escuro e sombrio de uma sociedade futura é provável que caminhemos para muitos desses aspectos onde sexo, dinheiro e poder permanecem como os grandes motores das sociedades em geral. Afinal, é possível que um dia sejamos seres que vivam de modo mais igualitário e harmônico sem que a ambição e o prazer dominem nossas condutas?

Outra questão marcante é a postura das pessoas religiosas e crentes que escolhem morrer de fato ao invés de ficar mudando de corpo. Até que ponto seria melhor optar em “ir para o céu” ao invés de viver na matéria sem prazo de validade? Na história, um pequeno problema abordado é que ao utilizar uma nova capa você acaba adquirindo os vícios que o mesmo possui, ou seja, em caso de alcoolismo sente-se a necessidade de voltar a beber.

Nesse processo surge um dos eixos de todo o pensamento humano desde a antiguidade: onde está a sede de nossa consciência? Somos espíritos em um corpo carnal ou um cérebro incrível, mas somente biológico? A fundamentação de transferir o que somos para um cartucho tecnológico não deixa de representar um modo similar (e ao mesmo tempo avesso) do que a criogenia sempre tentou: a evitação da morte.

A imortalidade foi sempre buscada pelo homem como meio de acabar com a insegurança sobre a morte e sua inevitabilidade. O apego pelo próprio corpo vem gerando tentativas frustradas e desesperadas para sobreviver ao peso esmagador do tempo. A mudança de corpos em vidas sucessivas é um conceito similar adotado por diversas linhas como o budismo, hinduísmo, espiritismo, entre outras. Segundo a Conscienciologia, o corpo humano é chamado de “veículo” para que a consciência utilize na dimensão física sendo, portanto, inevitável para todas as pessoas o ciclo de morte e renascimento com a troca de veículo ou capa a cada nova passagem terrestre.

Sempre se fala de renascimento (reencarnação, ressoma ou metempsicose) com a perda de memória entre uma vida e outra como forma de esquecer os erros cometidos e assim ter uma nova oportunidade de acerto começando do “zero”. Dessa forma, aquela individualidade poderia recomeçar sem as amarras, desilusões e culpas do que já passou. Entretanto, manteríamos a sanidade vivendo por tanto tempo, mudando por muitos corpos, sem perder a memória? Essa é uma questão pouco abordada pela série, pois a maioria das pessoas, mesmo as muito “velhas” parecem manter a integridade emocional.

Mas enquanto vivermos em corpos temporários como o que possuímos, a imortalidade será sempre um sonho ou uma verdade oculta. Será que nossa alma, ego ou consciência já não será imortal vivendo apenas uma condição evanescente? Até que ponto corremos atrás de uma imortalidade já existente enquanto nos julgamos seres perecíveis e descartáveis perante a natureza? Enquanto você não obtém sua resposta resta apenas viver e respirar nesse corpo de carbono.


Alexandre Pereira

Escritor, acadêmico de Comunicação Social, Educador Físico, Youtuber, Blogueiro e Pesquisador da Consciência. Penso que a Ciência é o caminho menos pior que irá nos levar as estrelas ao invés da destruição. Também vejo que o autoconhecimento é o caminho que nos levará a iluminação ao invés da autodestruição. Mais matérias e informações em: www.dimensaomental.com.br.
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