intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

ELEFANTE COR DE ROSA

Um passeio pela adolescência e o mundo adulto a partir de situações cotidianas. O que podemos querer nos diálogos entre as gerações?


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Ao escutar duas garotas conversando no parque, certo dia, me vi em uma situação inusitada: como se tivessem me convidado a estar com elas, mergulhei meus ouvidos naquele mar de informações e sem pensar duas vezes fui absorvendo tudo o que era dito.

Uma (Julieta) desabafava sobre a noite passada, dizendo como estava com raiva e triste com um garoto chamado João. A outra (Natália) ouvia atentamente a amiga, mas às vezes dispersava a atenção para observar as pessoas que ali passeavam. De vez em quando Natália fazia comentários sobre alguns garotos bonitos que passavam ou um lindo cachorrinho que corria alegre e saltitante.

Julieta estava desconsolada. Como João não queria ficar com ela? Por que tinha preferido Maria Eduarda? Logo ela que estava esperando por aquela festa da turma há meses, imaginando o momento em que finalmente eles poderiam ficar juntos novamente e toda a escola saberia no outro dia que ele era dela e de mais ninguém. Como ela, Julieta, que é tão esperta, não percebeu os sinais! Será que ela havia entendido errado? Espera aí! Não! Interpretação errada nada! Para Julieta, ele demonstrou interesse sim o tempo todo e depois se fez de difícil e quis deixa-la na “friend zone” só para provoca-la e colecionar mais uma no fã clube dele.

“João é realmente um idiota!”, dizia Natália, “Julieta, eu acho que você deve ficar com o Henrique só para mostrar que não está nem aí”. Julieta, então, voltando a ficar confiante outra vez, fez uma lista de garotos a conquistar para mostrar a João que quem perdeu foi ele.

E Natália, no ápice da dispersão, fala: "Minha mãe quer me colocar de castigo por eu ter mentido pra ela semana passada. Eu disse que ia pra casa da Camila fazer um trabalho de Português e depois ela descobriu no meu facebook que eu estava no shopping". Julieta, então, responde: "Affi! Você e a Camila com essa mania de fazer selfie em vestiário de loja!"

Natália: O quê que tem? Melhor do que ficar chorando por alguém que não me quer. E além do mais precisava mesmo experimentar umas roupas. Daqui a duas semanas vai ter a festa da Carol.

Julieta: Nem fala! Minha mãe não quer me deixar ir porque vai tá na semana de provas. O quê que tem a ver, né? Ela não entende nada! Só fica me dizendo que preciso estudar. Como se eu não soubesse que preciso passar de ano. Vive me dizendo que preciso estudar com antecedência. Sempre estudei de véspera e nunca repeti. Duvido se na época dela ela também não saia.

Natália: Ah, Julieta, naquela época era tudo diferente. Os pais não sabem nada. Eles são velhos demais pra entender. Eu e minha mãe somos completamente diferentes em tudo. E meu pai... Ah, evito falar com ele qualquer coisa, pois só sabe dizer não.

Julieta: Tudo que meus pais querem fazer comigo são coisas chatas. E eles ainda acham ruim se digo que não estou a fim.

Natália: Pois é. Comigo é a mesma coisa!

Julieta: Se o João vier falar comigo, o que digo?

Natália: Diz que não está interessada em nada que venha dele. E que você está saindo com um garoto do 2º ano do Ensino Médio e ele não vai gostar nenhum pouco de saber que a namorada dele anda de papinho com um ex-ficante.

Julieta: Será que vai funcionar?

Natália: Se não funcionar é porque ele não entende nada sobre você. E pra mim menino que não sabe conquistar menina não vale a pena investir. E pra ser sincera ele nem sabe conversar direito. Só sabe fazer piadas idiotas e ficar exibindo o corpo. Não sei como a escola inteira ainda quer ficar com esse garoto?

Julieta: Natália, eu só te digo uma coisa: Elefante cor de rosa pra você.

Natália: Não sei por quê?!

Depois de ouvir atentamente aquela conversa me pus a pensar: Nossa! Qual será a diferença que elas percebem? Eu, ao contrário, nunca vi juventude mais careta! Como os pais podem ser velhos se as formas de se relacionar ainda são as mesmas, exigindo propriedade e atenção sobre os outros.

E a diferença de significados entre estudos e diversão para planejamentos de curto e longo prazo? Só me faz perceber o quanto o modelo educacional continua o mesmo. Sem falar no conhecimento como instrumento utilizado para passar de ano... Até hoje não entendo para quê serve isso.

Mas, o que mais me chamou a atenção mesmo foi: “Elefante cor de rosa pra você”. E me perguntando o significado dessa expressão, descobri dias depois que entre alguns adolescentes quer dizer um estado de entorpecimento quando alguém diz nada com nada. Ou seja, é algo sem sentido e, portanto, só se justifica semanticamente caso a pessoa esteja sob o efeito de alguma droga, pois do contrário não tem sentido nenhum.

Então, na embriaguez dos contrastes semelhantes entre os mundos juvenil e adulto me pergunto: Se todo discurso traz uma opinião do emissor sobre determinado tema, no jogo das interações sociais o que pode significar uma interposição de ideia que aparentemente nada tem a ver com o que está sendo dito? Será que essa expressão é acionada quando a pessoa que a utiliza não compreende o que está sendo dito ou quando não concorda com o que ouve? Ou, ainda, quando não possui interesse no novo assunto?

Talvez as vidas latentes, isto é, as vidas imaginárias submersas nos mundos paralelos de nós mesmos (onde depositamos nossas crenças, sentimentos dos mais diversos e experiências) sejam mais reais do que o mundo vivido propriamente dito.

Vivemos a todo instante o mundo vivido sem conseguir perceber as vidas imaginárias dos nossos interlocutores, que, assim como as nossas, também, se encontram em ação. E isso me leva à conclusão de que expressar o que se pensa ou, então, a ausência de uma comunicação correspondente entre o que se diz e o que é dito, talvez só sirva mesmo para dizer uma coisa: “Elefante cor de rosa pra você”!


Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
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