intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

BORBOLETAS EGÍPCIAS

Aqui estou eu... Caminhando nos desertos que compõem as minhas trajetórias no mundo. De que modo posso agora exercer o meu caminhar? Vesti identidades que não me servem mais; sofri emoções em conflitos duais e hoje já não posso mais olhar em mim os reflexos de um corpo sepultado no passado.


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Para que servem os rituais? Para simbolizar o encontro do passado com o presente? Para (re)constituir a experiência da existência por meio das emoções? Será o ritual também uma objetificação dos expurgos de nós mesmos, onde podemos nos dissolver para depois renascer?

Vivenciamos socialmente rituais dos mais diversos e neles elaboramos expectativas intersubjetivamente compartilhadas. Por meio deles podemos nos posicionar perante o mundo e, em relação a fatos cotidianos que se apresentam a nós. Mas, assim como a vida, a morte, também, reclama rituais.

Nos rituais da morte não vou aqui reclamar aqueles que choram na marcha fúnebre. Mas, aqueles que celebram o morrer em vida. Uma celebração do fim de tudo que não se quer mais. Um ritual que simboliza uma passagem e uma reinvenção.

Enxergar alegria na morte, seja de que tipo for, é uma tarefa muito difícil. Um processo doloroso onde é possível apreender memórias e aprendizados. Pelos rituais atribuímos significados, nos permitimos vivenciar as experiências dos fatos da vida e também a experiência de transcendê-los.

O processo de reinventar-se é um ato de transcendência; é uma escolha individual, possível e muitas vezes necessária. No caminho de meu renascimento vi partes minhas sendo mutiladas; doeu e sangrou cada membro perdido... Fui jogada ao chão e me dissolvi na terra árida e áspera das lições da vida. Fiquei meses no apodrecimento, inerte, jogada a tristeza de quem se vê morrer em vida.

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Nas várias faces da morte, primeiro virei “bicho”. E gritei, esvaziando a dor escondida e latejante que me torturava incessantemente enquanto estive viva no meu corpo mutilado. Em meio aos gritos, vi o sangue escorrer pelo meu corpo, rasgando as minhas várias máscaras de sentir minha vida doendo em mim.

E como bicho eu me conectei com a terra embaixo do meu corpo. E uma vez integrada ao movimento maior do que eu e do qual sou apenas elemento integrante, fui alçada à suspensão da minha vida anterior. Libertei-me de quem eu fui e assim pude enxergar um novo ser surgindo, simultaneamente ausente e presente. Ausência por não apego à vontade de identificação; E presença por ser ato de existir.

E vivenciando a existência de minha ausência, celebrei minha morte e dancei em meio ao meu cadáver. E após horas do meu ritual fúnebre pude finalmente romper minha dualidade! Não mais ficarei triste com minha tristeza; vou acolhê-la, mas não como quem gosta de lamber as próprias feridas, mas como AQUELA que acolhe todas as emoções sem distinção porque é unidade; porque existe na harmonia de aceitar todos os sentimentos, e não de sofrer por aqueles que gostaria de excluir.

Na dualidade somos excludentes de nós mesmos, nos mutilamos e depois ficamos amargurados pela dor. Não podemos querer a negação daquilo que somos. Para mim, somos carne, somos sangue, somos pensamentos, somos emoções e somos o ato de existir em tudo isso e nos mais diversos comportamentos que vão compondo a nossa estória no caminho das múltiplas facetas de nós mesmos.

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Não precisamos de culpa e nem de negação. Nossos atos são os meios pelos quais existimos no instante de cada momento, que é único e singular. Mas, nem por isso precisamos nos apegar e nos identificar com todos eles. Podemos morrer e viver quantas vezes assim entendermos.

E na possibilidade de viver minha própria dissolução quero a celebração de todos os rituais em que posso inscrever a minha existência, absorvendo as metamorfoses que me dilaceram e me compõem ao mesmo tempo; momento este em que percebo com todo o meu ser que não sou objeto, mas sujeito no mundo.


Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
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