intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

Amado seja aquele que se senta

Uma reflexão sobre “Canções do Segundo Andar”, o primeiro filme da trilogia existencial do diretor Roy Andersson.


Roy-Andersson-012.jpg

Inspirado na poesia peruana de Cesar Vallejo (“Traspié entre dos Estrellas”), Roy Andersson busca no filme “Canções do Segundo Andar” refletir sobre a condição humana e os padrões socioculturais que impulsionam e significam as ações do homem sobre si mesmo e em relação aos outros.

Um jogo entre individuo e sociedade no qual o primeiro está aprisionado aos grilhões do segundo. No filme, o diretor lança a questão de que nós humanos estamos presos a um destino sobre o qual não temos nenhum poder de decisão, cabendo a nós apenas suplicar a esse destino uma condição mínima de existência onde a sobrevivência é o imperativo predominante.

O filme se inicia fazendo uma associação do sentido da vida com o fato da nossa permanência no mundo. Ou seja, viver significa estar nesse mundo cujo objetivo principal consiste em assegurar a nossa própria sobrevivência enquanto vivos estivermos. Por sobrevivência o filme denota a junção entre as necessidades de subsistência (comida) e diversão.

Partindo desse princípio, os seres humanos experimentam uma luta por essa sobrevivência; um duelo entre pessoas ligadas ao coletivo apenas pelo fato de se encontrarem com o mesmo objetivo existencial e que não se vinculam aos outros devido ao risco de não atingir sucesso. Uma luta solitária apesar de coletiva.

01_Songs From the Second Story, 2000, Roy Andersson.jpg

A partir desse contexto o filme traz inúmeras cenas que nos levam a reflexões tais como:

1) A dedicação ao trabalho não garante o emprego;

2) Os imigrantes são submetidos a uma condição de subcidadania;

3) Na disputa entre ilusão e realidade, a última sempre sai ganhando;

4) As insônias são frutos do aprisionamento do indivíduo ao cotidiano;

5) A apatia ao trabalho e as relações pessoais vigoram nas instituições;

6) Independentemente da idade, a morte pode ser iminente para todos;

7) Apesar da incerteza sobre o futuro, vivemos o presente em função dele;

8) As relações se estabelecem predominantemente por obrigações sociais e necessidades individuais que muitas vezes nada tem a ver com o outro com quem nos relacionamos;

9) A pobreza apesar de ser uma possibilidade passível de acontecer a qualquer um, implica uma marca classificatória ao sujeito na hierarquia social, integrando a subjetividade deste à objetividade das condições sociais nas quais ele está imerso numa dada configuração de tempo e espaço;

10) A palavra se tornou vazia perante o poder dos documentos. Vivemos uma sociedade burocrática cuja credibilidade do ser humano não está no que ele diz, mas naquilo que está escrito e, reconhecido socialmente;

11) Ninguém está imune à catástrofe, o que nos permite banalizar o sofrimento individual alheio uma vez que todos nós passamos por adversidades. E a catástrofe adquire uma conotação individual, nos fazendo esquecer a raiz social do problema onde nós humanos somos apenas a ponta do iceberg;

12) Estamos submetidos à realidade socioeconômica e política do mundo e nada podemos fazer a respeito mesmo quando somos diretamente afetados, pois o poder de decisão não é nosso;

13) A luta pela sobrevivência nos obriga a exercer profissões que não gostamos e a viver um cotidiano muitas vezes não desejado, não nos permitindo uma liberdade para ser sujeito no mundo;

14) Vivemos e reproduzimos convenções sociais aprisionantes da nossa vida e da nossa dignidade;

15) A fé do mundo consiste no dinheiro e no sucesso;

16) A bebida alcoólica serve como uma terapia para conformar o ser humano ao mundo onde vive, preenchendo o vazio existencial, marcado pelo arrebatamento do cotidiano e das convenções sociais;

17) A loucura é o resultado de quanto o ser humano conseguiu andar pela vida sem se deixar afetar psicologicamente pelo aprisionamento sócio-existencial;

18) O conhecimento acadêmico não é nada mais do que status social. Ele é tão ilusório quanto uma “bola de cristal advinhatória”. Não temos o controle de nada;

19) Muitas vezes não sabemos onde estamos e nem a direção para onde estamos indo. Somos conduzidos pelo fluxo das massas e estamos paralisados nesse movimento;

20) O egoísmo da felicidade utilitária nos impede de exercitar uma compreensão do outro. E na ausência de capacidade empática nos sentimos injustiçados devido aos nossos esforços na luta pela sobrevivência.

O diretor não só ilumina questões sobre a existência como desnaturaliza aspectos comuns do cotidiano, fazendo-nos refletir sobre a nossa condição de humanidade.

Segue abaixo um trecho do filme para finalizar essa primeira reflexão da trilogia existencial de Roy Andersson:

“A vida é tempo e o tempo é a extensão do caminho. Isto faz da vida uma jornada, uma viagem. Para viajar é preciso uma bussola e um mapa. Caso contrário, não saberá onde se encontra. E nosso mapa e nossa bussola são nossas tradições, nosso patrimônio, nossa história. Se não nos damos conta disso, andamos na escuridão”.

We have sacrificed the bloom of youth.png


Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Viviane de Araujo Aguiar