intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

"VOCÊS, OS VIVOS"

"Seja agradecido, você que vive, em sua aprazível aquecida cama, antes que a onda gelada em Lethe lamba seu pé que tenta escapar" (J.W. Goethe)


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O segundo filme da trilogia existencial de Roy Anderson (“Vocês, os vivos”) aborda a insatisfação do ser humano com a própria vida. Uma frustração seja por sonhos não realizados, seja pela pobreza e/ou, seja por uma rotina de aprisionamento cotidiano.

Roy Anderson critica uma ideia de felicidade assentada no egoísmo, na falta de afetividade e na falta de capacidade empática. Para ele, a condição humana se torna mais miserável na medida em que não percebemos a efemeridade da vida e ficamos presos às dificuldades vividas, negando a nós mesmos e ao outro o direito de expressar-se sem ser julgado e de desenvolver gestos amáveis.

Para ele, as condições materiais de existência influenciam a capacidade de realização do ser humano, podendo acarretar estados emocionais de cansaço, raiva e exaustão. Mas, apesar de tudo podemos tentar aproveitar os bons momentos quando temos a oportunidade de vivê-los.

Expurgamos na coletividade nossas frustrações, dificuldades relacionais, carências afetivas e mazelas existenciais; E colhemos, como resultado desse expurgo, conflitos cotidianos, que tornam a realidade ainda mais difícil e com sérios prejuízos para nós mesmos, inclusive.

filmes_423_Voces Os Vivos 7.jpg Dentre as várias cenas do filme, uma problematiza a família, configurando esta como um espaço onde inexiste o desenvolvimento de relações autênticas; um lugar de julgamento, desqualificação e culpabilização do outro. O mundo privado não proporciona o afeto desejado, nem uma intimidade efetivamente compartilhada, e nem uma privacidade necessária ao exercício da individualidade de cada um, denotando a ilusão do casamento e do relacionamento amoroso.

O lamento pela vida infeliz cotidiana e a conformidade com a preponderância dos papéis sociais frente ao indivíduo são confrontados com a construção de um lugar onde não há tristeza, dor, fome, etc. Um lugar ideal, ou seja, uma terra prometida, de descanso e de paz eterna, que valoriza mais a realidade após a morte do que a vida presente.

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Para Roy Anderson, o ser humano possui a terrível capacidade de criar invenções para destruição de si mesmo, além de buscar a construção de uma imagem valorizada socialmente em detrimento inclusive de relações afetivas. Entretanto, se pararmos para observar a vida enquanto experiência fenomenológica do viver, teremos a oportunidade de apreciar o instante de estarmos vivos e aproveitá-lo da melhor forma possível.

Um filme realista sem deixar de ser poético cujo foco principal não consiste somente em apontar significados destrutivos que conferimos a nossa existência, mas também o que perdemos quando não conseguimos enxergar nada além de nossas próprias frustrações.


Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
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