intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

FICO FELIZ EM SABER QUE VOCÊ ESTÁ BEM

Refletindo sobre a existência: A parte final de uma trilogia sobre ser um ser humano.


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Neste último filme da trilogia existencial de Roy Andersson, somos provocados a pensar sobre o que realmente importa e sobre o tipo de vida que vivemos.

As cenas do filme se desenvolvem em temas abordados anteriormente, ressaltando as condições sociais e existenciais do ser humano, tais como: a iminência da morte, o apego aos bens materiais, o aprisionamento da vida cotidiana, a facilidade com que julgamos a nós mesmos e aos outros, a artificialidade das relações e das instituições, etc.

O filme traz mais perguntas do que respostas. E não poderia ser diferente, pois se as perguntas estão calcadas em preocupações filosóficas existencialistas, as respostas, então, só podem realizar-se de forma particularizada, ou seja, só podem ser respondidas por cada ser humano individualmente, conforme nos diz Simone de Beauvoir:

“O homem existe. Não se trata, para ele, de perguntar se a sua presença no mundo é útil, se a vida vale a pena ser vivida: estas são perguntas despidas de sentido. Trata-se de saber se ele quer viver e em que condições” (Beauvoir, S. 1970. Moral da Ambiguidade. Paz e Terra).

Nesse contexto, o filme nos lança ao desafio de não nos prendermos à rotina, à mesmice e nem às justificativas que nos impedem de ver com clareza o que realmente nos importa. Somos, então, convidados a uma reflexão sobre nossa própria existência e de que modo podemos estar no mundo.

Há um poema recitado por uma garota em uma cena do filme que é justamente o título da película. Ela diz que um pombo pousou num galho, descansou, refletiu e depois voou para casa. Nesse sentido, Roy Andersson traz diversas cenas em que os personagens se comportam como os pombos do poema, isto é, o voo do pombo somos nós em nossas atividades cotidianas e que quando paramos para descansar refletimos sobre os contextos a que estamos submetidos e depois continuamos nossa jornada diária da mesma forma.

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O filme traz também uma frase recorrente: “Fico feliz em saber que você está bem”. São cenas em que os personagens utilizam essa fala, mas em momentos que evidenciam exatamente o contrário do que está sendo dito, revelando, assim, não só a contradição dos discursos como também as artificialidades do mundo social.

Como exemplo disso, há a cena de um homem totalmente apático e com uma arma na mão enquanto fala tal frase. Roy Andersson está aqui nos provocando sobre o teatro que encenamos socialmente, agindo de forma completamente artificial e mecanizada.

Ele também denuncia a banalização das atrocidades históricas. E aqui o filme ilustra a guerra travada pela Suécia com a Rússia na época de Carlos XII, culminando no fim do império sueco. Uma guerra que exemplifica como a ganância e o poder prejudica a vida das pessoas. E como tais atitudes sejam atos da História ou sejam atos cotidianos mesmos não engendram mudanças para uma conduta mais generosa, empática e sensível consigo mesmo e com os outros.

Roy Andersson, ressalta, ainda, a característica de animal social do ser humano e como esta impõem a necessidade de interações e contatos afetivos; porém, reveste-se do uso das pessoas para o próprio prazer.

A partir do filme, podemos perceber a mensagem de que refletir sobre a existência não significa cortar laços com o mundo; mas, engendrar sentido à ação social; perceber as emoções como termômetros do nosso modo de vida. E que podemos olhar para nós e para o outro de forma generosa, não interagindo artificialmente e nem banalizando o sofrimento alheio e as atrocidades históricas.

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Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
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