intensidade escrita

Uma jornada pela adorável e selvagem vida das palavras

Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo.

A GRANDE RAINHA

Saiu à procura de algo que a pudesse consolar. E, na angustia de buscar, saiu na madrugada daquela noite quente, bastando um sorriso para a loucura chegar. De frente às portas que a levavam para dentro de si, ali, ela se absorveu e chorou. A noite já não existia mais, apenas um quarto escuro, transparente e revelador de descobertas infindáveis, permanentes ou não, mas libertador da normalidade paralisante.


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Sentada de frente para tudo que me desafia hoje consigo dizer: já estive aqui outras vezes; e, assim como eu, acredito que inúmeras pessoas também já passaram por si mesmas em mundos subjetivos muitas vezes não revelados, mas que de algum modo se encontram com as várias formas de estarmos no mundo, nos levando ao encontro irônico de emoções que nem sempre estamos preparados para sentir.

Nos rituais de esquecimento e lembrança das interações humanas não querer e/ou não poder sentir às vezes também é condição necessária para que consigamos seguir em frente. E na teia da grande complexidade e contradição do processo de viver, o não querer sentir também expressa um sentimento; um modo de sentir ao contrário onde em vez de transbordar o que há dentro de nós nos enchemos de nada, entorpecidos pela roda do tempo de nós mesmos com os outros.

Na visita inevitável e intensa das emoções, o truque de não dar atenção e deixar a visitante constrangida o suficiente para ir embora nem sempre funciona, pois ela infelizmente sabe quando estamos fingindo; e, sendo assim, ela espera pacientemente a farsa acabar pra poder falar conosco no espaço das verdades indizíveis. Tenho de admitir: Ela é mais esperta do que eu!

E mergulhada no mundo latente das vidas imaginárias, absorvemos as emoções do sentir tudo mesmo quando não queremos sentir mais nada. Nesse instante nem a intensidade da noite pode mais ecoar os nossos pedaços. E assim vamos fluindo como espumas em um mar de ressaca.

A carne e o sangue que nos compõe trazem a tona a consciência da existência, mas é somente no espaço onde a leveza esconde o fardo das prisões arrebatadoras de sentido é que posso me ver. E mesmo quando meus sentidos me trazem de volta a realidade, eles não conseguem mais me alcançar; e, assim, vou caminhando a dois passos de mim, sentindo a impermanência no meu ser.

Tento em vão resistir à plenitude de não saber pra onde se vai, desejando a certeza de que pelo menos esta noite poderia seguir adiante na vontade de escapar do meu mundo de possibilidades e voar. E nesse voo, não perceber mais lama e nem vazio, mas possibilidades concretas de um novo querer em um novo ser... Pronto! Estou presa na armadilha da existência mais uma vez!

Na insanidade da noite espero um dia não mais precisar de paciência para tolerar a longevidade daquilo que não tem hora e nem momento pra chegar. E no mar de minhas vidas pulsantes brindar a impermanência ao amanhecer, momento em que minhas visitantes indesejadas, já cansadas de viver em mim, irão embora a procura de outra noite em outro lugar.

Mas, no abismo escuro onde gritei meus medos, minhas dores e minhas vontades; onde o desespero não mais precisou se esconder, encontrei refúgio na minha própria solidão. Aqui posso ouvir todas as vozes que fazem versões diferentes de mim para lidar com o mundo. E posso sentir a intensidade dos sentimentos que cada uma delas me traz.

Na luta da vida com a morte vejo o meu teatro. Sou palco e sou plateia. Um me leva aos pequenos atos e o outro me leva ao conjunto da obra. Um é ação, o outro é reinvenção.

Quero a minha ponte intransponível onde não mais precisarei me esconder das visitantes inevitáveis e indesejadas, pois na minha dissolução posso oferecer o melhor de mim, inclusive para mim mesma.


Viviane de Araujo Aguiar

Formada em Antropologia. Amante das artes em geral, interessada em viver um dia de cada vez, buscando a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Adora refletir sobre a vida e os comportamentos humanos. E encontra na escrita um modo particular de ser e estar no mundo. .
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