introspecção exposta

Cultura, Filosofia, Ciência e Loucura.

Bruno Braz

Simples. Inspiração. Escrita. Discernimento. Entrelinhas. Ilusão. Crítica. Loucura. Perspectiva. Singularidade. Interação. Amor. Infinito. Pensamento. Escolha. Ser. Ponte. Vida. Transformação. Profundidade. Introspecção. Exposta

Uma geração guiada pela voz do comodismo e da descrença

Te convido a ouvir aquela "voz interna" que te afoga na inércia e sufoca sua sede por mudanças. A rotina e a cultura nos vencem pelo cansaço, e o que antes eram sonhos, agora é utopia. Se deixamos de enxergar o essencial, o que poderá curar essa miopia existencial?


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Acredito, sim, que a vida foi feita pra ser "algo mais", mas insisto em ouvir a voz da incredulidade, do comodismo e da descrença me dizendo que é loucura. Não há do que reclamar, ouço, as coisas são assim mesmo. A crescente miséria humana e destruição ecológica, tão antigas quanto a própria civilização, são da natureza humana, ou ainda, um resultado inevitável dos defeitos humanos como o egoísmo e a preguiça. Já que não se pode mudá-los, devo apenas agradecer pela sorte que tenho em evitá-los. A miséria de boa parte do planeta é um aviso, ainda ouço, pra me proteger, salvar o que é meu e garantir minha segurança.

Além disso, as coisas não podem estar tão mal assim. Se tudo o que vejo por aí fosse verdade, sobre desastres ambientais, genocídios e fome, não deveríamos estar todos protestando ou fazendo algo a respeito? A normalidade da rotina parece me alienar e dizer, "Nada mudou de ontem pra hoje, então não deve estar tão ruim assim". Até a cultura também me diz algo assim. Cada propaganda, celebridade, lista de compras, final de campeonato ou seriado, carrega uma mensagem subliminar: "Isso que estou te mostrando é realmente importante, deixa o resto pra lá". Alguém com a casa em chamas não se preocuparia com nada daquilo. Se a cultura consegue nos fazer acreditar que tudo aquilo é realmente importante, então nossa casa não está em chamas; florestas não estão sendo desmatadas; desertos não estão crescendo; o clima não está enlouquecendo; crianças não estão morrendo de fome; etnias inteiras não estão sendo massacradas; esses crimes contra a humanidade e a natureza não devem estar acontecendo. Provavelmente estão exagerando, continuo a ouvir, e mesmo que sejam assim tão preocupantes, estão longe de mim e da minha realidade. O mundo vai encontrar uma solução antes que os problemas da África cheguem até aqui. Então ninguém se preocupa, não é mesmo? A vida segue seu rumo.

Quanto à ideia de um mundo melhor, talvez as expectativas sejam altas demais. Acorda pra vida, diz a voz da descrença, o mundo é assim mesmo. Que direito temos de acreditar que as maravilhas de uma outra realidade, simples fruto da imaginação, podem se tornar reais? Não se pode acreditar num mundo tão bom assim, isso é utopia. A vida que me cerca, essa sim, deve ser considerada "normal". Será que encontro alguém por aí que trabalha por prazer, que é dono do próprio tempo, que toma o amor como sua paixão? Parece impossível. Seja grato, me repreende o comodismo, seu trabalho até que é legal e você sempre se apaixona por alguma coisa durante algum tempo — aliviando todo o sofrimento, angústia e dúvida que teimam em me encontrar de tempos em tempos. O ótimo é inimigo do bom. A vida pode ser um saco, mas você consegue fugir de vez em quando. A vida requer trabalho, disciplina, responsabilidade, mas se você for bem produtivo, pode curtir umas férias, um cinema, um feriado e, quem sabe, até se aposentar mais cedo. E foi pensando assim que enxerguei meu próprio reflexo em pessoas que vivem em função dessas fugas. Sim, já pensamos na aposentadoria logo que começamos a trabalhar, ou então sonhamos em ganhar na mega-sena pra ficar só numa boa. Por quê?

Se a vida e o mundo se resumem àquilo tudo, então só me resta ser mais eficiente, conquistar alguma estabilidade e fazer o melhor que puder pra lidar com os trancos da vida. Somos influenciados a pensar assim. Defendem a tecnologia e a melhoria contínua, que nos fazem trabalhar cada vez mais pra melhorar a condição humana. Aliás, melhorar a condição humana de quem? Só dos que "merecem", é óbvio. Me sinto obrigado a ter uma vida recheada de sucessos, trabalhar todos os dias, organizar meu tempo de forma eficiente, ser mais disciplinado e me esforçar pra ser alguém melhor — é o peso da cruz que nós mesmos criamos. Coletivamente, espera-se milagres da nova geração de avanços materiais e sociais — novos remédios, leis mais justas, computadores mais rápidos, energia solar, nanotecnologia — que talvez nos ajudem a melhorar as coisas. Aí será tudo mais eficiente, inteligente e capaz, e então conseguiremos, finalmente, resolver todos os nossos problemas! Amém.

Felizmente, sinto que essa influência está cada vez menor entre as pessoas. Palavras como "high-tech" e "moderno" vão perdendo sua mágica conforme as diferentes formas de crise parecem convergir. Se dermos sorte, conseguiremos, ao menos por um tempo, evitar que essas crises nos alcancem. Enquanto o ambiente é destruído, os empregos somem, a situação internacional piora, uma nova doença incurável surge e as mudanças se aceleram, parece impossível enxergar um final feliz. O mundo vai se tornando mais competitivo, perigoso e impiedoso, onde só se conquista a estabilidade — ilusória, diga-se de passagem — através de um esforço cada vez maior. E mesmo quando alcançamos a tal "estabilidade", a ansiedade segue a espreita tal como uma inquietude nas entrelinhas da vida moderna. Assim, segue permeando até no mundo tecnológico, apressando o ritmo do desenvolvimento. Acabamos perdendo as esperanças quando as tais soluções — novos avanços, leis justas, educação, mais trabalho — parecem só piorar as coisas.

Entendi, com a ajuda de pessoas mais inspiradas, que "me esforçar mais" simplesmente não é o bastante. Nossos "melhores esforços" estão presos ao mesmo "modo de ser e pensar" responsáveis por todas essas crises e dúvidas. Einstein, talvez tão sábio quanto inteligente, dizia algo assim: "Os problemas que enfrentamos não podem ser resolvidos com a mesma mentalidade que os criou." Sei que esse "modo de ser" terá um fim e, então, acredito que uma (r)evolução na compreensão do que chamamos de Eu tomará seu lugar, acompanhado por uma relação mais profunda entre os homens, a sociedade e a natureza. O amor será a lente pra curar essa miopia existencial, não só para amar o próximo como a si mesmo, mas para reconhecer a si mesmo no próximo — um Eu, enfim, maior.


Bruno Braz

Simples. Inspiração. Escrita. Discernimento. Entrelinhas. Ilusão. Crítica. Loucura. Perspectiva. Singularidade. Interação. Amor. Infinito. Pensamento. Escolha. Ser. Ponte. Vida. Transformação. Profundidade. Introspecção. Exposta.
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