Thais Prado

A sutileza do esquecimento

"Eu preciso te esquecer" Essa é a única coisa que lembro de ouvir você dizer. Nada além disso me marcou tanto e nada além disso me transformou tanto. Desde então, cada segundo em que sua mente se livra de mim, a minha mente se livra de ti. Mas, para cada memória sua que eu esqueço, uma é guardada no meu subconsciente. Inatingível. Já não me lembro do seu jeito de caminhar ou da sua risada. Das suas mãos ou do seu nariz. Da cor dos seus cabelos ou do tom da sua pele. De todas as coisas que esqueci, a cor dos seus olhos foi a mais cruel delas.


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Você tinha os olhos verdes, não, espera... eles eram cinzas. Não, pretos, isso pretos! Você tinha os olhos negros como duas jabuticabas. Ou eles eram verdes como duas uvas verdes? Não sei, não consigo me lembrar, já faz tanto tempo... Seu cabelo era fino e loiro, ou ruivo... me lembro apenas que eles tinham um cheiro bom. Cheiro de dia fresco e menta.

Eu não consigo me lembrar das suas mãos ou do teu nariz, mas da minha mania de cheirar bochechas, consegui guardar para sempre o seu cheiro. Eu não me lembro se te disse, mas na bochecha é que todo mundo guarda seu cheiro verdadeiro.

Eu me lembro da tua voz que as vezes me chama e eu viro para trás lhe procurando na rua, mas nunca é você. Me lembro de nós cantando nossas músicas preferidas e você desafinando em cada nota longa demais. Já faz tanto tempo, mas eu ainda me lembro do seu beijo tímido e das suas mãos segurando forte minha cintura. Eu ainda sinto esse aperto.

Às vezes sonho contigo e acordo te procurando em todos os cantos, como não encontro começo a gritar e chorar desesperadamente até que alguém venha e me diga que fora apenas um sonho. Já não sei mais o que é sonho ou realidade, por vezes me sinto capaz de atravessar o mundo a pé e quando percebo que não posso, me encontro em alguma rua desconhecida da cidade. Ou então, dentro de um ônibus indo rumo a qualquer lugar. Em todas as vezes que me sinto capaz de atravessar continentes a pé, consigo me lembrar da cor dos teus olhos e é atrás deles que caminho. Quando os esqueço, perco também a linha de raciocínio.

Você não deve estar entendendo ou achando tudo exagero meu, acho que esqueci de lhe contar, mas, quando você se foi e me disse "eu preciso te esquecer" alguma coisa aqui dentro se quebrou. Depois de então, todas as 24h do dia, se tornaram angustiosos segundos onde minha mente repetia incansavelmente "será que ele já me esqueceu nesse segundo?". Todos os dias, todas as horas, todos os segundos eu lhe imaginava me esquecendo.

Não me lembro quanto tempo faz, mas depois do primeiro eterno mês, comecei a viver no automático e desde então, é assim que vivo. As coisas que me lembro são apenas as que minha mente resolveu guardar. Não me lembro das coisas que você me disse antes do "eu preciso te esquecer", não me lembro do teu sorriso ou do teu jeito de andar. Até anteontem me lembrava do teu nome, hoje não mais. A cada angustiante minuto das 24h desde o dia que você decidiu me esquecer, assim como tua mente me apaga de ti, a minha mente se esquece de você.

De todas as coisas que esqueci, você é a mais cruel de me livrar. Para cada informação sua que se desprende da minha mente, uma é mantida no meu subconsciente. Por vezes me esqueço dos seus olhos verdes como duas uvas verdes, mas quando me lembro é como se o vento me tocasse o rosto e me dissesse "você sempre se lembrará dele".


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