Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

a ode dos versos que esqueci de entoar

"Você vai me abandonar - repetiu sem som, a boca movendo-se muito perto do fone - e eu nada posso fazer para impedir." Caio Fernando Abreu


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Acendo um cigarro, com o isqueiro contra o vento – o toque amaciado das mãos frente ao âmago amargo da sinestesia poética da nicotina ao encontrar com os brônquios pulmonares que suga, por instantes, o oxigênio e suprem a ansiedade presente em adjunto ás ausências de um em multiplicação das massas entremeadas de um ar urgente dos poros ancorados de sua dor.

- Desculpe-me, mas estou em frangalhos. O tempo é escasso, os seus dilemas são demasiados grandes e, eu tenho que reservar dias desse calendário que come os dias – como uma fruta que apodrece em meio a outras saudáveis. Eu sou a fruta podre que atrai os fungos, eu tenho que ficar bem.

Acendo outro de palha, sento na varanda sem ventos. O avesso dos sóis são nuvens carregadas de tornados – é assim que me sinto por dentro. As válvulas ora entupidas ora sucumbidas pela miséria dos efeitos colaterais dos acontecimentos póstumos não deixam o ar circular. Há semioses momentâneas que volta e meia agita os poços escuros de um sentir tão amordaçado pela dor – dor que se dói como se morre, aos poucos, sem misericórdia – que se confunde com os signos turvos pouco ciosos de teus versos inundados pelo ego de uma servidão anunciada por teus sensores nervosos de mágoas causadas por sua insistência em ser erro.

- A ligação está ruim, aliás, péssima. Daqui vinte dias eu cruzo às águas oceânicas, deseje-me sorte. Depois, tudo irá ficar bem. Eu prometo.

Sou planta carnívora a procura de teus rastros pra saciar a fome – tudo é sobre você. O seu ego inflamado por congestões lineares de enredos fatídicos que soa a incêndios necessitados de calmaria. Bebo a tua dor como se fosse a minha e dou-me a você em uma generosidade doentia de que sem você irei enfartar de vez. Há pequenos orifícios que sangram em silêncio, há tanta coisa por dizer e muito já foi dito, eu sei. E, por dito ficou. Cada palavra, revirada ao avesso e no avesso se refaz em tons sonoros que se aproximam de uma forca inundada de incertezas a cortar a cabeça de quem muito escolheu ficar e partiu.

É tarde, quase noite. Uma xícara de café, bem amargo, e ascendo outro cigarro. As horas passam numa simbiose que o corpo não consegue acompanhar. Estou quase sempre cansada, é sempre melancolia em espirais de um silêncio sufocante de pronuncias engavetadas nas cordas vocais – eu podia, mas ainda sim, não seria o suficiente. Nenhuma palavra, nenhum vocábulo, nenhuma canção de Elis. O vôo era as dez, e as oito você se foi.

- Desculpa-me, eu te acordei? Você está com aquela voz manhosa de quem acabou de acordar. Eu conheço as suas diversas entonações, sinto muito por essa não ser uma manhã com um pouco de saudade de mim. Ainda não me acostumei com o fuso horário, esqueço-me dessa discrepância de horas. Eu preciso me reintegrar, sabe? Acho que fiz bem nessa ousadia de deixar tudo, cruzar o oceano e buscar novas feições. Eu tenho que desligar agora, a ligação custa um bocado de euros. Espero que você fique bem. Adeus.

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Uma voz, outra voz, cheia de cristais agudos, de uma luminosidade que os dias tropicais não traziam. Enlaçado por uma zona de penumbra de um corte profundo nas retinas viciadas de tons sobre tons que sombreava qualquer possibilidade fina de alegria – ele precisa de tempo, eu precisava dele. Eu fiquei com o que sobra de uma ligação numa madrugada qualquer – o silêncio. Sufocante, inundado de ausências. Afundo-me na ardência de aguardente na esperança que desça garganta adentro com sabor mais amargo do que essas doses nostálgicas de você.

O meu avesso é a tua própria sombra anestesiada por analgésicos que estancam, por uma linearidade limitada de tempo, a hemorragia interna dessas lesões contidas nas pequenas mortes diárias de você.

- O que você sente por mim?

- Não entendi.

- É uma pergunta simples.

- Não faz sentido.

- Nós não fazemos sentido.

- Eu sei.

A ligação caiu em meio aos nossos silêncios amargos entre uma pergunta e outra. Há uma interferência de uma incerteza concreta de um amanhã que se aproxima depois de dias longos, feito nuvem carregada de tornado. O seu all-star meio-sujo-manchado-de-tinta continua no pé da mesa da sala de jantar. Eu precisava acreditar nessa sua outra voz reluzente feito primavera depois de rigorosos invernos. Era só o que eu tinha. Uma voz sem oscilações, ou contornos de um ego inflamado. A sua dor exposta feito vaga-lume, meio a escuridão sem preces de uma melhora tardia, já estava se cicatrizando.

Engoli as palavras proibidas, e não gritei por socorro. Calei-me e, restaram essas pronuncias em rascunhos de um amor que era vida disfarçada pelas oscilações de certezas agudas que sugavam feito sanguessuga a minha voz prestes a dizer. Cai num rio cheio de crocodilos e lá fiquei paralisada – a espera que você viesse me salvar.

- Oi.

- Você vai me abandonar, não é?

tum-tum-tum


Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond. .
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