Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

aqueles dois

Ela é sobre os dois, ela é um pouco desse amor imenso e cansativo.


maxresdefault.jpg

Não no começo, no meio findo de um adeus póstumo, ela o via em meio a obsessões continuas de versos proseados em direção a cor escura da alma. Ele veio – ele sempre vinha, por dias e dias, incansavelmente. Ele, meio a seus borro de café meio amargo, estava lá e cá, perto – feito estilhaços de uma felicidade a se expirar dentro de uma pequenez entremeada entre extremidades nervosas de um corpo que se socorre meio as toxinas sépticas dos órgãos quase sem vida de um amor doente.

(ela é sobre os dois)

Ele quer ser memória enquanto ela se corta – dia e noite – e as feridas abertas não a deixa ver que ele é doença que se abre e se vinga nessas imperfeições dos encontros vocálicos que sentenciam cláusulas perdidas. Ela quer voltar e não consegue. E, essas indecisões cardíacas do real a padece que, aos miúdos, a suficiência se finda junto a esses vazios alheios de uma vinda não anunciada (talvez um voltasse, talvez o outro fosse).

Ela é o avesso desses sonetos antigos que proseia estórias de uma dor que não se amortece. Talvez algum partisse ou outro ficasse; talvez eles nunca mais se cruzem novamente, destino. Ele é um pouco destes lirismos descontentes de uma precisão mal interpretada de significações vazias que se esboça num querer incompreendido que logo se suicida.

(ela é um pouco desse amor imenso e cansativo)

Talvez, ela esteja morrendo agora – e, engasga meio aos seus soluços de um choro lento, descompassado e angustiante. A sua dor é consciente, ela sente cada nervo se contrair de cada impulso que a curva diante da sua falta de controle e, então ela espera pela próxima contração – a sua fraqueza também é a sua maior força. Antes, bem antes, ela não se lembra exatamente quando, havia o sólido que não se cortava e desabrochava em feições leves diferente dessa enfermidade que a consome e que a mantêm viva (o amor, ela não queria, deixar o amor, em hipótese alguma, ela não queria e, sem piedade aceitava a dor).

(o outro, muito antes desse cotidiano desesperador)

Ele era, antes do fim, a vida em meio a seus esgotamentos confusos de um real que sempre fora tão cinza. Ela sempre achou que o merecia depois de tanto se doar e, em poucas palavras, implorava para que ele não a deixasse de vez (e ele disse: você acabou). Ela se esconde dentro de sua própria fraqueza, ela achava que ele nunca iria a abandonar de vez e, escreveu dezenas de cartas que jamais enviaria e em cada linha cravava um pouco desse amor que não se finda em precisões.

Ela quer ser lembrada (ela não quer que ele se lembre do que não viveu com ela, mas ela sabe que agora ela é apenas memória num peito que não a quer em vida). Ele(s) são alicerces desmoronados de uma construção abandonada (ele(s) não existem, eles acabaram). Ele acabou antes dela ou ela acabou antes dele. Não importa. Ela é o avesso de sua própria doença depois daqueles dois, é a sua única certeza.


Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Isabela Boechat