Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

é pra você que eu escrevo

amarelo, marrom; sol, terra; depende do tom, da conexão; dos sintomas psicossomáticos empoeirados no ar


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O dia cinza, os teus rascunhos dissiparam feito nuvem carregada de um tornado, os pequenos borrados de você, aos poucos, tornaram-se ângulos paradoxais enferrujados – a solidez estancada no tempo faz lembrar o que não fomos. As tuas digitais cravadas, feito braile em papel A4, nos poros amarelados de minha pele acionam os meus axônios inundados por teu cheiro meio rústico. Os estímulos nervosos a se conectar a cada neurônio, a cada nervo séptico do meu corpo já retalhado pelo contágio da tua morbidez consoante em cada molécula de ar urgente para a minha existência.

A vasta extensão de tuas lagrimas salgadas cobre o terreno vazio amontoado de solidão e, faz-se oceano. Os nuances de sua voz, apaga-se, aos poucos, de minha memória coagulada dos nossos retalhos jogados nos cantos empoeirados da sala. O teu nome feito criptografia prestes a se apagar de vez nos vértices ancorados do meu corpo já em frangalhos de nossas feições mortas.

O tremor das mãos, o suor transparente nos poros da pele, o olhar amedrontado soa como sintomas físicos do vírus – você, mas o efeito endorfina passou, e seu sabor é amargo outra vez.

O vazio inundou as águas meio mortas acopladas na foz do teu rio quase sem vida. Os nossos retalhos incertos adiou o irremediável adeus - nós apostamos o amor onde só havia melancolia, o amor não bastou e se dissipou.

O vai-e-vem das nuvens, no céu que já não é mais anil, evidencia a multiplicidade vaga da passagem do tempo, vez ou outra surge partículas finas de melancolia no ar e dentro do peito uma urgência rasa de você que se remedia nas lembranças de seus vocábulos inundados de falácias.

O timbre da tua voz, já quase sem som, deixa imperceptível o som tão particular da minha ausência em você. O adeus soou como um acidente em alta velocidade e, você se enfartou liricamente de toda nossa sinestesia. Os erros de interpretação ocasionados pela tua falta de lucidez fez com que você não visse o nosso amor apodrecendo, como uma fruta em silêncio infectando todas que ousassem chegar perto.

O café esfriou, e o retrato do teu marrom se misturando com os tons amarelos de minha pele é uma vaga recordação no trânsito engarrafado de meus rascunhos borrados por tua presença inerte. Nós, a sós fomos muito e pouco. Nós, um bocado de quase. É quase nada, é quase tudo, dizia Neruda, e ficamos com o nada.

Eu tive que ir. O amor se estrepou do viaduto e morreu sem rimas, não passamos de ausências no calendário. Sem você, o ar não é mais tão pesado, a sanidade é presente, o sorriso é mais leve. Nós sabemos que nunca faltou amor, é que transbordou demais e virou neurose.


Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond. .
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