Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

Se podes olhar, vê. Se puderes ver, repara

além do que se vê – pessoas em situação de rua se multiplicam no centro da capital mineira e uma cegueira moral engessa e naturaliza o desumano, no vai e vem da banalização do cotidiano


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José Saramago, escritor português, em sua obra “O Ensaio sobre a Cegueira” disserta sobre a cegueira moral do comportamento humano que na vida em sociedade engessa os problemas e possui extrema dificuldade em conseguir enxergar além do superficial. As pessoas em situação de rua é uma realidade na sociedade e, como expõe o artigo 1° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, todos nós formamos uma comunidade humana e nascemos livres e iguais em dignidade e em direitos.

Entretanto, a realidade nas ruas é encarada sob uma ótica pouco solidaria. Aquelas pessoas que ali vivem, são vistas de forma marginalizada e outras vezes são encaradas como uma parte invisível da sociedade – as quais são isentas de cidadania e dignidade. No último censo estimativo da população de rua, realizado pela Prefeitura em parceria com a UFMG, em consonância com as diretrizes preconizadas pelo Decreto Federal 7.053/2009, foram identificadas 1.827 pessoas em situação de rua em Belo Horizonte – o dado sinaliza a carência efetiva de políticas sociais por parte do órgão público, que oferece medidas assistencialistas que funcionam mais como manutenção da situação do que para o fim da condição de rua destas pessoas.

Saramago dizia que há um horror vivenciado, mas não visto – e essa situação deixa em evidência a naturalização dos males da convivência humana que ocasiona a superficialidade de ações e de percebimento da mazela pública exposta nas ruas da capital mineira – e de todo país -, tão urgente e necessária para uma condição digna e cidadã como ser humano que se ausenta a essas pessoas.

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Ao todo, na capital mineira, são 1.120 vagas diárias em todos os abrigos, somados a 22 casas/cômodos disponíveis – número insuficiente se considerarmos o dado estimativo de pessoas em situação de rua, realizado em 2013. É necessário romper com o caráter provisório proposto pelas ações municipais do órgão público e centralizar na construção de programas de moradia, trabalho, infraestrutura urbana somada aos serviços públicos acessíveis à população. A Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, realiza a campanha “Chega de Omissão! Queremos habitação! – Moradia definitiva para as pessoas que vivem na rua” propõe a mudança e a mobilização social para a capitalização de conceitos, e a construção de propostas que mude essa situação.

Ninguém está na rua porque quer ou por opção – 52,2% das pessoas que estão em situação de rua são decorrentes de problemas familiares; 43,9% por uso excessivo de álcool; 36,5% por falta de moradia; 36% por falta de trabalho; entre outras motivações.

Sendo assim, a moradia, o trabalho e a assistência social dessas pessoas seriam ferramentas fundamentais para a inserção social dessa população em situação de rua. Na visita a um dos abrigos da capital mineira, encontro Marcelino Silva, que exclamou por diversas vezes a sua revolta com o órgão público e a carência de medidas efetivas que ajudem essa população a mudar a sua situação social. Segundo ele, a instituição não o apóia na busca de uma vida digna e disse que ele possui ferramentas, mas falta a engrenagem para ajudá-lo. Marcelino já trabalhou como garçom e barman. Está na rua há um ano e quatro meses e precisa de um tratamento dentário para voltar a procurar emprego na área de hotelaria – Marcelino possui sete certificados na área.

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Ademais, 82,2% dessas pessoas são alfabetizadas e 47,2% dessas pessoas abandonam a sua cidade natal em busca de emprego na capital – e acabam nas ruas por falta de oportunidade.

Segundo o órgão municipal, há políticas inseridas nos centros de recreação que oferecem assistência e cursos profissionalizantes a essas pessoas. Marcelo Henrique está nas ruas há um ano e afirmou que nunca ofereceram atividades e nem cursos a ele. Disse em tom de revolta que nos abrigos “é cada um por si e Deus por todos”.

“Se podes olhar vê. Se podes ver, repara” – os diretos negados a uma parcela da população são direitos negados a todos. A sociedade necessita de um olhar uno sobre o todo. Não temos que ver um problema somente quando ele nos afeta e sim olhar todos os problemas que cercam a sociedade e lutar por ações efetivas para que todos tenham cidadania plena na vida em sociedade e condições mínimas de uma vida saudável e digna. Saramago diz que o medo cega e a indiferença também – a opacidade do humano ao olhar para a situação das pessoas em situação de rua é desumana e instala a naturalização de uma cegueira moral, engessada pelas práticas culturais na vida em sociedade.

“Hoje sou eu, amanhã pode ser você”, uma das frases da campanha da Pastoral da Rua e que é base reflexiva para se atentar para a situação tão precária dessas pessoas que são cidadãos de direitos como qualquer um que não esta ali – vivenciando os horrores e os medos da vida nas ruas das grandes cidades do país.

*Os dados são da Assessoria de Comunicação da Secretária Adjunta de Assistência Social de Belo Horizonte.

* As fotos contidas aqui são da Pastoral da Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte.

Segue abaixo crônica de Luciano Carielo, sobre pessoas em situação de rua:

Invisível

Marcelina descobriu seus poderes na rua. Depois de um tempo, era a única coisa que lhe restava:a invisibilidade. Ninguém a via. Ninguém olhava para ela. Ninguém notava sua presença – ou sua falta.

No início ficou confusa. Testava sua habilidade entrando em lojas, farmácias, restaurantes: era imediatamente enxotada. Com as experiências, entendeu que seus poderes só funcionavam na rua. Algumas pessoas chegavam a tropeçar em seu corpo e, sem entender, seguiam adiante. Ela não se incomodava com isso. Tinha medo dos homens, era bom que ninguém a descobrisse mesmo.

Mas havia um detalhe: ela podia ser vista pelos animais. Pássaros, pombos, gatos, cachorros a adoravam! Outros também vinham até ela, embora ela não gostasse desses amigos inconvenientes. Certa vez, uma ratazana, que mais parecia um gato, tal seu tamanho, cismou de tentar comer o resto de mortadela que Marcelina escondia dentro de uma caixa de papelão – sua improvisada “geladeira”. Olhou fixamente para a ratazana e ameaçou lhe dar um chute, mas o bicho veio em sua direção. Ela teve que tomar uma medida drástica: mudou-se daquela calçada para sempre!

“Há males que vêm para bem”, pensou ela, quando encontrou um cãozinho perdido pelas ruas do centro de Belo Horizonte. Ele gostou da companhia e eles se tornaram inseparáveis. Deu-lhe o nome de Tuca. Agora ela não se preocupava à noite. Ninguém lhe faria mal, com o amigo do lado. Nem as ratazanas.

Realmente,tudo melhorou com a chegada do cãozinho. As pessoas ainda não a enxergavam, mas Tuca chamava a atenção. A dona do restaurante mais próximo, por exemplo, gostava de cachorros e, diariamente, dava a ele água e comida. Tuca era inteligente. Sempre levava o alimento para dividir com Marcelina. Com o tempo, talvez pela presença de Tuca, Marcelina percebeu que sua invisibilidade estava falhando. Algumas pessoas, vez ou outra, entregavam-lhe dinheiro, agasalho, cobertor... Ela achava que era por pena de seu amigo. Também poderia ser a velhice. Será? Sentia o peso dos anos, embora não soubesse exatamente sua idade. “Cinquenta e poucos”, disse em voz alta. “Acho que é isso”. Já tinha perdido a conta dos anos em que vivia nas ruas. Estava cansada. É, poderia ser a idade.

Viu que seus poderes estavam no fim quando um grupo de pessoas uniformizadas tentou levá-la para um abrigo. Eles pareciam confiáveis e, de início, ela gostou da ideia. Não sabia o que era dormir em uma cama há muito tempo.

— Vem, Tuca.

— O cachorro não! Só a senhora.

— Ele mora comigo. É meu amigo.

— Infelizmente ele tem que ficar aí. Vamos. — Então não vou! Não vou de jeito nenhum!

O homem de uniforme ainda tentou convencê-la. Pegou-lhe pelo braço. Ela gritou e Tuca não pensou duas vezes: avançou na direção do agressor de sua amiga. Finalmente eles foram embora. Da janela da Kombi, o homem ainda gritou:

— Então fica aí na rua, sua velha maluca!

Aquela noite foi difícil. Pela primeira vez, Marcelina teve medo verdadeiramente. Sem seus poderes, a vida seria cada vez mais difícil. Vendo a preocupação da amiga, Tuca deu-lhe uma série de lambidas no rosto, até ela sorrir novamente. Dormiram abraçados, sonhando com uma mesa cheia de sanduíches de mortadela.

Infelizmente, para ela, sua preocupação tinha razão de ser. A invisibilidade já não funcionava como antes. O inverno dessa vez era rigoroso, como há muito não se via. Outras pessoas dividiam a calçada com ela e seu amigo. Ela sentia-se cada vez mais cansada.

Seus poderes se dissipavam, até que se foram de vez. Uma tarde, funcionários da prefeitura se aproximaram, dedo em riste, palavras grosseiras, ameaçadoras. Tiraram-lhe quase tudo. Sua casinha de papelão, umresto de colchão, seu cobertor. Sobrou-lhe a roupa do corpo. E o cãozinho.

As lágrimas desceram. E o seu silêncio cresceu. Pensou que era melhor ter continuado invisível, pelo menos teria onde se deitar, o cobertor para se aquecer.

A noite chegou tão fria quanto os funcionários da prefeitura. Seu corpo murchava a cada rajada de vento. E tremia, ah, como tremia! Tuca, deitado a seus pés, gemia baixinho. Naquela noite, o centro de Belo Horizonte foi tomado pelo silêncio. Ninguém saiu às ruas. Ninguém notou Marcelina. Tuca já não gemia. E ela enfim descansou.

Luciano Carielo Lima é licenciado em Letras pela PUC Minas e Graduando em Comunicação Social (Jornalismo) pela UFMG. Adora escrever, principalmente crônicas e poemas, e publica seus textos diariamente no Instagram (@lucianocarielo) e na página Poesia em Pílulas e Textos Comprimidos, no Facebook.


Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond. .
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