Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

todo carnaval tem seu fim

Sem reticências, a brevidade esgota-se nos miúdos dilacerantes dos dias contados a se expirar; as marchinhas de carnaval abrem alas para solidão com gosto de mel meio azedo, bem conhecido pelas entranhas do coração.


IMG-20160210-WA0011.jpgLara Alves Fotografia

Abre aspas. Perdi-me em tantos pesares, em uma agonia pulsante, em frágeis promessas de um sorriso teu que és tão ausente. Nós em um quase romance sem verbos de uma ação cansada, de uma canção tão cinza que é quase sem tom. O teu cheiro meio tóxico traz sonetos de uma poesia esquecida dentro dos ponteiros do relógio que de tão obsoleto parou de marcar as horas. Augusto tu és esse reino prestes a desmoronar – a ruína certa sem alicerce qualquer. Nos ossos ancorados, nas veias pulsantes, o teu gosto tornou-se oscilações tão finas que secou as lágrimas e lapidou incertezas que certa hora o badalar do relógio vinha com os teus tons empoçados das brevidades de tua vinda. Fecha aspas.

O riso consentido dos foliões avista os tais amores breves (deixa-me brincar de ser feliz, deixa-me pintar o meu nariz). E, abre alas, e deixe que os poços meio escuros dessa realidade pulsante fiquem um pouco suspensas no tempo, e aventurar-se, sem Augusto, nessa sintonia tão intensa de tons tão vibrantes – que cabem dentro dessa efemeridade rasa que passa feito raio a combinar com essa mania de folião de encontrar-se e perder-se.

Pobre, pobre, pobre – essa falsa poesia que dói às vísceras num disfarce enquadrado de ímpetos encontros tão causais, tão carnavalescos. Logo avisto de longe esses tais olhares incumbidos de saliências e dessas tais querências breves que se expiram numa data sem prosas de convencimento, pois todo carnaval tem seu fim e com ele se vai todos os amores póstumos.

IMG-20160210-WA0013.jpgLara Alves Fotografia

É o fim, ou quase. Não era Augusto. Sem aspas. Não era. Era cilada de um folião qualquer a brincar de amar. Amores tão fugazes quanto às emoções do momento. E não á aquela inocência apaixonada – o ritmo malicioso cabe dentro dos flertes, dos olhares repletos de Eros, de desejos que ora sucumbidos pela presença, esgota-se e é o fim.

Abre aspas. O avesso, do avesso, do meu avesso é tão Augusto às vezes. Olho pra avenida e ele não está lá. Não está. Amor é urgência de um agora remediável com flores no jardim. O carnaval é um buquê cheio de flores mortas. A beleza dos verbos carnavalescos não tem alicerce e, por isso, perdura tão pouco. Augusto é este verbo faltar, ele não está na avenida. Não está. Fecha aspas.

Corre o tempo, e corre atrás de um bloco e, logo, em outro. De bloco em bloco, lá está ela, a solidão. O efeito colateral é um mortífero sem assiduidade. Os olhares meio perdidos não possuem a profundidade de Augusto. Augusto é aquela majestade venerável de um sentir tão escravo. Não há aspas, sem ironias e destaques. Augusto me fez escrava de um sentir tão uno que não há folia de um extinguir de dor.

Abre aspas. Os abraços de Augusto é a precisão dos meus dias ausentes de folia. Ele é o meu ensaio de bateria, que faz vibrar cada molécula pulsante do meu corpo em frangalhos, encobertos de uma falsa alegria. Augusto bate dentro do peito, feito pandeiro, feito essa poesia desse tal de carnaval, mas Augusto não se expira, ele é sempre vida. É o meu eterno quase amor. Fecha aspas.

Na avenida não encontrei o meu amor – eu dei de cara com os meus próprios silêncios, dos meus verbetes turvos de uma certeza que morava em algum lugar aqui dentro. A banda passou e os gracejos também. O carnaval é uno, e eu procurava o meu par.


Isabela Boechat

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond. .
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