j. domingues

Velejando no imenso oceano da vida.

José Domingues

Designer Gráfico por profissão. Ilustrador por vocação. Escritor por paixão pura!

Ei! Você ainda pensa?

Nosso grito ainda pode ser escutado, porém, as palavras ouvidas já não surtem efeitos. O cérebro das pessoas deixou de ser parte integrante do corpo humano, agora não passa de um aplicativo conectado ao gigantesco mundo virtual.


chapeleiro.jpg "O Chapeleiro Maluco" - Rafael do Carmo

Escândalos, Terrorismo, Racismo, Fascismo, Homofobia, Fome, Guerras, Instabilidade Climática (não perderei tempo enumerando tantos problemas que o mundo enfrenta atualmente...).

Uma dança está sendo coreografada e, infelizmente, estamos entrando no ritmo, onde a música é regida na mídia, com o jornalismo sem escrúpulos, gerenciado pelos interesses de uns poucos que distorcem a realidade e manipulam o modo de pensar da população. Enquanto isso, os passos da dança são coordenados pelas novelas e programas de entretenimento, que se autodenominam “Cultura”, criando revoluções e modismos na sociedade com fins capitalistas. Dessa forma, todos participam, sambando, cantando, gingando, rebolando-se, saltitando e, autorretratando-se nessa festa medíocre com o auxílio de um pau de selfie.

Uma nova educação está em vigor e, infelizmente, não é a Educação vinda da escola, pois, enquanto os professores tentam, incansavelmente, transmitir a sabedoria que seus alunos tanto necessitam para atingir seus objetivos na vida, os meios de comunicações, por outro lado, ensinam uma nova disciplina, cujas matérias são: crítica abusiva, invasão de privacidade, desrespeito ao próximo, calúnia, homofobia, fascismo, racismo (a lista apenas aumenta...) e, tudo isso sem a necessidade de salas de aulas, cadernos ou mestres. No dia-a-dia, a cada minuto ou segundo, essa nova educação vem sendo ministrada por meio da Internet e seus tentáculos: as Redes Sociais.

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“Na primeira noite eles se aproximam 
e roubam uma flor
 do nosso jardim.
 E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.” – Assim, nossos lares são invadidos, todos os dias e, sob nosso nariz, destroem os valores que compõem a família e a ingenuidade de nossas crianças, como descrito no poema de Maiakóvski...

E não podemos dizer ou fazer mais nada, os valores estão aglutinados de tal maneira que, qualquer palavra que confronte com a situação, atua como um detonador, provocando explosões de iras e conflitos generalizados. Perdemos o direito de ter uma visão distinta da maioria, pois, pensar diferente passou a ser proibido e repudiável.

Alguns poucos que se pronunciam, pondo-se numa posição pessoal e legítima, dentro de seus conceitos, passam a ser apedrejados diante de todos, numa escala global, nunca antes vista. Até os valores espirituais, independente de religião se aproximam, cada vez mais, do extremismo.

Em vez de livros, temos celulares ou smartphones, inseparáveis e, praticamente, uma extensão do usuário, pois, sua vida pessoal, profissional ou, até mesmo a própria alma parecem residir no pequeno aparelho. E assim a humanidade caminha, sem a noção do que é certo ou errado, pois, não existem mais referências reais em que se apoiar.

Os ídolos e os heróis, formados pela meritocracia já não existem mais. Hoje, qualquer um que se exceder em alguma particularidade que destoe da maioria e chame atenção, logo ganhará uma coroa e terá seu lugar no trono do bobo da corte, onde dará seu espetáculo enquanto outro tolo não tome seu lugar no circo.

O número de likes, curtidas e compartilhamentos, dissemina, em milésimos de segundos, a “novidade” do momento, nos cérebros acoplados nos aplicativos, tal qual uma realidade saída de um filme dos irmãos Andy e Lana Wachowski (Matrix). E assim surge o advento da inteligência artificial, que responde por nossos sentidos, tão pouco utilizados!

O amor, a amizade, a interação do olho no olho, o cheiro e o toque estão dando lugar para os bate-papos solitários e frios, onde as palavras bonitas não passam de posts e compartilhamentos ocasionais, onde os autores são apenas fantasmas de um tempo que não condiz mais com a atualidade.

Tudo isso me lembra o conflito vivido pelo vampiro Adam, personagem do filme “Amantes Eternos” (Only loves Left Alive – Jim Jarmusch) que, na sua imortalidade, vivenciou as descobertas maravilhosas do meio científico e cultural e, conviveu com seus heróis mais ilustres (Newton, Darwin, Einstein, Lord Byron, Shakespeare, Shelley etc.) sorvendo o melhor da música, poesia e arte daqueles tempos.

onlylovers.jpg Tom Hiddleston como Adam, “Amantes Eternos” (Only loves Left Alive)

Como Adam, me sinto fatigado e, quase incapaz de reagir às mudanças que ocorrem nos tempos atuais, pois acontecem numa velocidade que não nos permite senti-las, para que, naturalmente, possamos nos adaptar. Porém, diferente de Adam, ainda alimento esperanças em mudanças, embora pequenas, mas, que acenda uma pequena centelha de luz nesse mundo tão sombrio e caótico.


José Domingues

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