janela indiscreta

Uma fresta para observar o que se passa do lado de dentro

Murillo Pena

Nascido em Indaiatuba, interior de SP, mora em São Paulo há mais de 6 anos. Trabalha na área de TI para pagar o aluguel e a coxinha no Veloso. Encara como um desafio estimulante a arte de transcrever em palavras o que vai na cabeça e no coração.

Condição para Amar

Para aqueles que pensam em morar junto ou que já embarcaram nessa, entender como funciona a reciprocidade pode ser a chave para saber se a coisa vai ou racha.


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Ah, aquela fase em que a gente gosta tanto que não consegue parar de pensar em dormir junto, acordar junto, tomar café da manhã junto todos os dias… Com uma frequência maior do que só no final de semana minguado, que quando acaba deixa gostinho de “quero mais”. Aquele momento em que a gente está a um passo de tomar a única decisão que parece ser a solução definitiva para se atingir a plenitude na vida a dois.

Principalmente para aqueles casais de namorados que moram em cidades diferentes ou em bairros distantes de megalópoles como São Paulo, e fazem malabarismos para se verem e curtirem juntos o final de semana (e realmente curtem), parece que a idéia de morar junto tem tudo para dar certo.

Mas será que antes de começar a mexer os pauzinhos para transformar essa ideia em realidade não vale a pena uma análise mais criteriosa para saber se os dois estão na mesma sintonia em relação à importância dessa decisão? Sim, porque estamos falando de casamento, independente se vai rolar cerimônia religiosa, padrinhos, festa, cartório, ou nada disso. Mesmo que seja apenas um test-drive por um tempo, o fato de morar junto caracteriza a prática diária do que chamamos de casamento.

E quais são os pré-requisitos? Na minha opinião, uma palavra resume bem o ingrediente principal para o sucesso da receita: Reciprocidade! “Credo, não tinha algo mais fácil e intuitivo? Achei que você ia dizer Amor!” Mas reciprocidade é fácil de entender e mais efetivo. Nada mais é do que gostar da companhia do outro na mesma medida em que o outro gosta da sua companhia, é desejar e ser desejado na mesma proporção. É sentir saudade de alguém e saber que, ao mesmo tempo, esse alguém sente falta da gente.

Como exemplo prático, reciprocidade é estar disposto a mudar de emprego ou de cidade para transformar em realidade a ideia de morar junto, e sentir que o outro também faria isso se fosse preciso. É pensar juntos no apartamento comprado na planta e perceber que o outro tá tão empolgado quanto você para escolher os móveis, definir a cor das paredes, pensar a melhor posição da TV no quarto, decidir se no chão vai porcelanato ou laminado.

Sem reciprocidade nesse nível, a coisa pode até começar bem. Mas dificilmente vai ser pleno para os dois a longo prazo. Quando a gente cede muito e muda a vida para viver com alguém, se não há reciprocidade, a chance é alta de que o outro não valorize o nosso esforço. E pior que nem faz isso por mal. Ora, se não há reciprocidade, simplesmente não existe uma identificação pessoal do outro com as razões que motivaram o nosso esforço. Pois a pessoa não faria o mesmo por nós. Então, como podemos exigir que o outro valorize aquilo que não seria capaz de fazer por iniciativa própria?

Difícil é gerenciar a frustração que nasce dessa falta de reciprocidade entre um casal. E essa frustração traz em sua esteira a carência, que gera cobranças, que alimenta o ressentimento mútuo. Pronto! Tá feito o contexto para o caldo entornar de vez! Ninguém gosta de cobrar o outro por atitudes que deveriam ser naturais e espontâneas num relacionamento feliz. A cobrança do lado “carente” é interpretada pelo outro como intolerância, desequilíbrio, egoísmo. E nessa, o amor, que deveria ser fonte dinâmica de crescimento, não sente vontade de se expressar, e fica escondido.

Assim, a vida a dois, que deveria começar feliz e excitante, já começa meio capenga. Pois logo que começam a morar juntos, ambos enfrentam novas situações de risco para a alegria do casal: chegar cansado depois do trabalho, a preguiça de cozinhar, a louça para lavar, a roupa para estender, as contas para pagar. Acontece que, sem reciprocidade, o que é importante para um pode não ser importante para o outro. E ambos começam a direcionar energias para prioridades diferentes. Daí, o que deveria ser apenas um risco gerenciável para o casal, como por exemplo, um happy hour com a galera do trabalho, para o outro pode ser uma oportunidade de mudança.

Então, mesmo para aqueles que já juntaram as escovas de dentes, vale a reflexão: Como anda a reciprocidade no relacionamento conjugal? A ideia é conversar, alinhar intenções e expectativas, expor frustrações. É muito complicado magoar alguém com quem já existe um histórico de convivência, mas não existe outro jeito se queremos jogar limpo e ser sinceros conosco e com o outro. É conversando que a gente se entende, mesmo que, nesse caso, entender o outro possa significar descobrir algo desagradável que a gente já desconfia com o coração mas insiste em esconder da razão.

Embora possa existir carinho e admiração numa relação sem reciprocidade, jamais vai existir reciprocidade sem verdadeiro amor.


Murillo Pena

Nascido em Indaiatuba, interior de SP, mora em São Paulo há mais de 6 anos. Trabalha na área de TI para pagar o aluguel e a coxinha no Veloso. Encara como um desafio estimulante a arte de transcrever em palavras o que vai na cabeça e no coração..
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