janenitro esporádica invisibilidade

Histórias, memórias e insanidades que brincam de sumir e aparecer.

Geovana Martelo

Pessoa orientada pelo vento e pela maré. Sonha em pescar bacalhau na Noruega. Escreve como passatempo até chegar o grande dia.

Exagerar é mentir. Do discernimento em A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo

Imagine uma pessoa que imersa na era da informação não enxergasse um palmo à sua frente no sentido crítico do termo enxergar? Não conseguisse chegar às suas próprias conclusões, emitir opiniões sem que alguma outra pessoa a conduzisse? Este é o caso de Simplício, personagem da história que iremos analisar. Apesar de não ter vivido num mundo como o nosso, onde informações nos bombardeiam por todos os lados, ele se sentia perdido diante do panorama social e político do Século XIX, durante o Brasil imperial. Ainda que portador de uma ampla cegueira, Simplício não se enganava e reconhecia os limites dos seus julgamentos, ele era um inseguro. Vejamos a interessante solução narrativa oferecida por Joaquim Manuel de Macedo a fim de realizar uma curiosa reflexão acerca dos nossos julgamentos morais influenciados tendenciosamente pelos sentidos.


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O alcance das informações atinge hoje proporções nunca antes imaginadas. Vivemos na era da informação, associada ao fácil e vasto acesso a notícias, fatos e dados. Além disso, transitamos por ambientes hiper conectados, neste contexto, todos desejam externar suas opiniões repletas de certezas e máximas transvestidas de lições e verdades. Opinar parece sinônimo de afirmação da identidade e participação. Julgam-se políticos, artistas, anônimos e todos aqueles que se expõem na grande rede, brotando, desta maneira, inúmeros especialistas em política, ética, direitos humanos, psicologia. Parece não haver dúvidas, apenas verdades ululantes e um ínfimo espaço para as incertezas. A realidade apreendida por nossos sentidos parece-nos infalível. Carregando o sentimento de centro ambulante da humanidade, raramente duvidamos daquilo que percebemos e tomamos como verdade. O que tudo isso tem a ver com uma obra do romantismo brasileiro do Século XIX?

Vejamos! Nos transportando para o Rio de Janeiro, século XIX, Joaquim Manoel de Macedo, escritor famoso pelo folhetim romântico A moreninha, criou um personagem muito diferente dos sujeitos do nosso século, um personagem míope e consciente de sua cegueira. No livro A luneta mágica, Simplício, o protagonista, introduz sua história admitindo a coincidência simbólica entre seu nome e sua medíocre condição perceptiva. Ele admite que sua miopia é de uma qualidade dupla: física e moral. A física, conhecida por todos nós que usamos óculos ou lunetas - como os óculos eram chamados no passado - e moral, já que se declara "sempre escravo das idéias dos outros, porque nunca pode ajustar duas idéias minhas [suas]” (p.7). Ao admitir a miopia moral, Simplício manifesta para o leitor uma sinceridade e autoconsciência muito desenvolvida, uma vez que poderia apenas negar suas limitações camuflando-as com opiniões atiradas aleatoriamente. Entretanto, não podemos nos esquecer que se trata de uma obra do período romântico e como tal apresenta um protagonista idealizado e elevado moralmente, apesar de suas desafortunadas tentativas de resolver o problema da visão moral.

1. Das perspectivas.

Um interessante livro do economista e sociólogo Eduardo Gianetti apresenta um estudo sobre o auto-engano e suas facetas. Quando entrava em contato com as idéias de Gianetti, muito me lembrava de Simplício, pois a questão da percepção é basilar para o sofrimento desta personagem diante da vida. Levando para o lado fantasioso da literatura, se Simplício lesse o livro de Gianetti provavelmente não necessitaria das lunetas oferecidas pelo Armênio, antes se conformaria ou se adaptaria à cegueira física e moral. Esta alternativa foi-lhe sugerida, inclusive, por seu irmão Américo que o incentivava a ver o lado bom de sua cegueira, pois assim não invejaria a posição que um alto cargo político, como o de ministro, por exemplo. Já sua tia Domingas e prima Anica eram dedicadas à caridade e à religiosidade, diante da visão aparentemente ingênua de Simplício, ele sempre elogia a necessidade de ambas em fazerem o bem principalmente para os de sua casa e a despretensão demonstrada por elas. No entanto, perceberemos que as impressões iniciais da personagem são irônicas. O que insere na obra o mote do engano. O engano, segundo Gianetti, “é um tipo particular de relação entre dois seres vivos – uma interação na qual a morfologia e/ou o comportamento de um deles resulta em discrepância entre realidade e aparência que deturpa as percepções e modifica a ação dos outros.”(p.31) O engano é portanto inerente ao ser humano, uma vez que o que captamos está diretamente ligado aos nossos sentidos, ao que nossas categorias mentais nos permitem pensar e no foco de nossa curiosidade. Conhecer o outro é uma tentativa de conhecer a nós mesmos. As lunetas mágicas de Simplício são um exemplo deste movimento de mão dupla.

2. Como as lentes nos refletem para o mundo?

Quando convocado a emitir suas considerações num júri, Símplicio se vê confuso na iminência em emitir um julgamento e acaba encontrando um senhor que o levará a um homem chamado Reis. Este desenvolve materiais óticos de ampla visão. Por meio de Reis, Simplício conhece o Armênio, um estrangeiro que constrói lunetas mágicas. Este Armênio fará três lunetas para Simplício e cada uma delas refletirá a imagem das pessoas de uma maneira especial e este reflexo muito revelará sobre ele mesmo.

3. A visão do Mal

A primeira luneta fabricada por meio dos poderes mágicos do Armênio eliminava da visão de Simplício toda ingenuidade. O Armênio aconselhou-o a não fixar o olhar com esta luneta por mais de três minutos em qualquer objeto ou pessoa, pois caso isto fizesse seria lhe revelado a visão do mal. Simplício engana-se ao se auto-convencer que a visão do mal seria proveitosa ao homem para livrá-lo dos perigos. Fixando seu olhar nas pessoas, fenômenos da natureza, transforma-se em uma pessoa muito amarga e intragável a todos. Ele chega à conclusão de que precisaria enganar as pessoas, dissimulando a respeito daquilo que de fato sabia delas. Torna-se um homem só, pois a tal luneta faz com que abomine todas as pessoas que antes amava. Não consegue dissimular e acaba como doente em uma casa de repouso. A visão de um lado único e negativo de tudo, o leva a total infelicidade. Sabendo estar numa situação irreversível, surge o desejo de descobrir qual será o seu futuro. O próprio Armênio havia lhe recomendado não utilizar esta possibilidade da luneta em ver o futuro, fixando-a por mais de treze minutos. Sabia, porém, que caso fizesse isso, a luneta se quebraria. O desejo foi impetuoso e o protagonista sucumbiu à visão do futuro. Viu a si mesmo, viu sua maldade, as calunias que proferia, desprezou-se por toda sua torpeza e a luneta se quebrou. Citando Gianneti: “O conhecer modifica o conhecido. Todas as nossas experiências passadas e a imagem que temos de nós mesmos são construções provisórias, sujeitas a revisões mais ou menos drásticas de acordo com o caráter do que vamos descobrindo e vivenciando ao longo de nossa trajetória pessoal.” (p.52) Para Simplício este conhecimento sombrio de si mesmo e dos outros se tornou insustentável, quase o levando à loucura.

4. A visão do Bem

Novamente, Simplício recorre ao Armênio, desta vez, conseguindo uma luneta mágica diferente da outra, esta além da visão aparente, como a outra proporcionava, tornava possível a visão do bem. O mago recomendou que Simplício não usasse a magia da visão do bem, pois os danos poderiam ser grandes. Mas obviamente o homem acabou cedendo ao desejo, afinal, “Que mal pode vir do bem?” (p.107) Entretanto, a visão do bem lhe trás inúmeros infortúnios: esbanja dinheiro, apaixona-se por várias mulheres, cerca-se de amigos falsos, perde todo seu dinheiro e cai novamente na mesma melancolia e desespero. Imerso em grande descrença em relação à vida, resolve usar a visão da luneta para ver o futuro durante uma procissão fúnebre, o que viu levou-o a enxergar vários lugares do Rio de Janeiro como abismos propícios ao suicídio. Decide então aliviar seu sofrimento subindo ao corcovado e, usando a luneta do bem, fica deslumbrado com a grandiosidade do Rio de Janeiro diante de sua pequenez. Decide então se jogar do alto do corcovado. No entanto, o Armênio aparece subitamente, salvando-lhe.

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Ilustração:Eduardo Schloesser

5. Exagerar é mentir!

Como um clássico romântico, a obra não poderia terminar sem uma lição moral. O Armênio explica a Simplício que “A exageração degenera os sentimentos, desvirtua os fatos e desfigura a verdade.” (p.160) O sábio ensina a Simplício a importância da ponderação, dizendo: “A imperfeição e a contingência da humanidade são as únicas idéias que podem fundamentar um juízo certo sobre todos os homens. Fora desta regra não se pode formar sobre dois homens o mesmo juízo. Cada qual é o que é; cada qual tem as suas qualidades, e seus defeitos.” (p. 162) O Armênio mostra que Simplício errou ao acreditar sem duvidar tanto no mal quanto no bem, o que ele chamou de exclusivismo, o exclusivismo de acreditar no absoluto do homem, portanto errando pela exageração.

6. A luneta do bom senso

Simplício não termina esta história cego. Pelo contrário, além das lições que concederam acuidade ao seu olhar simbólico, ainda foi agraciado pela luneta do bom senso. Esta luneta deveria ser mantida em total sigilo e ajudaria o protagonista a continuar regulando as suas faculdades de juízo. Gianetti nos lembra apropriadamente as duas inscrições lapidares do templo de Apolo em Delfos: "conheça-se a si mesmo" e "Nada em excesso".(p.62) Tais máximas interligam-se, pois o homem que conhece a si mesmo reconhece os próprios limites e não extrapola a sua condição. A consciência nos permite ponderação, pois o consciente teme. Além disso, aquele que consegue examinar seus próprios desejos e distanciar-se dele, reduz o risco de que venham tiranizar a sua mente ou conquistar um poder exagerado de sobre suas ações. (P.63) Pensando em nossa performance no mundo da informação e nas posturas de certezas polarizadas que presenciamos por aí, mesmo sem lunetas mágicas, nos aproximamos muito de Simplício. O que esperamos é que algum elemento "Armênio" nos desperte para o bom senso.

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Ilustração:Eduardo Schloesser

Referências Bibliográficas: MACEDO. Joaquim Manuel de, A LUNETA MÁGICA: 1990. 6ªed. Ática, S.P. GIANNETTI. Eduardo, Auto-Engano: 2005. Companhia das Letras, S.P.


Geovana Martelo

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