janenitro esporádica invisibilidade

Histórias, memórias e insanidades que brincam de sumir e aparecer.

Geovana Martelo

Pessoa orientada pelo vento e pela maré. Sonha em pescar bacalhau na Noruega. Escreve como passatempo até chegar o grande dia.

Baco Exu do Blues: a trilha sonora de um herói percorrendo o caminho do meio

Baco Exu do Blues já apresenta no nome o legado de duas divindades distintas, mas igualmente basilares para a cultural brasileira. Esse nome antecipa rimas de fôlego que são como sopradas pelas musas gregas e pelos Orixás africanos. O sincretismo do raper baiano Diogo Moncorvo que se denomina Baco Exu do Blues é um elemento marcante em cada faixa do seu álbum “Esú”, de 2017.


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Baco Exu do Blues já apresenta no nome o legado de duas divindades distintas, mas igualmente basilares para a cultural brasileira. Esse nome antecipa rimas de fôlego que são como sopradas pelas musas gregas e pelos Orixás africanos. O sincretismo do raper baiano Diogo Moncorvo que se denomina Baco Exu do Blues é um elemento marcante em cada faixa do seu álbum “Esú”, de 2017.

Se por um lado, a musa poética, prejudicada pelo contexto contemporâneo prevalecentemente denotativo, parece ter perdido o fôlego na difusão da poesia tradicional. Por outro lado, o Rap, manifestação artística do gueto e que apesar de ser cunhado como poesia, ainda sofre resistência de aceitação nos meios acadêmicos, apropriou-se de uma veia poética agressiva e visceral que por vezes descongela as nossas sensibilidades. Essas sensações se reverberam em cada faixa do álbum Esú, de Baco Exu do Blues.

Uma espécie de jornada do herói é contextualizada logo na Intro: uma narração de Paulo Roberto, retirada do Álbum Obulayê (1957), da Orquestra Afro-Brasileira. Em seguida, Baco lança sua narrativa por esse caminho de homem que se transfigura em metade homem e metade divindade rumo a uma jornada pelo caminho do meio. Um caminho dicotômico quando canta:

“Somos argila do divino mangue/Suor e sangue/Carne e agonia.”

Uma estrada tão dúbia quanto a relação homem e deidade. Não é para menos que nesta primeira faixa, Abre caminho, ele evoque vários deuses, o que nos remete ao diálogo epopeico deste disco. O narrador-herói se transforma na própria entidade e para isso precisa se lançar:

“Jovem preso num espírito idoso/Medroso, me jogo no mar/ Aquário de Iemanjá.”

Claro que não sem descrever a sensação que antecipa o salto:

“Parei no precipício do último maço/ Último abraço/Minha imaginação, meu asilo/ Sabendo que melhor que sentir o beijo/ É a sensação antes de senti-lo.”

Finalmente, o homem se torna a divindade:

“Senti Exu, virei Exu/ Esse é o universo no seu último cochilo.”

Na segunda faixa, Abre caminho, o narrador remete ao caminho propriamente dito que é personificado por ele mesmo. Pergunta o que está fazendo naquele lugar, mas se lembra dos seus objetivos e missões. Lembra-se que precisa encarar a morte, o preconceito racial, a justiça cega.

“Ih, que que eu tô fazendo aqui/ Mais de 7 dias sem dormir/ Da lama ao caos, Nação Zumbi/ Não foi pedindo licença que cheguei até aqui.”

“Justiça é cega vê tudo negro/ Por isso todo culpado é negro/ Todo morto é negro/ Vocês são cegos/ Meu som é o braile do gueto”

Esta música que é o início da apresentação do personagem e seus conflitos, acaba com um sample de Paulinho da Viola “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim.”

Na terceira faixa, Esú, o narrador reafirma sua condição dúbia de divino e maldito.

“Sinto que os deuses têm medo de mim/ Medo de mim/ Metade homem, metade Deus/ E os dois sentem medo de mim.”

Nesta faixa há uma elevação à produção escrita. Indiretamente, poderíamos dizer que é a exaltação máxima das musas da criação artística. A inspiração poética é que torna o homem potente, a linguagem o torna consciente de si e de seus desejos. Questionando mesmo se os homens são os próprios deuses ou a sua criação. Enquanto expõe a limitação de consciência e sensibilidade dos deuses.

“Os deuses são/ Poetas vadios/ Cochilam na ilha da linha do /Traço, sua caneta no cio.”

Descreve-se como aquele que pode provar de tudo. Apresentando a potência de criar de forma consciente e ainda de escolher seu próprio caminho, lançando-se no mundo e retirando o máximo das sensações que lhes são oferecidas. O sample é nada mais, nada menos que Novos Baianos, “Vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo”.

Reafirma ainda sua identidade abençoada pela lira das musas e moldada pelas veredas do caminho.

“Eu sou o canto do mundo/E nesse canto do mundo eu me refaço/ Dance com as musas entre/ Os bosques e vinhedas/ Nesse sertão veredas/ O sentir é um mar profundo/ Nele me afundo até o fundo”

A quarta faixa, Em tu mira, pode ser considerada a mais angustiante e intensa do álbum. Mostra o herói caído, desesperado diante das cobranças da vida e do entorno. Remete a uma fase do raper em que passou por uma severa depressão. O herói quando está por um fio.

A quinta faixa recupera a veia combativa. Ressurge referindo-se à resistência nordestina citando Os Capitães de Areia, de Jorge Amado. Repete como num canto de guerra:

“Somos homens e mulheres livres.”

Na sexta faixa, Senhor do Bonfim, o raper problematiza temas como desequilibrio mental, religiosidade e autonomia diante do crivo da sociedade.

“Dedos molhador não apontam e não julgam.”

Na faixa A pele que habito, o narrador chega a um equilíbrio de sua identidade e sua caminhada. Mesmo encarando o peso do seu julgo de homem negro, sua finitude e de sua impotência diante de várias questões da vida, repete:

“Eu faço parte da noite.”

Em Te amo, disgraça, a canção romântico naturalista do disco, mostra um amor real e sem pudores. Afinal, todo herói tem seu momento erótico básico.

Na última faixa, Imortais e fatais, a jornada do herói é concluída numa síntese entre a figura do herói cuja voz o eu lírico representa e a população negra, seus ancestrais, já referida na introdução do álbum e durante várias outras canções.

“Eu assustei o Cérberos/ Sua jaula já não me prende/ Meus ancestrais todos foram vendidos/ Deve ser por isso que meu som vende/ Escravizaram meu povo por dinheiro/ Quero dinheiro pra não ser escravo/A Lei Áurea é todo verso que eu escrevo.”

A obra de Baco Exu Blues é concluída com uma afirmação da identidade e exaltação combativa pelo povo negro. Sem dúvida, uma obra sonora poética tecida por incontáveis fios narrativos, polifônicos. Impossível não ficar emocionado quando você termina de escutar. Salve o Rap BR!


Geovana Martelo

Pessoa orientada pelo vento e pela maré. Sonha em pescar bacalhau na Noruega. Escreve como passatempo até chegar o grande dia..
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