jaqueline ruiz

Canceriana com ascendente em escorpião que sente demais, pensa demais e, por isso, escreve demais.

Jaqueline Ruiz

Pensa constantemente na vida e escreve em busca de significados... ou mais questionamentos.

Stalking e a ilusão de estar sob o controle

Em “Questão de Tempo”, Tim e Mary se conhecem num restaurante às escuras e se apaixonam somente pelo pouco tempo que conversam. Disposto a conquistar Mary, Tim usa seu poder de viajar no tempo para reencontrá-la. Traçando um paralelo com a vida real, está cada vez mais difícil se submeter a conhecer alguém sem nenhum recurso, sentir uma conexão genuína e persistir em uma pessoa.


tumblr_nl0osbkzXj1rfsfbgo1_1280.jpg Imagem do filme "Questão de Tempo" http://www.imdb.com/title/tt2194499/

No filme Questão de Tempo, Tim descobre no seu aniversário de 21 anos que os homens da família têm o poder de viajar no tempo. Anos mais tarde, já morando em Londres, ele vai a um restaurante às escuras ,chamado “Dans Le Noir”, onde conhece Mary e se apaixona por ela somente pelo tempo em que conversaram. O interesse é tão grande que ele faz de tudo para encontra-la novamente e ver realizada essa paixão. O filme suscita diversas mensagens, como o relacionamento entre pai e filho, o peso que as escolhas têm sobre a vida, o quanto devemos interferir na vida alheia e entre outras. Porém, a cena do restaurante, em que duas pessoas se apaixonam sem saberem absolutamente nada um do outro, me fez pensar no quão difícil é algo semelhante acontecer hoje em dia.

O stalking é a prática de investigar uma pessoa nas redes sociais. Geralmente, alguém que você tenha interesse. Você descobre qual a opinião política do outro, que tipo de música gosta, qual gênero de filme predileto, qual o signo, quem são os parentes... só não consegue descobrir se tem interesse em você também. Mas a depender da sua intenção, isso não é um problema já que os dados da sua pesquisa podem ser usados a seu favor e facilitar qualquer envolvimento amoroso, ainda que mínimo. Se o crush gosta de Arctic Monkeys, você vai encontrar um meio de trazer isso à conversa, ou se achou incrível Clube da Luta, você vai assistir só para ter o que comentar. Só cuidado para não deixar escapar algo que ele ou ela ainda não tenha dito diretamente a você.

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O romantismo e até o tom humorado do encontro às cegas se perdeu. Conhecer outra pessoa sem nenhuma informação prévia parece absurdo. Ainda que apareça uma exceção dizendo que adoraria um encontro desse tipo, não duvido que pesquisaria o perfil no Facebook da outra no celular enquanto conversassem. Onde fica, então, a graça da descoberta e a delícia em conhecer o outro se você antecipa esse processo? Não mergulha, apenas molha os pés achando conhecer todo o oceano.

Saber o básico não é o problema. A obsessão em saber tudo indiretamente, sim. Você pode chegar ao ponto de estar apenas idealizando uma pessoa. Assim, a vontade de fazer dar certo pode se confundir com um interesse mais real e acabar te deixando no limbo do amor: o do tipo unidirecional, o platônico. Mas essa é apenas uma das possibilidades que o stalking pode ocasionar.

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Fazemos parte de uma geração a qual tem por característica o domínio da informação. E os aspectos negativos disso acabam sendo evidenciados em alguns pormenores; como o medo constante do fracasso, a auto cobrança pelo sucesso em todas as áreas da vida, a paranoia em estar sempre afrente e a par de tudo, o estado de vigilância e análise do outro para que nada escape, a aversão ou desconfiança ao que não é sólido ou verificável e entre outras nuances. Tudo isso se reflete na forma que construímos nossos relacionamentos.

Queremos ter o controle. Sobre as nossas emoções, situações, os laços humanos etc. Ser vulnerável é um risco. Evitá-lo é uma forma de proteção. Entre conhecer o outro direta ou indiretamente não há “certo” ou “errado”, na verdade, trata-se de uma nova configuração em que estamos inseridos e julgamos saber lidar. Quem se agrada, prossegue stalkeando seus interesses amorosos. Quem não vê essa prática funcionar para si, tenta parar ou diminuir com o stalk.

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No final das contas, o que importa não é exatamente você ir cru a um jantar romântico ou com todos os dados na palma da mão, mas o que você faz a respeito disso quando há uma conexão. Conhecer o outro pode ser fascinante. Viver com quem você acha fascinante, ainda mais. Persistir, através de qualquer meio, é o que importa nesse caso. Assim como Tim fez com Mary e a conquistou... Ainda que tenha se valido da viagem no tempo.


Jaqueline Ruiz

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