jaqueline ruiz

Canceriana com ascendente em escorpião que sente demais, pensa demais e, por isso, escreve demais.

Jaqueline Ruiz

Pensa constantemente na vida e escreve em busca de significados... ou mais questionamentos.

Não há paz sem autoaceitação

Nós somos constantemente forçados a não aceitar a nossa vida como ela é. O que temos de mais nosso é o que tentam tirar de nós. E em algum momento, nós damos essa permissão e nos diminuímos para nos encaixar nos padrões de alguém. Mas não dá para prosseguir a vida com tranquilidade sem estarmos em paz com a nossa própria história.


black-mirror.jpg Cena do episódio "Nosedive", da série Black Mirror. Disponível na Netflix.

Pergunte para um mínimo de 10 pessoas com idades diferentes o que elas se arrependem na vida e pelo menos uma dirá não saber antes as coisas que sabe hoje. Seria o sonho de qualquer um saber as respostas antes, as direções que deveríamos seguir, as decisões que deveríamos tomar, as respostas que deveríamos dar, as atitudes que deveríamos ter. Na verdade, às vezes até temos acesso a esse tipo de coisa, mas escolhemos não dar tanta importância.

E quando eu digo que pelo menos uma pessoa levantaria esse tópico, é porque está diretamente ligada ao autoconhecimento. A sabedoria sobre si. Há momentos em que precisamos percorrer um árduo caminho contra nós mesmos até estarmos em paz novamente. Conflitos internos como a rejeição à própria autoimagem ou realidade socioeconômica, por exemplo, podem tomar um tempo precioso de nós. Não à toa, grande parte das nossas dificuldades são criadas por nós mesmos.

Screen Shot 2016-10-21 at 8.02.19 PM.png Cena em que Lacie articula uma cena para conversar com a popular Naomi, símbolo do sucesso social, e projetar uma imagem diferente da real.

Como no caso de Lacie Pound, em Nosedive, episódio de Black Mirror. Deixando um pouco de lado o aspecto tecnológico presente na série, de disputa pela melhor avaliação da reputação, o que pode levar à ascensão ou decadência social, podemos observar que Lacie leva uma vida razoavelmente boa. Mas ela se convence de não ser o suficiente e, cuidado com o spoiler, traça um caminho que a faria se arrepender de ter subestimado a vida que tinha. Mas ao mesmo tempo isso é importante para fazer crescer sua visão e se libertar, ainda que tenha sido presa. A ironia está em precisar chegar ao descontrole para retomar o controle sobre si. Está em pagar um preço caro pelo amadurecimento.

nosedive.png

Se aceitar não é um processo fácil. Somos incentivados ao consumismo em vídeos de “recebidos do mês”, somos confrontados com a inveja quando vemos as postagens nas redes sociais de pessoas aparentemente perfeitas, somos apresentados às mais diferentes técnicas de emagrecimento, ouvimos discursos generalizantes do tipo “qualquer um pode” (quando as condições são totalmente diferentes) que nos faz sentir ainda mais incapazes, julgamos a nossa vida desinteressante quando vemos as dos outros sendo publicadas, entregamos a nossa autoconfiança à quantidade de selfies e likes.

lacie2.jpg Cena em que Lacie imagina como a sua vida seria se conseguisse comprar a casa que desejava.

Perdemos a nossa vida pensando no que estamos perdendo. Tornamo-nos incapazes quando só enxergamos a incapacidade e não fazemos nada a respeito. Não sabemos admirar o outro sem nos compararmos. Passamos muito tempo pensando “Minha vida deveria ter sido de tal jeito” em vez de “Minha vida vai passar a ser de tal jeito”. Ouvimos pessoas negativas e não filtramos o que entra na nossa alma. Não sabemos quem somos, não sabemos para onde vamos.

Mas há beleza na vida. Há um encanto em ser único. Precisamos ser confrontados com a nossa própria realidade e fazer as pazes com a nossa história e com quem somos. Independente se gostamos ou não, contanto que não sejamos conformados. Nem todo dia vai ser de festa, nem todo dia vai ser de amor próprio, nem todo dia vai ser épico. Mas pode ser o motor para um nível mais profundo de autoconhecimento. O amor que tanto compartilhamos no Facebook por meio de frases e imagens “good vibes” deve começar a ser praticado em nós. E pode acreditar, um dia alguém vai te amar muito. De uma maneira tão forte que você se perguntará o que poderia fazer para compensar e verá que não há nada a ser feito a não ser continuar sendo exatamente quem é. Mas eu espero que antes disso, essa pessoa seja aquela que você enxerga no espelho todos os dias.


Jaqueline Ruiz

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