julia tourinho

Reflexões sobre cinema e relacionamentos

Julia Tourinho

Psicologa por formação, Terapeuta por vocação. Sou apaixonada pelo estudo das relações humanas. Nisso os filmes são grandes ferramentas, são espelhos de nossas vidas - hábitos e comportamentos. Através deles sentimentos em nós são despertos, uma grande fonte de reflexão. Escrever sobre filmes e suas histórias é escrever sobre a própria vida.
Quanto a mim, acredito no melhor! Que toda transformação é possível e que nunca devemos desistir!

Precisamos ser sempre bonzinhos?

Amizades improváveis é um filme despretensioso, que aborda de forma cômica temas densos e dolorosos, nos fazendo refletir sobre o poder transformador da empatia.


Amizades improváveis, obra cinematográfica lançada em junho de 2016, tem como temática principal a relação entre Trevor e Ben, um adolescente com distrofia muscular e seu cuidador recém-formado. O filme se inicia com flashs que mostram uma criança rindo e logo depois falas da professora de Ben durante suas aulas na formação em acompanhante. As falas trazem o slogan: "Para cuidar dos outros antes é preciso cuidar de si" e as imagens trazem paradoxalmente o semblante do personagem, vivido por Paul Rudd, apático e abatido. É curioso como, quando Ben inicia sua nova carreira, a última coisa que não está fazendo é cuidar de si mesmo. Em realidade está em um momento de fuga da vida que construiu até então, paralisado por seus sentimentos.

Trevor se apresenta ao público como um adolescente sarcástico, o “terror dos cuidadores”, com uma visão fatalista e agressiva perante a sua condição de saúde. O apego excessivo as rotinas são colocadas como condições para a manutenção da sua vida. Só não fica claro se isso é algo desejado pelo próprio Trevor ou um temor e imposição de sua mãe , interpretada por Jennifer Ehle.

Elsa cuida do filho sozinha e a presença de um cuidador é essencial. O personagem vivido por Craig Roberts não ajuda muito sua mãe nesta tarefa de encontrar um cuidador. Faz lembrar as histórias de outro filme, A noviça rebelde, em que os filhos do capitão Von Trapp assustam todas com as governantas contratadas, até que Maria (Julie Andrews) ultrapassa as barreiras iniciais e assume o cargo. A grande diferença entre a jovem governanta do filme de 1965 e Ben é a abordagem utilizada para criar vínculos. Uma se utiliza da simpatia e dos bons modos e o outro se utiliza da empatia e da capacidade de ‘sentir como.’

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Baseado no livro de Jonathan Evison, o filme se desenvolve de forma despretensiosa, abordando temas delicados sem ser excessivamente dramático. Embora luto e perdas sejam temas presentes nessa história, o que mais chama atenção no desenvolvimento da trama é a forma não usual e inesperadas como se desenvolvem as relações. Estamos muito acostumados a simpatia e bondade excessiva quando abordamos temas como doenças degenerativas e morte. Em amizades improváveis, como o próprio título sugere, a empatia e o vínculo entre os personagens acontece através do uso e abuso do humor negro, respostas ríspidas e sarcasmo.

Confundimos empatia com simpatia e achamos que devemos ser sempre bonzinhos, mas nem sempre ter um sorriso no rosto e dizer coisas bonitas nos colocará em conexão. É necessário saber se colocar no lugar do outro, sentir como o outro.

Simpatia tem a ver com o que as pessoas despertam em nós, envolve sentimento de solidariedade, vontade de fazer algo pela outra pessoa e empenho. Entretanto é uma função basicamente mental, enquanto a empatia se dá no âmbito do sentir, da emoção. Ser empático é a capacidade de estar no lugar do outro e compreendê-lo mesmo que não haja nada a dizer, nem ao menos fazer. É a disponibilidade ‘ser com’ a pessoa.

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No filme Ben e Trevor, estão ambos desesperançosos com a vida, vivendo situações de perda. Ben perdeu o filho, o casamento e se recusa a manter sua carreira de escritor. Trevor tem uma doença degenerativa e um prognóstico de vida muito curto. Os dois de alguma forma vivem situações que se assemelham e buscam se isolar do mundo de relação.

Essas situações os colocam em uma relação empática, mas não simpática. Eles encontram a empatia através de um tom mais agressivo na relação, o que dá à Trevor a sensação de ser compreendido e aceito como é. Na primeira cena de interação dos dois personagens, quando Ben se permite sair do protocolo de simpatia dando a primeira resposta agressiva à Trevor, eles estabelecem uma conexão e o adolescente o escolhe como cuidador. “Limparia de um jeito que quando eu terminasse não haveria mais nenhuma merda na sua bunda” – é assim que Ben responde a Trevor quando perguntado sobre ‘limpar a sua bunda’, na entrevista de emprego.

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A relação se estabelece basicamente através de provocações. O adolescente utiliza-se de muitos recursos para deixar seu cuidador constrangido, muitas vezes usando suas limitações como brincadeiras de ‘mau gosto’ para irritá-lo. Ben responde as suas brincadeiras e provocações, não em forma de repressão, mas as retribuindo. O que cria entre eles uma conexão. Totalmente diferente do protocolo que recebeu como cuidador – portanto sem ser proposital – ele cria uma relação segura para o adolescente e a confiança necessária para que ambos saiam da zona de conforto.

Como uma provocação Trevor propõe uma viagem dizendo que foi Ben quem a sugeriu, acreditando que ele iria recuar. Para sua surpresa não foi o que aconteceu. Ben que estava fugindo de assinar os papeis do divórcio viu nesta viagem a oportunidade de ganhar tempo. Assim os dois partem em uma viagem rumo a pontos turísticos que Trevor via apenas pela televisão. Poderíamos dizer também que ambos viajaram rumo ao desconhecido em si mesmos.

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Sarcarmo e alfinetadas é a forma como eles criam conexão. É a forma também como outra personagem entra em cena: Dot, interpretada por Selena Gomes. Ela está pedindo carona na estrada e termina por viajar com eles. O contexto de perdas é o que une os personagens e é através de respostas ríspidas e defensivas que eles criam conexão e comunicação.

Esse contexto fornece a Trevor a possibilidade de um contato com o universo feminino. Megan Ferguson interpreta outro personagem que se une ao grupo. Gravida, Peaches, é ajudada e acolhida por eles na estrada. Diferente dos outros, não apresenta o contexto da agressividade, mas apresenta um histórico da perda, já que seu marido está na guerra. Parece que ela fornece um pouco de suavidade ao grupo de viajantes.

Ao longo da história, descobrimos que a mãe de Dot faleceu e ela tem um contexto difícil de relações. O tom de agressividade usado por ela, inicialmente para afastar as pessoas, é exatamente o que os une. Essa forma de comunicação fornece empatia suficiente para que Trevor e Dot se aproximem. Ele tem a possibilidade de pela primeira vez convidar uma menina para sair, algo que não aconteceria se ele ficasse em casa.

Certamente foi a conexão criada pela empatia o que permitiu Trevor estar com pessoas, sentindo que elas não estavam com ele ‘por pena’.

Ser improvável é muito diferente de ser impossível!

Esse filme vem nos arrancar o rótulo de que o sarcasmo é apenas uma máscara ou escudo contra os sentimentos, e coloca as pessoas como elas são independente dos seus mecanismos de defesa. Cada indivíduo se constitui no mundo e se apresenta com uma personalidade única constituinte de toda vivência emocional que teve ao longo da vida. Em amizades improváveis não há julgamentos acerca do bom ou do mau comportamento e nem tentativas coercitivas de mudança, nesta relação eles podem simplesmente ser como são naquele momento.

É claro que algumas vezes usamos palavras ríspidas para agredir quando estamos feridos, mas o filme vai além do clichê de boa conduta, do: Vamos concertar você... Aprenda a ser bonzinho! Ele retrata de forma bem-humorada a superação das limitações pelas vias incomuns, mostra a possibilidade de uma relação de ajuda mutua. Juntos, e do jeito que são, eles revisitam situações de vida que preferiam fugir e aprendem muito com isso!


Julia Tourinho

Psicologa por formação, Terapeuta por vocação. Sou apaixonada pelo estudo das relações humanas. Nisso os filmes são grandes ferramentas, são espelhos de nossas vidas - hábitos e comportamentos. Através deles sentimentos em nós são despertos, uma grande fonte de reflexão. Escrever sobre filmes e suas histórias é escrever sobre a própria vida. Quanto a mim, acredito no melhor! Que toda transformação é possível e que nunca devemos desistir!.
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