júpiter

Livres para sermos o que somos

Jéssica Woods

Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz..

Killgrave e sua veracidade cotidiana

Jessica Jones contém apenas 13 episódios em sua primeira temporada. O vilão, surpreendentemente, é seu passado; ele a manipula, ele a ameaça, ele a estupra e a deturpa. O roteiro denso nos faz pensar, em circunspecto, ações nocivas. Killgrave não é fictício. Ele está na vida de bilhões de mulheres.


cy4r1oucoruea7nf7rre.jpg

Posso dizer que me odeio por ter assistido tão rapidamente Jessica Jones. Em menos de dois dias, a série produzida e transmitida pelo serviço de mainstream/streaming Netflix cativou-me como o brilhante Sense8 havia conseguido. O enredo, porém, traz questões sérias que devem ser continuamente discutidas a qualquer hora. Saber se está ou não num relacionamento abusivo é uma dúvida quando se nega, quando se romantiza toda a dor englobada ou simples e tragicamente pela falta de informação. Esse princípio é tratado com grossura pela criadora Melissa Rosenberg, se redimindo pelas artes anteriores – a Saga Crepúsculo.

Como mulher é fácil se identificar com a personagem. Enquanto Jessica Jones tem como amigo secreto o Killgrave, milhares de outras também tem caras semelhantes ao vilão em suas vidas, consumindo-as em troca de migalhas. “Kilgrave made me do it” (ele me obrigou a fazer isso) é constantemente repetida por pessoas ao longo dos episódios. Afinal, quantas mulheres não foram chamadas de loucas, histéricas? Quantas não sofreram abuso verbal por homens desconhecidos? Quantas não foram chamadas de vadia? E, aliás, quantas não se sentiram culpadas por tudo isso? Killgrave me obrigou a fazer isso – mas a culpa é sua.

“Você não me estuprou apenas fisicamente, mas violou cada célula do meu corpo e cada pensamento da minha mente. ”

“Eu implorava até chorar. Você está me ouvindo? Está entendendo aonde eu quero chegar? Oito meses! Eu estava aos pés dele. Eu dormia no chão dele. Eu dava banho nele...”

Muito mais que estupros, JJ vem trazendo facetas dos abusos. Psicologicamente, podemos ficar atormentados dependendo das palavras. Nas HQs, Jessica passa cerca de 8 meses nas mãos do Grave que, para justificar os atos, dizia ser um castigo por apanhar de personagens como Demolidor ou Homem-Aranha. Ele a fez implorar por sexo e o desejasse, no entanto, não a tocava.

A perseguição sofrida é uma analogia nítida de todas as vezes em que seu ex vem com mensagens pedindo perdão ou não aceita em hipótese alguma que você termine com ele. As perseguições advertem como é comum e normativo o pressuposto de que namorar é ser posse; há enésimos casos de garotas sendo coagidas a fazerem o que quer que seja mesmo que num primeiro momento tenham dito não. Se ela proferiu negativamente e você sustentou a ideia até que acontecesse o sexo, acredite, você a estuprou. Ela não quis, você sim.

Daí partimos para o poder do vilão. Se ele consegue monitorar a mente dos outros a qualquer momento, significa que na verdade ninguém ali quer fazer o que ele manda. Killgrave é uma figura atormentada pelo passado, mas não justifica em momento algum seu ato. Se não há pressão física, há psicológica: tem até aqueles que ameaçam suicídio caso deixem ele. O medo e a culpa, novamente, invadem quem quer que seja.

A priori, mesmo sendo carismático, não se deixe enganar: o enigmático Killgrave é assustadoramente real. Esse é o grande peso de Jessica: vê-lo em cada esquina.


Jéssica Woods

Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz...
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Jéssica Woods