kahlos de frida

Sou toda feita de kahlos. Kahlos da vida. Kahlos de Frida.

Carla Borges de Lima

O casamento na visão de um anjo pornográfico

A literatura brasileira nunca foi tão sórdida desde as magníficas histórias do nosso ''anjo pornográfico'', Nelson Rodrigues. A característica peculiar da sua escrita é justamente a forma suja como esta é cuspida, revelando a verdadeira face da sociedade - principalmente a elitista -, e podemos ver tal obscenidade no seu romance escrito diretamente para ser publicado em livro, e não em capítulos diários de jornal, intitulado ''O casamento''.


o_casamento.jpg Adaptação para o cinema, dirigida por Arnaldo Jabor

O livro original é do ano de 1966 e ao lermos esta obra, nos deparamos com situações inescrupulosas provenientes dessa década de sessenta, existentes até os dias de hoje; os desejos intrínsecos de cada personagem da narrativa, exibindo a perversidade como uma característica atemporal, logo, algo constituinte da essência do homem, podendo ser enaltecida de acordo com cada circunstância, além de transformar o conteúdo em uma abertura para a liberdade literária dos outros dramaturgos que surgiram posteriormente, exatamente devido a essa ruptura do que é considerado moral e normal pela nossa sociedade.

A história relata as mais grotescas situações típicas de uma boa “antropologia rodrigueana”, repleta de traições, incestos, crimes passionais e muita crueldade. Componentes dos quais o autor desenvolve divinamente bem em suas obras, e sem ser repetitivo. Tudo acontece às vésperas do tão esperado casamento de Glorinha, filha mais nova – e a favorita - de Sabino, que é o pai de mais três moças, diretor de uma bem-sucedida imobiliária situada na cidade do Rio de Janeiro e casado com Maria Eudóxia. Sabino é um homem respeitado, que possui uma renitente admiração pelo status do ‘’homem de bem’’, que valoriza a moral, os bons costumes e claro, o casamento como instituição. Muitos segredos são deflorados durante a narrativa, e por outro lado, atitudes permanecem na penumbra do mistério, como por exemplo, o último ato de um dos personagens, Xavier e até mesmo a última atitude de Sabino, no fim da narrativa.

A linguagem utilizada na obra é uma linguagem crua, fazendo com que os desejos primitivos dos personagens se tornem pungentes, reais, dissipando o famoso moralismo barato do qual a nossa sociedade – até hoje – insiste em alimentar e reproduzir, deixando-o de lado somente entre as quatro paredes, é claro! Podemos observar também que: esse moralismo hipócrita também é paradoxalmente atemporal, ou seja, mesmo que ele seja originário de uma sociedade arcaica, perpetua até hoje nas mesas de jantar das famílias brasileiras contemporâneas, mas claro, somente as ‘’famílias de bem’’.

Há tempos Nelson Rodrigues nos choca através das suas prosas. Podemos ressaltar exemplos como “A vida como ela é” e o também polêmico “Bonitinha, mas ordinária”, que abordam situações tão absurdas – e quase que inverossímeis – quanto em “O casamento”. Nelson optou por enfatizar o que há de mais feio, de mais miserável na humanidade. Fazendo-me, consequentemente, lembrar do livro do Dostoiévski, ‘’Os irmãos Karamazov’’, do qual aborda a questão da existência da moral (especificamente a moral divina) e que sem esta, basicamente “tudo é permitido”. É exatamente a visão que não apenas eu, mas acredito que muitos, tenham da literatura subversiva do nosso anjo pornográfico: uma literatura que de tão despida, torna-se imunda, mas não ignóbil intelectualmente. Toda essa sujeira é justamente o que podemos chamar de “le bon côté” da dramaturgia rodrigueana, pois nela tudo é permitido. Essa marca registrada, ou seja, essa torpeza, proporcionou a Nelson diversas críticas dos eruditos da época. O chamaram de machista, reacionário e dono de uma estética de mau gosto.

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Talvez, os críticos da época não entendessem muito bem a conjuntura da literatura de Nelson. A sua real essência. O autor era deveras pragmático ao escrever sobre o homem e sua “dicotomia social” da qual era justamente essa busca pela vestimenta intacta da moral, e que por outro lado, via-se mergulhado na angústia causada pelos seus dilemas demasiado obscuros advindos dos seus desejos sexuais mais mundanos e imorais. Mergulhava de forma profunda em sua própria escrita, dando cada vez mais vida aos seus personagens cheios de desejos reprimidos, e quando eram colocados em prática, surpreendendo o leitor, não havia qualquer tipo de julgamento e pudor da parte do dramaturgo, ele apenas jorrava uma escrita livre. Cuspia na cara da sociedade brasileira e gozava com ela. Nelson até se sentiu extremamente ofendido quando sua obra foi censurada na época pelo ministro da justiça do governo Castello Branco, Carlos Medeiros Silva, com a acusação de que a linguagem exposta no livro era “indecorosa” e que o livro atentava “contra a organização da família”. E ele retrucou: “Dirá o leitor que há palavrões no meu livro. Mas serei o primeiro autor a usar palavrões? Antes de mim, Shakespeare já os usava com a maior abundância e desfaçatez. Por outro lado, temos aí Henry Miller. Seus livros são intocáveis, e por que são intocáveis? Eis a razão: - a pornografia com sotaque pode entrar nas casas de família.” Em 1967, O casamento foi liberado pelo Tribunal Federal de Recursos.

Ao embarcarmos nas páginas repletas de ficção, ou realidade, de um escritor, acredito que devemos deixar um pouco de lado nossas ideologias, nossos pudores, para entendermos por completo a essência da obra. Afinal, se todos os artistas – incluindo cineastas, literários, pintores – praticassem seus trabalhos com qualquer tipo de limitação moral, não teríamos o privilégio de enxergar a vida como ela é. Utilizar a paixão, apenas a paixão, para jorrar uma escrita realista, intensa. Pois, como disse nosso saudoso Nelson: “Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé!”

Referência: RODRIGUES, Nelson. O casamento. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.


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