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Filmes Que Cortam A Nossa Cabeça Em Câmera Lenta

Existem filmes que passam diante de nós... e então desaparecem. Existem filmes que nos habitam... e de nós não saem mais.

E existem filmes que cortam a nossa cabeça em câmera lenta. É o caso de "Amores Imaginários", de Xavier Dolan.


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O filme “Amores Imaginários”, dirigido pelo jovem cineasta canadense Xavier Dolan é basicamente um tratado sobre desilusões amorosas, de uma força poética admirável. Conta a história de dois amigos, Frances e Marie, que vão se apegando aos poucos a Nicolas, um garoto de cabelos loiros e encaracolados, que exala mistério por onde passa. A dinâmica dessa relação vai aos poucos sendo dissecada em movimentos que denotam a sua falta de profundidade, até que Frances e Marie passam a ser constantemente traídos pelas expectativas que os simples e teoricamente descompromissados sorrisos e olhares de Nicolas alavancam neles. É um jogo de sentimentos, de troca de gestos, onde os personagens confundem uns aos outros e sofrem por causa de imagens, às vezes rudes, agressivas, outras vezes singelas demais, mas nunca reais. Imagens que cada um cria para si como uma espécie de abrigo. Imagens que embriagam em sua suntuosidade, sua aura quase divina e sua vontade corrosiva de aparecer, como aquela em que vemos Nicolas dançando em seu apartamento de forma desconjuntada, diante dos olhares atônitos de Francis e Marie: trata-se do objeto de desejo, que se expõe em movimentos desajeitados, de sutil, mas cruel sensualidade, exposto a luzes frenéticas, exercendo sua capacidade de provocar os sentidos. Provocando, instigando. Fazendo sofrer. Criando expectativas, mesmo que aparentemente sem essa intenção.

Desde os seus primeiros minutos, “Amores Imaginários” insiste em uma mise-en-scène onde o elemento central é Nicolas. Ele exerce um poder magnético, através de uma postura segura de si, esnobe e ao mesmo tempo inocente nos cachos de seus cabelos e nas feições de seu rosto. Sua presença em cena atrai os demais componentes visuais e narrativos e assim, Nicolas colore o filme em tons amarelados e melancólicos de uma fotografia que parece buscar sobriedade em meio aos figurinos e cenários extravagantes.

Desse modo, a presença de Nicolas é sempre propulsora de desejos. Quando não está enquadrado pelas lentes de Dolan, o garoto encontra-se mergulhado nas mentes insaciáveis dos amigos Francis e Marie. Em uma das primeiras cenas do filme vemos Nicolas em uma mesa, junto de outras pessoas. Ele fuma, sorri, conversa. Olha para os lados, aparentemente sem fixar-se a nenhuma direção específica. Seu olhar parece não ter objetivo algum e sua espontaneidade chega a causar certo desconforto em Marie. Esta, que está junto a Francis na cozinha, pergunta ao amigo com ar de desdém: “Quem é aquele ‘Adonis’ exibicionista?”.

A partir daí a vida do filme passa a apresentar todas as suas cores para o espectador. Os figurinos retrô, os cabelos cheios de laquê e os objetos em cena, por exemplo, são elementos que caracterizam o dia a dia daqueles jovens adeptos do hedonismo. Alimentados pela beleza das coisas, inserem-se no mundo a partir das relações que estes mantêm com uma idéia muito peculiar de amor: amar é embelezar, é endeusar, colocar num pedestal, ser passional. Amar é também imaginar. E perder-se nessa contradição onde o carnal e o aural fazem-se presentes o tempo todo.

Assim, é fácil constatar o porquê de Frances e Marie passarem tanto tempo arrumando-se, vestindo seus mais descolados ou chamativos acessórios quando estes vão ao segundo encontro com Nicolas, em um bar. O objeto de desejo, em sua despretensão, parece estar alheio a tudo isso. No entanto, a dupla de amigos iludidos encontra-se lá, colocando a cara a tapa, expondo descaradamente seus defeitos em uma tentativa frustrada de mostrar que são perfeitos. O que habita o imaginário de Frances e Marie é muito contrastante em relação ao que habita o imaginário de Nicolas. O mundo do filme como nós, espectadores, vemos – cheio de cores e um estilo onde as formas são sempre bem delineadas, não importando o conteúdo – é o mundo dos dois. A representação imagética dos sentimentos e da libido dos personagens está na mise-en-scène simples, porém bem cuidada e significativa que Dolan concebeu para seu filme.

Dessa forma, acompanhadas da belíssima música “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)” interpretada na voz de Dalida, as imagens que servem de prenúncio para aquela relação a três acabam por exteriorizar justamente esses sentimentos conflitantes que envolvem Francis e Marie. E a vontade de ter Nicolas é expressa em cores fortes, que saltam aos olhos e representam esse amor que é feito de meras aparências, mas pouca experiência. Um amor que se vê no belo, mas que não se concretiza no toque. Um amor imaginário, que soa poético aos ouvidos dos românticos, e sacal aos que realmente amam. O vestido fatal de Marie e seu olhar sedutor, aliados a fumaça que sai da sua boca ao tragar um cigarro com ares de confiança são elementos que compõem essa sua nova apropriação do conceito de “ser” para o outro. A camisa listrada por cores de tonalidades escuras usada por Frances o coloca de certa forma em um patamar abaixo de Marie no quesito extravagância. Mas a sobriedade de seu figurino busca apenas mascarar sua imensa vontade de “ser” para Nicolas o que ele é para si mesmo: um rapaz bonito e inteligente, disposto a amar sem conhecimento algum de limites. E os cabelos de Frances e Marie, bem arrumados, firmes, sem qualquer indício de fragilidade servem de contraponto para os rebeldes cachos de Nicolas que compõem junto de seu rosto uma figura fascinante de se olhar. Dito isso, há uma cena logo no início de “Amores Imaginários” que talvez sugira que Marie sempre esteve um passo a frente de Frances no processo de (tentativa de) conquista de Nicolas. Quando o garoto dos cabelos encaracolados está fumando, conversando e sorrindo em uma mesa cercado de outras pessoas e os dois amigos estão na cozinha, Dolan emprega um plano significativo onde vemos ambos de costas, inicialmente concentrados em suas atividades. Marie por um instante atreve-se a olhar para o canto onde se encontra Nicolas. Logo em seguida, Frances repete o gesto. Um momento que parece dizer o quanto os dois querem fingir que não estão interessados, ao mesmo tempo em que revelam seu interesse de forma gradual e sutil. Aqueles olhares, um atrás do outro, sabotam suas iniciais pretensões. Para os dois amigos, Nicolas é desses de se olhar apenas uma vez, por uma brecha, e de te tragar num passe de mágica com sua simples forma de ser e estar. Sua presença é realmente magnética.

Talvez por conta desse magnetismo exercido por Nicolas, a câmera se mantenha tão próxima dos personagens na maior parte do tempo. Vemos com os olhos de Francis e Marie, não necessariamente através de planos subjetivos, mas sim do uso de slow motion e outros recursos poéticos. A visão que possuímos de Nicolas é enaltecedora. A lente da câmera do diretor canadense confere importância ao garoto, e a insistência em filmar Frances e Marie de costas faz deles figuras de relevância menor, submissos de um amor que não existe, mas que justamente por essa condição, os alimenta de ilusões que colorem o seu dia a dia.

Na cena em que o trio brinca de pique-esconde em uma floresta isolada de tudo, vemos Frances, sozinho e de costas, caminhando aparentemente sem direção. De repente para e senta-se no meio do caminho, até encontrar um coelho. Ele passa a seguir esse coelho de quatro e, através de um plano médio, vemos aproximar-se em segundo plano e desfocado, Nicolas, enquadrado do pescoço até mais ou menos a cintura. Ele vai acercando-se de fininho e coloca suas mãos sobre Frances, que leva um susto e cai de barriga para cima. Nicolas cai sobre Frances. Toda essa seqüência é permeada por uma tensão que se deve exclusivamente à mise-en-scène concebida por Dolan. Uma câmera quase documental que cria certo suspense, levando o espectador a pensar que algo irá acontecer, apesar de não sabermos exatamente o quê. A imagem de Nicolas em desfoque pronta para “atacar” sendo vista pelo espectador e não por Frances... E por fim o corpo de Nicolas sobre o de Frances. Expectativa do espectador, expectativa do personagem.

Há ainda outros momentos em que a composição dos planos entrega um pouco da psique dos personagens e mostra-se capaz de simbolizar dores e angústias sem a necessidade de muitas palavras. Em um ambiente de luz artificialmente esverdeada, Frances encontra-se em uma cama junto de outro homem. Inicialmente vemos os dois em um plano conjunto. Um do lado do outro, mas sem estabelecerem qualquer contato. Depois, uma seqüência de planos fechados que migram do rosto de um para o rosto de outro. Quando os dois começam a se tocar, percebemos no olhar de Frances uma dispersão. Talvez uma vontade de estar em outro lugar. A cor verde é simbólica: lembra algo que não está maduro. Talvez algo frio, calculista. Seria esse momento uma oportunidade para Frances entregar-se de corpo e alma a outro ser que não Nicolas? A fotografia e os planos sugerem que não. Nem de corpo, muito menos de alma. Todos os seus movimentos são precisos, ensaiados, sem qualquer resquício da espontaneidade que tanto o cativa nos gestos do homem que habita sua mente.

Algo semelhante ocorre quando vemos Marie em uma banheira com um homem que usa óculos de aros arredondados. Ela fuma, parece angustiada. Não está contribuindo para que o ambiente se torne agradável para os dois. Seu olhar também chama a atenção. Só que, ao invés de disperso, ele é centrado. Marie olha fixamente para cima como se tivesse encontrado no alto algo que lhe parecesse muito mais digno de ser contemplado do que a seu parceiro. O homem mostra-se perdido, um pouco atordoado com as palavras rudes e o descaso da mulher. O tom amarelado da fotografia reflete esse descaso e atenua o clima de podridão e falsidade da relação. A partir do momento em que começam a se tocar, são tímidas as carícias.

Quando o trio passa um tempo na casa de campo de Nicolas, o filme assume tons idílicos em sua fotografia. A luz estourada remete a um paraíso particular, representando assim o ápice da relação dos três. No entanto, é nesse mesmo ambiente que os laços de amizade entre Frances, Marie e Nicolas são destruídos, como se esse paradigma fosse uma metáfora para o conceito de “amor imaginário”: quanto mais próximo do real que esse amor for chegar, maior será a chance d’ele ruir. E, no fim das contas, o representante dessa paixão ilusória nada mais é do que apenas um garoto que possui traços masculinos e femininos que transformam seus olhares em um mistério. Cercado por contradições, Nicolas é como um anjo, quase um ser assexuado que desperta sua sexualidade através da imagem que ele representa para Frances e Marie. E o rompimento da ligação com essa imagem os afeta tanto quanto colocar um ponto final em um relacionamento amoroso: “É como ter a sua cabeça cortada em câmera lenta”, o que apenas serve de impulso para que Frances e Marie mergulhem sem medo em um novo “amor imaginário”.


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