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- esboços para uma existência orquestrada pelo tom da intolerância reprimida -

Aprenda a praticar a intolerância reprimida em 10 passos! Caso você já a pratique, desconsidere este texto. Ou não.


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1. finja que o objeto de sua intolerância não existe.

2. cultive um medo inconfessável, a ponto de sentir que sua própria integridade e a integridade daqueles que você ama pode ser afetada quando em contato com o objeto de sua intolerância, como se este fosse uma ameaça de alta periculosidade.

3. evite a todo o momento a presença do objeto de sua intolerância, mas com aparente discrição, de forma que o seu medo fique disfarçado, diluído em meio a simples ações do cotidiano – como trocar de canal quando todos estão na sala diante da TV e o objeto de sua intolerância surge como tema de um programa.

4. cale-se quando algum tema referente ao objeto de sua intolerância for posto à mesa, omitindo suas considerações em relação a ele justamente por não ter certezas acerca de sua real natureza e/ou por não ter argumentos que sustentem quaisquer de seus sentimentos ambíguos para com o assunto.

5. se imagine como um ser imaculado; crie sua fantasia particular na qual você é imune ao objeto de sua intolerância. Desta forma, não precisará sentir-se na obrigação de pensar a respeito dele – como se este estivesse muito longe da sua vida perfeita, ou devesse estar –, e assim até mesmo a desagradável menção/sugestão de seu nome pecaminoso irá evaporar da realidade cotidiana na qual você encontra-se inserido, sem mais nem menos.

6. lembre-se de um dado importante: o conceito de “intolerância reprimida” é não admitir-se intolerante e, portanto, impossibilitar a si mesmo a autorreflexão que permitiria uma mudança na conturbada relação mantida – à força – com o assunto polêmico. Siga este conceito à risca.

7. jogue um peso, uma aura sombria sobre o objeto de sua intolerância, carregando-o de morbidez como se ele se tratasse de um bicho de sete cabeças. Reserve a ele um silêncio agudo e improdutivo.

8. você irá reparar, ao longo de sua jornada, que quem está em paz com o assunto referente ao objeto de sua intolerância é sempre leve/descontraído/descompromissado em sua abordagem, justamente porque tem em mente, por experiência ou dedução, a ideia de que o assunto possui aspecto universal (ou seja: existe, e não deve ser ignorado), além de inofensivo: é só mais um, dentre vários outros assuntos. Ignore a existência de tais pessoas, também.

9. tenha um secreto apreço extra por indivíduos que aparentemente não possuam nenhuma relação com o objeto de sua intolerância. Se entregue ao puro moralismo persuasivo quando precisar justificar a sua adoração por estes indivíduos.

10. por que praticar a intolerância? Porque é uma linha de fuga. Por que reprimir a intolerância? Porque você sabe que não há qualquer justificativa moralmente consistente que possa explicar tal intolerância, e tem medo de ser o imbecil em meio a pessoas que possuem argumentos bem fundamentados e, portanto, mais sólidos que os seus.

Em suma: seja este imbecil, mas com cautela.


Karam

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