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Que Horas Ela (Ganha Consciência?) Volta?

Sobre ricos e pobres... e os lugares que a sociedade reserva para cada um deles.


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O filme “Que Horas Ela Volta?” – dirigido por Anna Muylaert – pode ser dissecado tanto sob aspectos puramente cinematográficos, quanto sociológicos. A sua profundidade reside justamente aí: a partir de personagens tridimensionais e conflitos reais, que ressoam particularmente nas mentes e nos corações da sociedade brasileira atual (onde o apartheid de classes se faz sutil e velado), este verdadeiro representante do Cinema Brasileiro Contemporâneo destaca-se em meio às “comédias pastelão” padrão Globo Filmes que se proliferam todo ano... e enfraquecem o dom de pensar de nossas mentes.

O Roteiro

Se formos parar para analisar com calma o roteiro de “Que Horas Ela Volta?”, perceberemos o quão complexo ele é. Apesar de toda a aura de simplicidade que rodeia a narrativa do filme de Muylaert, a dinâmica das relações mantidas entre o seus personagens centrais revela muito mais “pano pra manga” do que inicialmente suporíamos ser possível para uma obra que, em sua superfície, apresenta-se de forma despretensiosa.

Vejamos: “Que Horas Ela Volta?” conta a história de Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha há anos para um casal paulista de classe alta. Ela é como uma mãe para Fabinho, filho do casal. Tudo parece perfeitamente “bem” até que Jessica, a filha de Val, vai a São Paulo com o intuito de prestar vestibular e acaba se instalando na casa dos patrões ricos de sua mãe. O verdadeiro conflito do filme se dá a partir deste momento.

Como é possível perceber através desta breve sinopse que acaba de ser apresentada, “Que Horas Ela Volta?” segue aquele padrão de narrativa clássica apresentado pelo americano Syd Field. Os pontos de virada estão todos ali, muito claros. A narrativa não é nebulosa, é mais do que aparente e perfeitamente entendível. Por isso, muitos podem interpretar a obra como “corriqueira” ou superficial.

Mas assimilar uma sinopse é muito diferente de assimilar um filme.

Quando eu mencionei, na sinopse, que “... tudo parece perfeitamente ‘bem’ até que Jessica vai a São Paulo morar com a mãe e os patrões ricos”, as aspas em “bem” não se fizeram presentes por acaso. Por quê? Porque a verdade é que nada estava bem, desde o início. Não foi a partir da chegada de Jessica que a relação de Val com seus patrões se deteriorou. O que acontece é que Jessica torna-se o agente catalisador do conflito. É ela quem questiona, quem põe à prova as atitudes dos patrões em relação à mãe e da mãe em relação aos patrões. Ela insere-se naquele mundo (que já está de cabeça pra baixo – mas ninguém percebe), e o estremece. Jessica incomoda porque pergunta. Porque não aceita “o que vem”. Pois, na sua cabeça, sempre há mais por vir para aqueles que buscam este algo a mais. Ela é um reflexo da juventude questionadora, enquanto sua mãe vive em plena conformidade, sujeitando-se a uma posição de inferioridade que, em sua cabeça, lhe parece perfeitamente natural. Para Val, a inferioridade faz parte de seu ser. Ela vive uma ditadura na qual ela é a ditadora de si própria – pois a sua posição de inferioridade já está enraizada (em forma de ideia) na sociedade em que ela vive. Para ela, não há escapatória. Para Jessica, sim. Ela teve acesso a livros, à internet, ao estudo. Ela teve acesso a informações que sua mãe jamais teve. E, por esse motivo, não sente-se confortável numa posição de subordinada. Ela é a dona de sua própria vida. Tem seus ideais, seus planos. Jessica desafia a todos: a mãe, os patrões, o filho dos patrões... Ela é segura de si, e entende-se como gente, não como rato. Por este motivo, sim, ela pode entrar na piscina.

Neste sentido o roteiro revela-se perspicaz, ao desviar da rota comum das narrativas clássicas: a chegada de Jessica não causa a ferida – ela expõe a ferida. Já o último ponto de virada do roteiro, este sim, é mais tradicional: ocorre de fato uma mudança no interior de um personagem: Val adquire certa consciência e decide abandonar seu emprego de anos para dedicar-se à sua filha... e ao seu netinho.

Além da superfície: as complexidades de cada personagem rico

• Bárbara, a patroa de Val:

Bárbara é uma mulher rica que age de forma a agradar a todos. Vive uma vida de aparências. Em alguns momentos, o filme dá a entender que é dela que vem o “sustento” da família, mas perto do final acabamos descobrindo que não. Trata-se de um truque de roteiro para direcionar as noções do espectador acerca do funcionamento daquela família. Possui uma relação distante com o filho. Diz para ele estudar, mas não acompanha seus estudos. Chateia-se com o fato d’ele não ter passado no vestibular, mas logo lhe paga um intercâmbio na Austrália. Enquanto isso, é Val quem apoia o menino e lhe deita em seu colo. Faz cafuné. Conta histórias. Val, a empregada, que lhe serve todos os dias, é sua verdadeira mãe.

Na relação com o marido, logo se vê que não há muito afeto. Porém, estão casados. Há de se imaginar: tudo pelas aparências.

A chegada de Jessica expõe sem piedade a verdadeira natureza de Bárbara: trata-se de uma mulher egoísta, metida, preconceituosa, falsa, invejosa. Ao ver-se numa situação em que é obrigada a servir café da manhã à Jessica, o seu verdadeiro “eu” vem à tona: transparece em seu rosto a raiva de estar “se submetendo” àquilo, fazendo o papel que, em sua cabeça, apenas uma empregada deveria fazer. Para piorar: ela não estava só servindo alguém, como estava servindo a filha da empregada! Para Bárbara, não há humilhação pior. E ver sua face incrédula ao testemunhar a aprovação de Jessica no vestibular (enquanto seu filho nem chegou perto da pontuação exigida), resulta num pequeno-maravilhoso-prazer para o espectador sensato.

Uma consideração importante: apesar da complexidade da personagem ser louvável, há alguns momentos em que Bárbara mais parece uma caricatura vilanesca saída de uma novela do que um ser humano de verdade. Sua caracterização peca pelo exagero.

• Carlos, o patrão de Val

Em suas primeiras aparições, Carlos nos parece um personagem menor. Sua presença em tela quase nos passa despercebida. No entanto, com o passar do tempo, em paralelo ao desenrolar dos conflitos entre Bárbara e Jessica, vamos conhecendo mais a fundo o patriarca daquela família disfuncional.

Algo que chama a nossa atenção logo de cara é o interesse de Carlos por Jessica. Interesse que é tanto intelectual quanto amoroso: o homem, muito mais velho, se aproxima da filha de sua empregada devido ao fascínio de ambos por arquitetura. E com esta aproximação revela-se a solidão e a carência de Carlos, anteriormente escondidas em função de suas feições rígidas e de seu comportamento blasé. Fica claro, quando Carlos pede Jessica em casamento, que a vida daquele homem é marcada por um tédio profundo, por um completo “não viver”. E a presença de Jessica acende em seu interior uma chama, torna-se quase um alerta que o obriga, com violência, a sair do estado de letargia.

• Fabinho, o “filho” de Val

Val ama Fabinho como a um filho, e Fabinho ama Val como a uma mãe. No entanto, o garoto não faz a mínima questão de inserir a empregada no seu cotidiano. Isso ocorre não pelo fato d’ele ser má pessoa: ele é apenas um boçal, condicionado a um tipo de comportamento que naturalmente (e sem perceber) exclui a empregada doméstica da realidade da classe alta. Ele não parece incomodar-se com o fato de que a pessoa mais próxima de exercer a função de mãe em sua vida é, na verdade, uma serviçal que não senta à mesa, não entra na piscina e fica abarrotada num quartinho minúsculo, exercendo sua “inferioridade” de cada dia.

Fabinho não existe. Ele é um completo alienado: não apresenta uma personalidade, apenas “segue o fluxo”. É rico e dispõe de todos os bens materiais que lhe são interessantes. Acorda, vai à aula, entra na piscina, come, dorme. Não faz nada de muito inspirador.

Jéssica é o oposto. Tem objetivos claros em mente, e uma personalidade em polvorosa. Jessica é forte e Fabinho é fraco. Jessica é pobre e Fabinho é rico. Jessica tem à sua frente a oportunidade de estudar numa faculdade e tornar-se arquiteta. Fabinho vai continuar acordando, indo à aula, entrando na piscina, comendo e dormindo...

mas na Austrália.

“Que Horas Ela Volta” é reflexo de sua época.


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