ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

A arquiteta e eu

A aranha estava certa . Eu estava apta pois tinha percorrido toda a trajetória da dor e conhecia o sabor da alegria. Desse jeito eu poderia bordar minha própria teia com o viés da liberdade.


32115ba40253b3835b95ad716ed9d17c.jpg São tantos sons - verdadeira algazarra e desassossego. Depois vem calmaria, vento em contramão assoviando melhores fases. É assim aqui e lá onde o sol adormece cedo e a noite surge repleta de estrelas - umas apagadas outras brilhantes de cegar.

O céu do ontem se contradiz com o de hoje, não sei se meu olhar ou se o planeta realmente mudou. Naquela época essa época do ano- durante o dia e à tardinha chovia a ponto das plantas fresquinhas, adormecerem - aptas para enfrentar um novo dia, um novo desafio. Os pássaros não se agoniavam tanto, eles descansavam e cantavam como numa conversa de amigos, com pequenas pausas necessárias para se ouvir o outro. Mas agora até os pássaros tem pressa, e o canto se torna um desabafo- eles agonizam a ponto de pedirem chuva. A meteorologia às vezes erra, e aquela chuvinha prometida foi adiada- talvez hoje se cumpra. Caso ocorra o previsto, abrirei as janelas, os pássaros correrão em direção a seus ninhos e tanto eles como eu, tiraremos uma soneca revigorante. Acordarei plugada e finalmente darei fim a minha história lacrada na gaveta repleta de teias. Conversei com a aranha em sonho, ela me disse algo como jornada minuciosamente planejada, e me contou ao pé do ouvido, a sensação de ganhar novos espaços, por vezes já habitados por outros aracnídeos. Sim, ela me disse em sua linguagem peculiar de aranha, em aranhês bem falado e articulado, melhor ocupar espaços verdadeiramente vazios, pois os que já foram habitados necessitam de reformas- o que representa recomeços e emendas. Prosseguiu em tom professoral, bem diferente dos tagarelas passarinhos que se calavam ao nos ver conversar, ela prosseguia fiando mais uma rama. Venha ver o que fiz nesse canto acima da janela. Pus meus olhos em sua engenhosidade, e percebi uma forma arredondada e milimetricamente armada- entre os desenhos havia triângulos, quadrados e círculos. O sol estava no meio do triângulo enquanto as outras formas estavam ocupadas por cores vindas de um arco íris, à direita o azul, à esquerda o vermelho, acima o amarelo e abaixo o verde. Linda a sua casa! A primeira frase pronta em minha mente a ser dita para aquele exemplar sui generis. E você, faz teias ou remendos? Prosseguiu minha amiga aranha num tom amigo, de quem deseja passar horas a fio em conversa. -Eu não sei fiar minha amiga, só aprecio. -Ora ora deixe sua imaginação tecer … busque o início de tudo, comece com a água e suba o curso do rio. Feche os olhos. E siga o caminho da água. - Eu vejo pedras. Melhor parar. - Desvie de todo tipo de corpo, seja pedra, seja musgo. Olhe para todos os lados. Amplie sua visão de espaço, observe os pássaros, é noite ou é dia? Há estrelas ou chove. Trabalhe com as cores. Prossiga. - Difícil demais minha amiga aranha. Isso não é tarefa para os humanos, e sim para vocês seres mais engenhosos e delicados. - Imagine-se aranha e venha comigo. Nesse instante me pus a bordar um início, e lá estava minha boca esgoelada de fome, ávida por peito sem conseguir pegar os mamilos de minha mãe. Depois veio o dorso dos seus dedos me aliviando o ventre. Segui mais um passo, me vi tomando banho de rio, brincando feito moleque, descalça. Trepa daqui,trepa dali - haja goiaba e caju nas bacias de alumínios que tiniam ao sol e exalavam cheiro de caramelo. Mais um passo me vi escrevendo poemas, algo como é proibido amar para não morrer de inanição, beijos roubados, outros tantos sem graça. Amigos aos montes, únicos e singelamente escolhidos. Os passarinhos que estavam quietos passaram a cantarolar em sinfonia. Interrompi o trajeto e disparei a rir com minha mais nova amiga aracnídea. Precisava de um adendo, uma pausa e assim me dispus a perguntar qual o nome dela ou dele. - O nome que você quiser me dar. Então vou te chamar de arquiteta, tudo bem? -Gostei. Eu e a arquiteta continuamos destilando o ontem pois sabia que iria me surpreender. Para se construir a casa necessário o alicerce, sem base sem tijolo ,tudo desmorona. Dei por mim, realmente o rio da minha vida estava ainda vivo e cheio de possibilidades. As escolhas que eu fiz, os cheiros de mato, os banhos de mar, o meu primeiro amor, a minha primeira desilusão, as minhas frustrações, o medo de me entregar. As rejeições imaginárias. Lentamente e sucessivamente fui afrouxando o cinto da calça, entre lágrimas, um sorriso aberto, de novo início. -Agora você está livre para formar a sua teia, minha amiga. Ela estava certa. Eu estava apta. Eu tinha percorrido todo o caminho entre dor e brincadeiras alegres ao sol. Agora me restava bordar a minha teia, e assim fiz, fiz o rio e lá pus estrelas - vistas de longe pareciam diamantes, e de pertinho um duradouro chão. Nesse momento estou construindo as paredes, sem pressa alguma, pois ainda tenho muito tempo. E o rio, ah o rio está seguindo o fluxo, e o teto vou deixar sempre aberto para enxergar o céu, seja límpido como os verões passados ou nebulosos. A arquiteta está sempre ao meu lado agora sem falar, deu a vez para os pássaros pois descobriu que o silêncio fala mais. Abro a janela do meu quarto e me deparo com uma lua gigante, avisto a minha sombra, a da aranha e a dos pássaros com os olhos fechados. Eles dormem em pé.


Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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