ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

Como Anton Tchecov pintaria sua tela de palavras na era dos relatos rasos?

No conto Angústia Anton Tchecov traz a história do cocheiro Iona e seu desconforto com a morte do seu filho. Impressionista das palavras, o escritor sobreviveria cravado numa cama ou estaria postando seus contos nas redes sociais? Se a era é das mensagens curtas, e os sentimentos tão rasos e esquecíveis, como um dos maiores mestres da literatura mundial pintaria sua tela de palavras?


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Anton Pavlovitch Tchecov, o impressionista das letras, como sobreviveria na era dos tablets, ipods, e mensagens curtas e breves- todas diagramadas pela pressa? Médico por vocação, dizia que a medicina era sua mulher e a literatura sua amante. Não ganhou muito dinheiro com nenhuma das duas. Começou sua carreira de escritor escrevendo crônicas para jornais de humor, onde assinava com pseudônimos. Com essa literatura com viés cômico e popular obteve algum sucesso. Os escritos dramáticos teve como marco "A estepe" em 1888. A partir daí ele prima pela qualidade dos trabalhos. Decepcionou-se com a crítica quando apresentou no teatro o seu trabalho ` A gaivota". Muito mal recebido recebeu vaias e saiu com a convicção de que jamais voltaria a escrever para o teatro. Tchecov não presenciou o seu sucesso mundial, finando-se aos quarenta e quatro anos. Não viu as legiões de pessoas e escritores que se abasteceram de sua literatura. Hoje é considerado por muitos o grande mestre da arte de contar seja sob a forma de ensaios, peças teatrais, novelas ou de contos.

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Hoje sua tela poderia encontrar-se branca como o papel originário de todo escritor. Mas acredito que Tchevoc postaria nos posts frases curtas que apregoassem tintas e mais tintas denotando cor a esse mundo tão árido. Quem sabe? Ou poderia estar medicado, sofrendo de depressão, pois seus textos também não seriam lidos pela maioria. Ao ler e reler seus textos ou tintas percebo o quanto é necessário o escritor continuar escrevendo mesmo que ninguém o leia. Escreve-se para entender-se e ao outro e as láureas e curtidas não são tão importantes quanto o legado que acompanhará e vingará por décadas. A sociedade caminha para o resumo de suas emoções e um dia talvez haja uma necessidade real de esmiuçar estes sentimentos para torná-los duradouros como a obra de Anton Tchecov.

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Por exemplo, no conto Angústia ele conta a história do cocheiro Iona e sua perda inimaginável de perder o filho. Em particular o cocheiro deseja ser compreendido em sua dor e percebe que ninguém se habilita em ouví-lo. Segue em sua angústia e a extravasa nos ouvidos de sua égua que chama de "mana eguinha". Com sua pegada lírica e sensível o escritor pinta uma tela rica em imagens. Ao se aproximar da égua e torná-la confidente a transforma no melhor dos personagens pois a humaniza ao escolhê-la como amiga e apta a entendê-lo. A dor do cocheiro Iona é tão insuportável de se sentir que não há como deixar de se emocionar. Afinal perder um filho destrói qualquer ser que está fadado a amar. Seja na Rússia do século XIX seja na era cibernética. E talvez o nosso amado Tchecov continuasse a escrever do mesmo jeito, sem mudança alguma de pontuação. Ele pode por que é um clássico e por si só não envelhece.

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Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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