ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

Controle remoto

Um quadro em constante mudança. Seja aqui ou do outro lado do mundo.


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Ele dança a valsa em plena rua enquanto a criança passa de mãos dadas com o pai. Parece uma cidade já vista, mas não há pistas, talvez São Paulo ou Nova York ou Barcelona. O céu está negrume e não há pistas de sol, mas mesmo assim ele dá voltas esbanjando um sorriso.

Do outro do lado do planeta uma mulher com dificuldade de andar percorre o deserto – seus olhos estão fundos e sua magreza nos braços e pernas contrasta com o tamanho da barriga. Está grávida e sedenta. Cambaleia. No Japão a essa hora já é madrugada – as luzes em neon refletidas nos inúmeros murais a céu aberto formam uma névoa de palavras soltas dentre as quais fartura, sabedoria e esperança.

No norte da Ásia caravanas de pessoas alcançam fronteiras pois fogem de regimes totalitários. Na África guris exibem lanças e cajados e suas faces são bem envelhecidas. Seus corpos são frágeis e esqueléticos e mesmo assim eles dão o grito de guerra.

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As águias fogem de um maremoto no Pacífico enquanto meu dedo congela e mesmo assim tento dar sequência ao meu estar no mundo, mas lembro-me da comida que está prestes a queimar.

Por aqui só há mansidão e um cantor de ópera insiste em cantar La Traviata. Desejo caminhar pelo dor e pela alegria do mundo e mais uma vez reescrever histórias.

Volto ao canal onde encontrei o senhor dançando valsa, agora a cena não existe mais. O comercial exibe uma família em volta da mesa saboreando um café com torradas. Passo para o canal seguinte, a mulher que trafegava pelo deserto pariu uma linda menina e logo após morreu e o documentário foi laureado com um troféu.

No seguinte o Japão está sem os outdoors e sem os neons, o que vejo é uma grande bola de fogo se alastrar na mesma avenida. É um filme e dos bons na parte final.

Passo mais um canal e me concentro na receita do chef. Comida me faz lembrar a panela que eu deixei no fogo. Desço as escadas em compasso rápido, pois sinto o cheiro de queimado. O que antes era risoto agora virou carvão. E desde já o levo para a lata de lixo. Feito louca passo a dançar em som de ópera enquanto a libélula pousa na minha mão. Vou me alimentar de luz pois não há nada na geladeira. Escuto um bum - não é aqui é no quarto da televisão. Meu modelo Telefunken 77 se foi de vez.

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Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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