ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

Quixote, o cavaleiro errante de Guimarães Rosa e Jorge Luís Borges

  Um triângulo. Em uma ponta Jorge Luís Borges, na outra Guimarães Rosa e no ápice um personagem com as vestimentas de uma cavaleiro - O D.Quixote. Por que a escolha? Acredito que em Literatura nada é exato e circunscrito. E ao esmiuçar a escrita dos dois escritores, descobre-se similitudes e diferenças, apesar do objeto ser o mesmo.Percebo que as aventuras do nosso Quixote e seu psicológico não revelado, e daí o lado intrigante do romance são verdadeiros laboratórios para os escritores. Não somente suas possibilidades, mas também seus segredos e mistérios. Somente o fato de ler demais romances de cavalaria não tornaria Quixote um louco, todos nós sabemos disso. Mas mesmo sem saber o porquê acreditamos ser ele um louco, por não distinguir as coisas dos signos. E a partir dessa loucura será o próprio Quixote a literatura, solta, criativa e ficcional?
 


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O grande marco da literatura moderna sem dúvida foi o livro Don Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes, autor espanhol do século XV. O livro conta a história de um fidalgo espanhol- Quixote, fã de romances de cavalaria que de tanto ler as histórias perde o juízo e passa a se sentir um cavaleiro errante. Sempre na companhia de Sancho Pança e de seu cavalo, na realidade um pangaré de nome Ronicante, ele segue pelas terras de La Mancha, de Aragão e de Catalunha. Nosso aventureiro e corajoso Quixote segue no curso da fantasia, mas sempre é desmentido pela tão dura realidade.

O romance foi lido e relido por diversas gerações de escritores entre eles Jorge Luís Borges e Guimarães Rosa- cânones do século XX. Apesar de nos remeterem a ambientes distintos, o primeiro à Buenos Aires e o último aos Sertões das Gerais, em comum possuem o processo de cravarem os elementos da língua falada no corpo da escrita seja por um encadeamento de sintaxes (Borges) seja em selecionar os significantes e criar neologismos (Guimarães Rosa). Em Borges as histórias surgem em camadas superpostas em passos curtos, girando em torno do mesmo ponto já em Guimarães Rosa esse espaço cresce, pois, a narrativa necessita crescer para assim fluir.     

A linguagem dos dois é distinta.  Para isso podemos dissecar o conto Pierre Menard, autor de Quixote onde o uso da reprodução proposital de trechos do texto de Cervantes é uma constante e perceber que mesmo repetindo palavra por palavra o autor Pierre Menard não plagia a obra de Cervantes. No conto Menard esmiúça o capítulo XXVI do romance de Cervantes e chega a conclusão que ao transcrever os capítulos que tanto lhe interessam não está imitando a obra do escritor espanhol. Ele muito menos acha Quixote necessário. Difícil ele compor o personagem no século XX pois suas realidades são distintas, enquanto o cenário de Cervantes era a Espanha do século XVII, onde o obstáculo maior estaria em um confronto entre as ficções de cavalaria e a realidade provinciana, a realidade de Menard, mais complexa, está voltada a terra de Carmem durante o século de Lepanto e de Lope. Continua em um exercício de análise e examina outro capítulo e chega `a conclusão que atribuir `a James Joyce a imitação de cristo não é suficiente renovação dessas tênues advertências espirituais? Sem dúvida, Borges amadureceu o seu conhecimento sobre Cervantes `a medida que analisou as suas personagens. O Quixote figurante do maravilhoso, do sobrenatural e do assim dizer fantástico, sem, contudo, perder a espinha dorsal da obra e seu aspecto realístico.

Já em Guimarães Rosa com o conto “ Tarantão, meu patrão. O Tarantão é construído como um anti-herói, o velho e sua velha escolta-os quatorze camaradas mais Quixotes do que Sancho alistados no caminho. O leitor descobre que o velho era digamos meio maluco e descendente de sumas grandezas e riquezas. E de pernas compridas, engraçadas e de compridos alvos cabelos e de pescoço comprido, o grande gogó, respeitável e alto e em tudo semelhante ao Cavaleiro da Triste Figura.

Guimarães reescreve na estória o episódio do Quixote e de Sancho Pança com as três lavradoras sobre três burricos. Em Guimarães é só uma “probrepérrima”, a pé, com um feixinho, de lenha e uma criança escarranchada nas ancas. O velho, de chapéu na mão e com as demais cortesias, a “fez montar em seu cavalo, cuja rédea ele veio, galante, `a pé, puxando. E assim a levou até o seu destino, um povoado, onde a “ a pobre e festejada mulher “ se apeou, menos agradecida do que envergonhada.

Chega e parte a cavalo o moço que muito amou e ainda mais amará. E vem de longe, de onde muitas vezes não se sabe, os desterrados, os peregrinos, os sofridos, os que carregam consigo a morte e o destino dos outros. Em “Taranto, meu patrão”, Guimarães Rosa constrói um Quixote voltada para o interior do Brasil- o Quixote daqui é mais velho, um velho “cheio de sandices”, o narrador é o vagalume, o criado – alusão ao escudeiro Sancho Pança. Guimarães jamais se distancia da sua linguagem para construir seu Tarantão- um cavaleiro andante pelos povoados do Sertão. Entram nos arraiais a tropa com os nomes comuns no Sertão (Dosmeuspés, o semedo ,Curucutu, Vagalume, dentre outros).

O narrador está cônscio das sandices do patrão. Em sua aventura segue o descendente de Io João de Barros Diniz Roberts, seu amo, maluco. Apesar de passar vergonha segue o Tarantão. Saiu o Quixote; Tarantão em busca do sobrinho neto, o tal que lhe deu injeções e uma lavagem intestinal. Difícil não conter o riso se ao continuar depara-se o leitor com o “-Mato, mato, tudo “. Endemoniado, segundo Vagalume, segue o patrão solto pensando ser o demônio atrás de vingar-se do sobrinho neto.

O trajeto nos remete ao psicológico dos personagens. Tinha Tarantão uma faca de cozinha enferrujada e esse seria o instrumento para apunhalar o médico, seu sobrinho-neto, causador do seu sofrimento. Ao chegar na casa do sobrinho se surpreenderam com uma festa de batizado da fila do Magrinho. A tropa entra em clima de alegria e são surpreendidos. Termina o conto com Io João Robertes na fazenda com seu trato escelentriste na voz do narrador, voz cortada por um soluço de saudade do patrão amalucado, todavia amigo.

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Enquanto Borges defendia um Cervantes desinteressado na realidade de Quixote, muito menos sua psicologia que se pudesse sugerir as razões de sua loucura, e suas aventuras seriam meros adjetivos de Dom Quixote. Guimarães dá um tom bastante engraçado a seu lo Roberts, um velho turrão que pensava em vingar do Magrinho, seu sobrinho neto e médico que lhe fizera uma lavagem intestinal e lhe dera injeções. O motivo tão fútil e inverossímil aproxima o personagem. Tanto Ido Roberts quanto Quixote são personagens da literatura fantástica.

  Deixo uma pergunta: A escolha do personagem Quixote está na consciência do seu interior rico, onde há uma gama infindável de possibilidades, aquilo que Michel Foucault define em seu ensaio “as palavras e as coisas” onde pinta nosso cavaleiro andante, nosso herói, como um crédulo das histórias de cavalaria e por tanto acreditar na existência das mesmas ele resolve por bem se travestir de uma personagem? Ele lê o mundo para demonstrar que os livros existem. Nesse caminho de aventuras, Quixote busca as similitudes, as estalagens por exemplo tornam-se exércitos. E seu universo interior, tão rico e ao mesmo tempo tão ingênuo o torna um senhor personagem. Sua pretensa loucura também o torna inverossímil, e, portanto, ficcional ao extremo. A escrita e as coisas não se assemelham mais, sim o nosso Quixote é contemporâneo e sempre o será, já que sua linguagem é criativa e imaginativa, resumo do que seja uma boa ficção. Quixote está a passear no fundo da aventura. Ele reencontra personagens que leram a primeira parte da sua própria historia, e o reconhecem como o herói do livro. Quantas historias podem surgir de Quixote?   Por que a escolha de Quixote? Acredito que em Literatura nada é exato e circunscrito. E ao esmiuçar a escrita dos dois escritores, descobre-se similitudes e diferenças, apesar do objeto ser o mesmo.

Percebo que as aventuras do nosso Quixote e seu psicológico não revelado, e daí o lado intrigante do romance são verdadeiros laboratórios para os escritores. Não somente suas possibilidades, mas também seus segredos e mistérios. Somente o fato de ler demais romances de cavalaria não tornaria Quixote um louco, todos nós sabemos disso. Mas mesmo sem saber o porquê acreditamos ser ele um louco, por não distinguir as coisas dos signos. E a partir dessa loucura será o próprio Quixote a literatura, solta, criativa e ficcional?  


Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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