ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

Gaivota é gente

As gaivotas banham-se ao sol. No semblante de cada uma delas há gestos e a fala de todos nós. O mundo está repleto de gaivotas prontas para voar. E quando a saudade bate, melhor imaginar-se gaivota e pousar onde se deseja pousar.


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Quatro gaivotas banham-se ao sol. De olhos fechados parecem sentir a brisa. Não é verão apesar da época do ano. É primavera mesmo sendo janeiro. Elas parecem felizes. Em grupo de duas em duas treinam seus voos. A primeira me faz lembrar Esmeralda, a filha da vizinha que nunca mais foi vista. Mudou de gênero e não quis contar para ninguém- sumiu de todos, mora no estrangeiro, e sequer liga para a mãe e o pai. A de trás não me parece feliz. Tem a cara do Raimundo, o cachaceiro irmão do porteiro mais conversador do bairro. Bem, ela tem a cara de pancreatite. Se pudesse decifrar um pâncreas em estado degenerativo, sua cara seria bem ilustrativa. Ela franze os olhos e não parece sorrir afinal há uma acidez terrível corroendo seu interior. A primeira da segunda e última fileira é a cópia fiel de Margarida. A nora que eu queria ter, amante de fotografia, sorri o dia inteiro e gosta de chocolate. Por enquanto está solteira, sonha casar e ter uma penca de filhos. A última é a cara do Batista, o coroinha da paróquia daqui de frente. O Batista não tem vida, segue os conselhos do padre e sempre está com o olhar atento, como um soldado a cumprir ordens.

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Quanto a mim continuo andando na areia dessa extensa praia. Já passa das dez da manhã, o sol parece acanhado e no horizonte há um lindo arco íris. Assusto-me quando as quatro gaivotas sobrevoam a minha cabeça e o Raimundo dá uma cagada bem no meio do meu pé. Vou às pressas para a água, lavo o pé, a catinga sobe minhas entranhas, vomito a alma e sem qualquer chance de me recuperar sou socorrida pela gaivota feliz, alcunhada de Margarida. Ela me lambe até que eu acordo de vez. Estou na minha cama, não são seis horas da manhã, o céu está negrume – certamente o dia será de chuva. Volto a dormir. E como mágico torno a vê-los pegando sol. Agora Esmeralda vem para o meu lado, vem me contar um segredo. Diz algo como diga a minha mãe que eu sinto saudades. Diga que eu estou bem. Não esqueça de dizer a meu pai. Como um soldado, bato na casa da amiga quiçá vizinha de porta. E dou a boa notícia, digo que sonhei com Esmeralda e que ela está bem. Toca o telefone, estranhamos.

Na linha Esmeralda diz que vai ser mãe e que pensou tanto em mim. Não vou contar o sonho, isso só conto ao leitor. Mas que é uma delícia ser avisada antes e por uma gaivota, ah isso é. Daqui conto os dias para pegar o voo para o estrangeiro. Vamos eu e os pais de Esmeralda. Antes vou passar na praia. E quem sabe de lá avisto alguma gaivota e


Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
Saiba como escrever na obvious.
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