ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

clarice, a catadora de emoções

Clarice Lispector dispensa apresentações. Seus escritos sempre nos colocam frente a frente com nossos sentimentos mais profundos. Da solidão à felicidade. Do simples ao Complexo. E assim nosso ser é reinventado a partir do momento em que nos conhecemos. Felicidade clandestina é o primeiro dos contos que pretendo apresentar ao leitor.
A história tem como plano de fundo a cidade de Recife e a relação de duas colegas de colégio. Uma, detentora de livros e outra bela, como a Clarice narradora. Lindo conto.


Neste fim de tarde, quando o sol trata de vez se esconder para dar início a noite, cheia de mistérios e medos, tenho vontade de reler Clarice Lispector. Retomo minha leitura e releio Felicidade Clandestina. Nesse pequeno conto ela descreve a relação de uma colega de escola, filha do dono de Livraria da cidade do Recife. A colega era feia, gorda e chata e a narradora, loira e bela. A menina, invejosa por não deter os atributos de beleza da narradora, a faz de boba, pois nunca empresta o livro prometido- as Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Com uma agilidade impressionante, Clarice nos coloca naquele cenário. Descreve a maldade e a inculta na inveja. A menina por fim, é desmascarada pela mãe, que finalmente empresta o livro almejado, sem prazo para devolução. A sensação da liberdade de ficar com o objeto do desejo quanto tempo desejar jamais é disfarçada e sim adiada. Os passos são lentos até a casa onde mora.Tudo para saborear a conquista de ter o livro em suas mãos. Seria isso o que chamamos de felicidade? A relação da narradora com o livro passa a ser desejo, a menina dá lugar a mulher que encara o seu objeto como um amante, e dos mais envolventes. O conto, de leitura simples, é cheio de complexidades. Quando a narradora diz que “fingia que não o tinha só para ter o susto de o ter “ traz à tona o quão assustador é o sentimento da felicidade. A menina é recompensada com a liberdade de ler o livro o tempo que quiser, utilizando-se do livre arbítrio. Liberdade é sinônimo de felicidade e assusta. Não para por aí, os esteriótipos de beleza e de cultura também são laçados, afinal ela era linda, mas era culta. E a inveja, tão comum nos que não encontram em si atributos que valham a pena, é tão miúda e feia como a imagem da filha do dono da livraria da cidade, um verdadeiro tesouro.

clarice.jpg

Quando Clarisse Lispector morreu, no fim de 1977, eu tinha nove anos de idade e gostava de ler e rascunhava algumas palavras que eu chamava de pensamentos. Quando leio sua biografia e me deparo com a seguinte frase “ Vi-me de repente num vácuo – E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar “ ( 1933), tenho a impressão que todos que escrevem sentem este vazio, ocupado com as palavras necessárias para a continuidade da vida. A vida de Clarice não foi fácil, e desde menina lutou. Mas a literatura sempre estava ali a amparando. E nós, leitores de Clarice, agradecemos, pois, a escritora nos agraciou com obras primas. E Clarice catou os sentimentos, um deles, a solidão, ela descreve logo no primeiro capítulo de “Maça no escuro (edição 1998- Editora Rocco)”: “ Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme”.

Não há mais o que dizer. Os bichos da mata adormecem, enquanto inicio esse pequeno ensaio. Boa noite. Vou procurar outro conto para ler, e depois eu conto o que achei da Clarice, caçadora de emoções. felicidadeclandestina.jpg


Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Adriana Vieira