ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

outros sentidos - o livro que me pertence

O livro infanto-juvenil "outros sentidos" é um achado. Um grande quadro,um grande livro naif preenchido por mini telas, com a sutileza e sensibilidade da escrita de Maria Emilia Algebaile. A grande tela está agora ocupando os espaços vazios da minha biblioteca. Um relento nestes dias tão difíceis.Uma brisa. Uma releitura da minha infância. Uma permanência.
Ganho para sempre a tela de Analice Uchôa e a escrita lírica de Maria Emília.
No traçado, a arquitetura do que sou e daquilo que não perdi. A infância.
As cantigas de roda. O gosto pela vida.
Gosto de Picasso , de Matisse, ambos foram os primeiros admiradores da arte naif preconizada por Henri Rousseau, pintor autodidata. Gosto de Analice Uchôa.
Gosto da poesia de Maria Emília Algebaile, uma melodia de sentidos.
Estou preenchida. Pertenço ao mundo dos sonhos.


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Chegou em minhas mãos, um livro colorido, de formato quadrangular, com um título sugestivo- um nome que ultrapassa os limites conhecidos, “Outros Sentidos” de Maria Emília Algebaile, com ilustrações de Analice Uchôa. Com poemas curtos e ilustrações naifs o livro é uma viagem ao mundo interior, ao mundo do sentir. Numa época voltada para a vida digital, a informação rápida e descartável, por vezes esquecemos de sentar, respirar e degustar sem a rapidez que a era nos induz a viver.

Esquecemos de sentir. Ou de lembrar o que sentimos. “Outros sentidos” é um livro rotulado de infanto juvenil, mas é um livro essencial para os adultos que não deixaram aquele olhar na infância, os adultos que amam histórias de fadas, duendes- cantadas e contadas. Ao ler a primeira estrofe “Dos sons que existem no mundo/Tem um que damos razão/Mas nem sempre ele está certo/Pensa sim quando diz não “, as imagens surgem, os sons pretéritos, os que me embalaram quando criança ressurgem, o mugido da vaca, o relincho do cavalo, o som da vitrola no volume máximo, Maria fumaça nos trilhos azuis da adolescência, o som da cadeira de balanço da minha vó, inumeráveis sons e sentidos.

Reluto em virar a página, estes sons me fazem bem, eu cresci e daí, mas ainda desejo sentir o que senti há anos atrás. Uma saudade. Vou para página dois, os olhos enchem d´água, as ilustrações me remetem aquilo que eu juro sentir, e isso me dá uma sensação de pertencimento- eu pertenço a este livro, e agora? Vou adiante, como uma escada, lembro-me das amarelinhas que eu brinquei onde em segundos chegava ao céu. Mas não preciso ir tão rápido, eu conheço o caminho, necessito provar a delícia dos detalhes. Ouço o meu mundo interior. As crianças também escutam. Eu ainda sou criança. Esqueço aquela dor no ombro. Estou brincando de roda. Lembro de nomes, muitos, nomes que momentaneamente esqueci. Mudei de lugar. Mas ainda estou lá.

As imagens ressurgem. Não me dou conta da imagem refletida no espelho. Não me sinto revestida de mulher. Meus pés de galinha sumiram. As linhas da testa também sumiram. Coloco o livro na minha estante. Releio o último verso, algo parecido com o gosto da vida é gostar. Gosto do último gosto, e no gesto de guardar o livro, guardo na prateleira branca. A capa é um quadro naif, com infindáveis possibilidades de sentir.

Esta pérola foi escrito por Maria Emília Algebaile, formada em letras, pós-graduada em Teoria Literária, autora de contos e crônicas “Mulheres que correm com as baratas “ (2011) e do livro de poesias “Fratura Exposta” (2013) e ilustrado por Analice Rodrigues Uchoa, expoente da arte naif, paraibana de Campina Grande e radicada em João Pessoa, autora das ilustrações do livro infantil “ Os Trinta dinheiros do Rei Melchior”.

O livro pode ser encomendado por correio eletrônico- [email protected] Boa leitura a todos, crianças miúdas e graúdas.

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Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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