ki literatura é essa?

Um olhar sobre a escrita dos clássicos aos contemporâneos.

Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento.
Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito

ALLAN POE NA VIDA DE UMA MULHER COMUM

Os pratos sujos adormecem empilhados exalando um forte odor de carniça. Dou de ombros.
Mal começo a leitura, no primeiro conto, sou assombrada por uma sombra. Passo o olhar no recinto, eu, o livro, meus óculos presos à cara e o sofá. Não é ninguém. Aos poucos, afugento o medo. Vou me acostumando com o lado sombrio dos cenários.
Ele chega sem aviso, me tasca um beijo, e facilmente me deixo levar. Suas mãos macias me tiram do liame da narrativa.
Sinto-me por que não dizer poderosa. Sonho com a louça toda lavada no dia seguinte. A mesa está pronta, ele me traz tapioca e suco de caju. Saio sem pressa. Eu e ele de mãos dadas. Ele vira à direita e eu sigo reto.


Os pratos mudam de cor, mas os livros, os livros trazem cor à minha vida.

Não se sabe se de fato essa assertiva procede. Mulheres são feitas de retalhos. São fortes. Ora gostam do cheiro das especiarias, para isso procuram dar o melhor de si, e como uma alquimista produzem um jantar à luz de velas. Antes passam no supermercado, compram os ingredientes. Sonham sim em dar contentamento a quem chamam para o jantar. Se sentem plenas, quando a pessoa amada gosta e elogia. Quando agem desse jeito, lembram das tias ou da mãe- ambas cozinhavam, mas não se sabe ao certo se gostavam da tarefa.

Mas há o dia seguinte, e no dia seguinte não desejam cozinhar, muito pelo contrário- Não há tempo para isso. Precisam trabalhar fora, mas há muita tarefa- precisam ir ao supermercado, lavar a roupa, a louça e administrar o tempo. Não dá tempo de tudo. Deixam algo no caminho, normalmente a louça por lavar. Mais fácil alguém se mancar e lavar antes. Quem sabe funciona? Pouco provável, por que mulher é um ser perfeito. Até falta um pouco de ar. Há uma voz que escuto, de como se deve ser, como se o ser dependesse sempre da aceitação do outro. Comigo foi desse jeito. Não sei se devia encarar a pilha de pratos sujos. Não teria sido fácil dar meia volta e me posicionar defronte a uma estante abalroada de livros. De súbito finquei meus dedos num livro de capa negra, com umas letras azuis - Os Crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe.

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Os pratos sujos adormecem empilhados exalando um forte odor de carniça. Dou de ombros. Mal começo a leitura, no primeiro conto, sou assombrada por uma sombra. Passo o olhar no recinto, eu, o livro, meus óculos presos à cara e o sofá. Não é ninguém. Aos poucos, afugento o medo. Vou me acostumando com o lado sombrio dos cenários. Ele chega sem aviso, me tasca um beijo, e facilmente me deixo levar. Suas mãos macias me tiram do liame da narrativa. Sinto-me, por que não dizer, poderosa. Sonho com a louça toda lavada no dia seguinte. A mesa está pronta, ele me traz tapioca e suco de caju. Saio sem pressa. Eu e ele de mãos dadas. Ele vira à direita e eu sigo reto. Passo pelo cinema, há um filme que acabou de estrear. Penso logo- vou assistir amanhã, último dia útil da semana. Pode ser depois do expediente. Mas hoje ainda é quinta, tenho que desobstruir minha mesa. Tenho que chegar em casa e caso a pilha de pratos esteja no mesmo lugar, vou ter que dar um jeito no caos. Eu nem me dei ao trabalho de conferir se ele lavou como no sonho. Vou até o banheiro da repartição. Esqueço de colocar batom. Estou me sentindo meio gordinha. Nossa, quantos pensamentos estão em mim? Ando cansada deles. Começo a me perguntar, do que adianta tanta perfeição? E sabe do que mais vou me assumir assim mesmo, sem batom, gordinha, amante da obra de Edgar Allan Poe. Vou mesmo curtir o filme amanhã, se ele quiser ir comigo, caso não queira, também será bom. Produzo o dia inteiro. Torno a sonhar com a pilha de pratos lavados. Nada feito. Continua um caos. Lavo um copo, tomo para mim a pureza da água. Largo meus sapatos ali mesmo na cozinha e feito uma noiva cadáver toco meus pés na grama, sinto um tiquinho do sol se despedindo. Vou terminar o livro de Poe. Lancho. Não vou preparar jantar, a preguiça me invade. Antes mesmo que eu termine a última página, sou surpreendida por ele, com uma bandeja de frutas. E ali mesmo os sumos nos alimentam. Antes de dormir eu escuto, meu bem amanhã de manhã eu lavo a louça. Embaixo dos lençóis, faço uma cabana- a louça não me incomoda mais, muito menos se ele fala a verdade. As sombras estão perambulando no avançar da noite. A escuridão não me apavora mais. O sono é profundo. Esqueci do cinema. Há sons, diversos, gatos derrubam telhas, seus corpos frisantes afugentam ratos. Passo a mão no meu rosto, a mão encardida de vermelho, adocicada e macia traz aconchego. A noite passa. Passa a chuva. Passa o sol. As folhas se renovam. Caem. Renascem. As pilhas de pratos mudam de cor. Novos pratos. Os de outrora se quebram. Já li toda a obra de Poe. Meus cabelos esbranquiçaram. Não ouço mais a voz impessoal mandando que eu faça isso ou aquilo. Por vezes fraquejo, mas me surpreendo e me rendo e me lambuzo com o ritmo das criaturas estranhas.


Adriana Vieira

Escrita sem emoção e sem técnica cai no labirinto do esquecimento. Necessário emocionar sem ser piegas e reinventar aquilo que já foi dito .
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