lambida casual

por Leticia Flores

Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever.

Mas, no final das contas, é ela que me escreve

50 tons de clichê: até onde vai o limite de dominação do ser humano?

Polêmica, masoquismo, poder, dominação e submissão: o enredo de "50 Tons de Cinza" que prometia muitas novidades chegou provocando uma onda de decepções, em especial nas mulheres. Mas em meio a um turbilhão de clichês, fica o questionamento que surgiu involuntariamente nas sessões de cinema: até onde vai o limite de dominação do ser humano?


Imagine uma bomboniere cheia de doces. Troque os doces por clichês. Um turbilhão de clichês: esse é o famigerado “50 tons de cinza”. Já nascido como um gerador de polêmicas, ainda em livro, a promessa de uma nova perspectiva de roteiro, com um enredo cheio de novidades, transformou sua versão em filme em uma onda de decepções, provocada, em especial, nas mulheres. Mas o foco aqui não são as mulheres, especificamente, e sim um tema que surgiu involuntariamente nas sessões de cinema: até onde vai o limite de dominação do ser humano?

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Como não li o livro, muito menos assisti ao filme, não vou me ater às peculiaridades do roteiro (cujas críticas não são muito otimistas, digamos a verdade). No entanto, mesmo não tendo me atrevido a adentrar as entrelinhas desta estória, é impossível manter-se alheio à explosão de comentários, críticas e até elogios sobre a trama e os questionamentos que ela levanta. Verdade seja dita, apesar da enchente de críticas, “50 tons” mal foi lançado e já é uma das obras mais comentadas do ano. São mais de 9 milhões de curtidas na sua página do Facebook. Até a minha mãe – que passa bem longe de uma cinéfila – foi assistir com seu grupo de amigas; e aposto que suas alunas adolescentes estão afoitas para vê-lo. Veja bem, meu caro, você viu algum grupo de caras ansiosos para assistir a um filme água-com-açúcar-e-um-pouco-de-pimenta como este? Bom, partimos daí então ao primeiro tópico para chegarmos, enfim, ao nosso objetivo sobre o assunto “dominação”, ok?

O machismo

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Se você assistiu a “50 tons” por livre e espontânea vontade, não tendo sido arrastado pela sua namorada ou grupo de amigas, ou se realmente está curioso e ansioso para vê-lo, você provavelmente é uma exceção – e, claro, não há problema nenhum nisso. Mas falemos da maioria. Sabe porquê a grande maioria de telespectadores do filme é composta por mulheres? Porque mulher, por incrível que pareça, também gosta – e muito – de sexo. Oi? O que isso tem a ver? Ora, ora. Você, homem, hetero ou gay, já nasce com um alvará para o acesso à pornografia, para comprar camisinhas, para assinar a Playboy e bater punheta. Você pode ser tímido, mas se for pego no auge da sua adolescência numa guerrinha de cinco contra um, o seu constrangimento vai passar despercebido e logo logo virará uma piada descontraída na família. Com o tempo, você entende que a sua sexualidade é natural e é até incentivado a explorá-la. Quanto à sua irmã? Bom, é melhor que ela não tenha um histórico de busca suspeito no Google, não folheie a G Magazine, muito menos explore com os dedinhos a sua engenhoca chamada vagina. Caso seja muito teimosa e descuidada o suficiente para ser pega em flagrante, poderá se tornar uma grande preocupação para seus pais. Isso significa que uma adolescente vai se desenvolver tendo menos fome sexual que um cara? É claro que não, ela só está sendo castrada pela sociedade machista e, assim que surge a oportunidade de satisfazer suas curiosidades visuais sendo apoiada por esta, ela corre para comprar o livro e garantir seu lugar na cadeira do cinema. Agora, me diga, você que já viu toda sorte de vídeos pornográficos iria mesmo se interessar por uma estorinha sem vergonha, mega produzida, pra assistir – acompanhado de uma centena de telespectadores – cenas de... SEXO? Claro que não. Primeiro, porque você aprendeu desde pequeno que não precisa pagar por isso. Segundo, porque... bom, digamos que as cenas sejam realmente muito boas e... bem, todos aqui já sabemos o que acontece com o Júnior quando a imagem vale a pena, né? Ok, sem mais perguntas, vamos ao próximo tópico.

A idealização Diversos artigos estão chovendo na internet sob esta perspectiva. As mulheres – me refiro às que sabem realmente o que é foder – ficaram abismadas com o espetáculo de mentiras que é mostrado sobre o sexo nas cenas do filme e sobre isso não há dúvidas: sexo limpo, ritmado, bonito e perfeito, só em cinema... e nos pornôs da vida (neste caso não tão limpos assim, né?). Mas aqui todo mundo já é grandinho o suficiente pra saber que o sexo de verdade não dita regras: tapas, puxões de cabelo, suores, fluídos, acidentes, posições desconfortáveis... tudo pode acontecer, inclusive NADA! Pode rolar sentimento, pode ser só tesão, pode nem ser bom. Eu brocho, tu brochas, nós brochamos. E é aí o ponto em que eu quero chegar: a idealização do homem. Imagine só, cara, se você tiver de ser igual ao senhor Grey para alcançar a sua realização sexual? E olha que eu nem estou falando de relacionamento. Você precisaria ser impecavelmente bonito, barba feita, rico, bem vestido e oferecer a sua donzela todos os bens materiais que puder para poder comprar suas horas na cama (seria Anastasia uma putinha iludida ao invés de uma ex-virgem inocente?). Para fechar o combo, você seria um lindo babaca engravatado e traumatizado com sua “infância sofrida” (este foi o perfil do personagem traçado pelas críticas que encontrei nas minhas pesquisas). Quer dizer, além de você ser podre de rico e gato (ok, eu sei que você adoraria sê-lo), você ainda é obrigado a ser uma sex machine cujo toque mágico faz uma virgem tremer na base e ficar molhada INSTANTANEAMENTE. Você não precisa ser mulher para saber muito bem da dificuldade que a maioria delas tem para atingir o orgasmo (a não ser que nunca tenha transado com uma, mas agora você já sabe que é, literalmente, FODA!). Daí vem o galanteador Christian Grey, fala uma frase decorada qualquer e ela se derrete em gemidos? Bom, se você já não estava curioso pela estória acho que agora está menos ainda, né?

Acontece que, não bastasse todo esse amontoado de estereótipos (nem vou entrar em detalhes sobre a atribuição de valores à virgindade da moça, ok?), o protagonista ainda entra com uma carga de dominação sobre a personagem feminina que extrapola significativamente as quatro paredes e seus respectivos fetiches. Então, vamos falar sobre isso?

Enfim, a dominação masculina.

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Ninguém, absolutamente ninguém aqui está julgando seus gostos sexuais. Tem gente que goza com tapa, com soco e até com mijo – está tudo ok, galera... mas até certo ponto. Já que estamos imersos em universo de clichês, aproveito para fazer uma pergunta: você já ouviu aquele ditado de que “sua liberdade acaba quando começa a do outro”? Pois é. Esse ditado argumenta acerca de limites e respeito, coisa que passa muito longe da postura de Grey. E foi exatamente isso que causou tanto furor nas redes sociais: o filme não soube delinear os limites entre várias coisas, tais como: amor e sexo; fetiche e rotina; sadomasoquismo e respeito. Estapear sua parceria sexual em consentimento com suas vontades e respeitar sua individualidade num relacionamento a dois foi, definitivamente, um ponto que deixou bem claro que esse tal de Christian é a tradução de um homem inseguro que se esconde atrás da carcaça de traumas passados, do medo de relacionar-se, do seu dinheiro e boa aparência para alimentar em homens e mulheres a falsa ideia de que uma das partes precisa estar no comando – na cama e na vida. Nenhuma relação pode ser saudável baseada em extremos, seja ele de dominação ou de submissão. Nenhum ser humano, seja ele homem, mulher, virgem ou “bem-comido” pode acreditar que não há escolhas em uma situação em que o outro se imponha como dominante – seja esse outro um parceiro sexual, um amigo, um companheiro e até mesmo um patrão. O sadomasoquismo e as preferências sexuais que sejam consideradas socialmente como fora do padrão não dão aval para que nenhum lado extrapole a individualidade e o arbítrio do outro – nem dentro e nem fora do quarto. O respeito não é um sentimento passível de evolução assim como tratamos o amor, a compaixão ou o ódio. Respeito depende necessariamente do caráter de cada um e não há nada que justifique (como apatia pela pessoa ou um trauma pessoal) não exercê-lo. Sendo assim, as palavras “dominação” e “respeito” não ocupam páginas diferentes apenas no dicionário, mas mantêm-se em posições de total oposição em que se um existe o outro, necessariamente, está fora.

Portanto, gostar de ser dominado(a) na hora do sexo também é uma questão que infere respeito e consentimento. Não só porque é óbvio (apesar do autor de “50 Tons de Cinza” não achar tanto assim), mas também porque se você não pede sempre o mesmo sorvete quando vai à sorveteria, também não precisa querer os mesmos fetiches quando vai ao motel, não é mesmo?

De qualquer maneira, livro e filme aqui mencionados não estão, de maneira nenhuma, sendo analisados muito menos curados/criticados. O apelo é apenas por uma reflexão social e pessoal que impeça os fãs de tomarem como verdade uma encenação que de vida real não tem nada!


Letícia Flores

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